RAFCAL Kids & Psicomotricidade

RAFCAL Kids & Psicomotricidade

Associação do RAFCAL Kids com a Psicomotricidade na Prevenção da Obesidade Infantil 

Colaboradores
Maria Lúcia Lupepsa

Além de textos de autoria de nossa equipe, o Cá entre Nós inclui colaborações de colegas da área da saúde e educação.
Esse texto, de nossa colega Psic. Maria Lúcia Lupepsa, também está publicado na página
www.psicobela.com.br, desde Maio/2006 e foi requisito parcial para a conclusão do curso de Capacitação no Programa Rafcal -Reeducação Afeto Cognitiva do Comportamento Alimentar. 

 

“O corpo é nosso referencial com o mundo. É por meio dele que existimos e nos relacionamos com os demais. 

Para que então dissociá-lo da mente, do intelecto, dos pensamentos, dos sentimentos?“ 

       A psicomotricidade tem como objeto de estudo o homem através do seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo. Ela é sustentada por três conhecimentos básicos: o movimento, o intelecto e o afeto e é destinada a estudar, analisar e orientar as diversas condutas do indivíduo: motoras, afetivo-emocionais e cognitivas.

       É importante salientar que o movimento não é um puro deslocamento no espaço nem uma adição pura e simples de contrações musculares; o movimento tem um significado de relação afetiva com o MUNDO (é a expressão material de uma dialética subjetivo-afetiva), que projeta a criança na sua história biossocial.

       Os objetivos principais da prática psicomotora são:

  • Estimular a percepção e consciência do corpo como lugar da sensação, expressão e criação;
  • A integração harmoniosa entre os segmentos corporais e as inúmeras possibilidades de movimento;
  • A sua relação com o tempo e com o espaço, normalizando ou melhorando o comportamento geral do indivíduo, suas emoções e necessidades;
  • Buscar a intencionalidade da ação pelo movimento humano.

 

       Assim, o psicomotricista deve estar habilitado a atuar na promoção, preservação e recuperação do movimento corporal como instrumento do desenvolvimento humano a fim de que possa estabelecer uma melhor relação consigo, com os outros e com os objetos – No caso do programa Rafcal, a relação do indivíduo com o alimento.

       A Prática Psicomotora tem uma filosofia de cuidado e respeito ao ser humano, ela tende a respeitar, aceitar e receber com sensibilidade a expressividade da criança em sua forma, conteúdo e sentido, sem julgamento ou preconceito. E a partir dessa compreensão, o psicomotricista acolhe as produções da criança, acompanhando-a assim em seu processo de maturação, ou ajudando-a a reencontrar, quando necessário, uma dinâmica de prazer. Desse modo, a psicomotricidade trata-se de um lugar da expressividade motora, onde a criança será ouvida e reconhecida em sua maneira de ser original e singular no mundo; lugar de comunicação verbal e não verbal; lugar de construções simbólicas; lugar onde ela poderá se projetar num espaço acolhedor e seguro.

       Sabe-se que, quando a criança é estimulada desde bebê tende a ter mais facilidade nos seus relacionamentos afetivos, na sua forma de lidar com o próprio corpo, com ela mesma e com o ambiente social. Além disso, o contato acolhedor, estimulador e constante da psicomotricidade torna-se essencial para que ela adquira confiança em si mesma e no meio, podendo, de fato, se sentir estimulada para suas próximas realizações.

       O corpo é o ponto de referência que o ser humano possui para conhecer e interagir com o mundo, é através da sua consciência corporal que a criança se coloca perante o seu meio, servindo de base para o desenvolvimento cognitivo e para a aprendizagem de conceitos fundamentais. O domínio corporal (do tônus corporal) irá favorecer uma maior precisão nos seus movimentos e domínio sobre suas ações ou expressões.

       A importância da psicomotricidade nos dias de hoje aparece quando se podem observar muitas crianças de classe média encontrando grandes dificuldades no seu desenvolvimento psicomotor e em seu conseqüente aprendizado escolar. Isto se deve a atitudes de pais, que, por diversos tipos de sentimentos ligados ao medo e a ansiedade tentam proteger seus filhos de experiências externas ao ambiente familiar. Vítor da Fonseca (citado por Abreu) afirma causas como a ausência de espaço e a privação de movimento e Abreu complementa com outras, como a superproteção, a falta de limite, a rejeição, o impedimento de que cresçam e evoluam em sua independência, com mensagens do tipo: “deixa que eu faço para você, você ainda não sabe”, “demora muito”, “você ainda não consegue” (frases geralmente ditas pelos adultos que convivem com a criança), também atividades do dia-a-dia como comer sozinha, ir ao banheiro e limpar-se, vestir-se, calçar, tomar banho, escovar os dentes, lavar as mãos etc. são adiadas; fora os conselhos de profissionais da área de saúde de que a criança só deve ir para a escola depois dos três anos, quando já ganhou maior resistência imunológica e então, criam-se, para os filhos de mães inexperientes, verdadeiras “bolhas” de proteção, pois é de sabedoria popular que somente em contato com os vírus criamos anticorpos; para isto existem as vacinas e se não forem aplicadas antes dos três anos, as doenças da infância acontecerão depois.

       Outro fator preponderante para a aplicação da psicomotricidade infantil diz respeito à cultura ocidental e a uma época marcada pelos recursos audiovisuais como instrumentos determinantes na aquisição dos conhecimentos. A vida destas crianças se restringe ao computador e a televisão e, portanto, não se ocupam mais com atividades que possam estimular o seu desenvolvimento motor e social, transformando-se assim em crianças sedentárias, sem estímulo para a atividade física.

       Desse modo, sabe-se que há um número cada vez maior de crianças de um a sete anos de idade – hipotônicas (relaxamento exagerado da musculatura), descoordenadas (desajeitadas), arrítmicas (não conseguem um ajuste entre o ritmo interno e o externo), com andar de “periquito” (andar na ponta dos pés), dificuldade verbal (fala infantilizada, troca de letras, afásicas, omissões de letras etc.), dificuldade de orientação espaço-temporal, de percepção visual, de esquema corporal e de lateralidade.

       É de responsabilidade dos profissionais da área de saúde que intervêm direta ou indiretamente no desenvolvimento da criança não só de assegurar o crescimento físico saudável, mas de orientar os pais no sentido de que crescimento e desenvolvimento envolvem independência e esta gera sentimentos de capacidade e segurança, levando-a a ter iniciativas, a ser capaz de tomar decisões, participando ativamente do seu meio sociocultural.

       Os conceitos fundamentais da psicomotricidade incluem a lateralidade, o esquema corporal, tônus muscular, controle respiratório, equilíbrio, estruturação do espaço e estruturação temporal.

       O esquema corporal é a representação simbólica que se tem do próprio corpo, fruto de aprendizagens sociais e relacionais e da maturação individual, ou seja, é a imagem tridimensional que se tem de si mesmo. Essa noção é uma construção polifatorial que envolve: informações sensoriais (interoceptivas – ligadas à sensibilidade visceral, proprioceptivas – ligadas ao sistema muscular e às articulações, e exteroceptivas – associadas ao funcionamento dos órgãos sensoriais, além da estimulação externa); o contato com o outro – o mundo relacional de pessoas e objetos; e o uso da linguagem – a experiência social.

       É através da exploração de seu corpo e das suas funções que a criança adquire noção de si mesma como pessoa, distinta de outras e dos objetos. Para Ajuriaguerra (neuro-psiquiatra infantil, citado por Abreu), o esquema corporal é o resumo e síntese de toda a experiência corporal no mundo. É pelo esquema corporal que a criança vai conseguindo realizar movimentos cada vez mais ajustados e criadores e pelos quais fica apta a descobrir o mundo que a cerca e a envolve.

       Durante os anos pré-escolares a criança desenvolve de forma acentuada o seu conceito a respeito da imagem corporal. Com um pensamento e uma linguagem mais abrangente, começa a reconhecer que a aparência das pessoas pode ser mais ou menos desejável e as diferenças de cor ou raça. Ela conhece o significado das palavras “bonito” e “feio” e reflete a opinião que os outros têm a respeito de sua aparência. Aos cinco anos, por exemplo, a criança já compara sua altura com a de seus pares e pode dar-se conta de ser alta ou baixa, especialmente quando as pessoas se referem a ela, chamando-a de “alta ou baixa para a idade”. Apesar de seus progressos no desenvolvimento da imagem corporal, o pré-escolar ainda tem uma noção pouco definida a respeito dos limites do seu corpo (Mataruna, 2006).

       Assim, quando a criança não tem um esquema corporal bem definido e não está em conexão com o seu próprio corpo, ela age como se o seu “ser” fosse algo separado de seu corpo. 

Relações da psicomotricidade com a prática do Rafcal

       A partir da literatura revisada e exposta acima, pode-se observar as relações existentes da psicomotricidade com o programa de reeducação afeto-cognitiva do comportamento alimentar, elaborado especialmente para o atendimento de crianças – o Rafcal Kids, que tem como objetivo auxiliar a criança na aprendizagem de comportamentos que levem à perda e à manutenção do peso.

       Analisando as metas do tratamento psicoterápico no programa Rafcal, percebe-se as inúmeras semelhanças com os objetivos da psicomotricidade, que são trabalhadas no âmbito da prevenção, ou seja, a criança ainda não possui dificuldade em determinada área, portanto, a possibilidade do desenvolvimento de uma obesidade na infância, ou mesmo na fase adulta, passa a ser diminuída naquela pessoa.

       Assim, as metas do tratamento psicoterápico são:

  • Melhora da auto-estima – aspecto fortemente trabalhado na psicomotricidade, visto que a criança passa a adquirir extrema confiança em si mesma;
  • Conquista de um estilo de vida saudável – a psicomotricidade estimula a atividade física, reduzindo o sedentarismo;
  • Prevenção de comorbidades da obesidade;
  • Mudanças de comportamento permanentes no paciente e na família;
  • Manutenção da perda de peso sem alterar o ganho estatural da criança, ou pelo menos conseguir redução na velocidade do ganho de peso;
  • Diminuição da circunferência abdominal.

       A psicomotricidade auxilia a criança a sentir mais segura e competente em suas decisões e escolhas, melhorando assim sua auto-estima perante os outros com quem se relaciona. Ela aprende a controlar os seus impulsos e canalizar a sua energia e agressividade em atividades prazerosas como o brincar e os esportes, e não na forma de “compulsão” (tanto pelo alimento, como outras formas de compulsão). Além disso, a criança desenvolve melhores relacionamentos ao longo da sua vida, visto que aprende a compartilhar sentimentos, expressar opiniões, respeitando a si mesmo e aos outros, ter empatia, enfim, ser assertivo.

       A psicomotricidade trabalha em primeiro plano o auto-conhecimento do ser humano, aspecto que é muito relevante dentro da psicoterapia. O paciente passa a ter consciência das suas particularidades e características, dos seus sentimentos e pensamentos mais profundos.

       Desse modo, pode-se compreender a significante importância da psicomotricidade como uma forma de prevenção e intervenção no quadro da obesidade infantil, visto que a criança passa a se expressar através do seu corpo. 

Maria Lúcia Lupepsa
Psicóloga CRP 08/11595
Terapeuta Comportamental-Cognitiva
Especialista no Programa RAFCAL 
mallup@bol.com.br 
 
 

Referências
ABREU, B. F. L. de. Psicomotricidade e o desenvolvimento do ser humano. Em: www.rededapsicomotricidade.com.br. Em: 06/04/2006. 
BELMONTE, T. Emagrecimento não é só dieta! Uma questão psicológica, corporal, social e energética. São Paulo: Agora, 1986. 
MATARUNA, L. Imagem Corporal: noções e definições. Em: www.efdeportes.com/efd71/imagem.htm. Em: 10/04/2006. 
www.espaconectar.com.br  
www.psicomtricidade.com.br

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