Reflexo de Mim – Eu

Reflexo de Mim – Eu
Terapeuta e Consteladora Odegine Graça - Especialista em Autoestima, Relacionamentos e Relacionamentos Amorosos
Terapeuta e Consteladora Odegine Graça

“Jamais o olho viu o sol a menos que se tornasse semelhante ao sol, e jamais pode a alma ter uma visão da Beleza Primeira a menos que ela própria fosse bela.“

Plotino, séc. III


Foi esse mesmo Plotino quem observou que a capacidade de conhecer exige um fenômeno que ele denominou de adaequatio, adequação. Ele dizia que conhecer exige um órgão adequado ao conhecimento daquele objeto ao qual quer se conhecer, e se você não tiver o órgão apropriado àquele tipo de conhecimento, jamais poderá te-lo. Os antigos egipcios diziam que algo só pode ser conhecido quando se encontra no interior daquele que quer conhecer.

Hoje estamos tão distantes de nós mesmos que na maioria das vezes nos afastamos de todos os espelhos que queiram refletir nossa imagem verdadeira, pois tão passivos estavamos ao deixar que desenhassem esse mim que foi onde nos guardamos e aguardamos que EU calasse, sustentado por pão de mel. Me perdi de mim.


“Ha tantos anos me perdi de vista que hesito em procurar me encontrar. Estou com medo de começar. Existir me dá as vezes tal taquicardia. Eu tenho tanto medo de ser eu. Sou tão perigoso. Me deram um nome e me alienaram de mim.”

Clarice Lispector, Um Sopro de Vida.


Estamos vazios de nós. E lotados de Eus fabricados para nós. No tempo presente e atual fazemos tantas coisas e vemos tantas coisas que nos atualizam e desenham aquilo que devemos ser. E nos tornamos desconhecidos de nós mesmos. “O mundo não está a tona, está oculto em raizes submersas em profundidade do mar.” É Clarice ainda falando.

Podemos conhecer a nós mesmos através da superfície das coisas? Através de coisas externas? Através do aproveitamento adequado do tempo de me atualizar e falar a linguagem atual? Do não aceitar qualquer coisa? Do gritar espernear, ser um critico severo?


“Nunca a vida foi tão atual como hoje: por um triz é futuro. Tempo para mim significa a desagregaçãoo da materia. O apodrecimeno do que é orgânico como se o tempo tivesse um verme dentro de um fruto e fosse roubando a esse fruto toda a sua polpa. O tempo não existe. O que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas, mas o tempo em si não existe. Ou existe imutável e nele nos transladamos. O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então — para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto.”


Quando Clarice nos fala de tempo percebemos nela a angustia do existir e de saber claramente dessa existência, do seu peso, da sua responsabilidade. Hoje tudo é tão diáfano, tão rápido e sem consciência clara de nada. Parece que o homem perdeu o respeito por sua humanidade e se perdeu na rapidez de tudo aquilo que nos consome. Vivemos uma imitação de realidade, vivemos uma linguagem adotada, para uma construção artificial de símbolos mortos que nada nos dizem enquanto homens conhecedores de si mesmo.

Eu digo que muitas vezes a brisa fresca toca no rosto dos derrotados para abrir-lhes novas paisagens, equilibrar, pensar uma visão mais ecológica do mundo e reatar nosso compromisso com o humano e com o existir, com todo seu peso, para que tenhamos novamente pernas fortes e capacidade de sustentação.

Sobre a natureza humana e seu pano de fundo, cada qual tem seus olhos e neles brilham as meias verdades. Mas tudo que sabemos, tudo aquilo que conhecemos, está sempre vendado pelo obstáculo do nosso próprio desenvolvimento.

Fato é que existir está além de estar vivo. Não se nasce ser humano, torna-se ser humano. E nessa jornada, quanto mais ricos nos tornamos, mais pobres e necessitados nos percebemos.

A vida é uma confusão. E nessa FUSÃO, em algum lugar se encontram os fatos. E mesmo esses são somente uma réstia do meu olhar.

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