Princesas & Burguesas. Mulher & Profissão

Princesas & Burguesas. Mulher & Profissão

Odegine Graça

Psicóloga CRP 08/07936

Antigamente, as mulheres podiam exercer duas profissões: a de prostitutas e a de esposas. Para não ir tão longe vamos ver a mulher do séc. XIX, aquela cantada nos romances de José de Alencar. Quem não se lembra de Senhora? Pois é! Essas Senhoras preenchem ainda a nossa vida, o nosso imaginário. José de Alencar em seus romances inicia a educação feminina para o casamento.

Assim como as princesas nos contos de fadas, as heroínas românticas representam para o futuro esposo duas das funções básicas: ser objeto de prazer e ser esposa prendada a quem pertence à tarefa da organização familiar. A profissão de esposa exigia da mulher uma dura formação e submissão amorosa, financeira, e social.
As mulheres eram educadas para amar e honrar seu marido acima de qualquer coisa. Para ser uma esposa prendada era preciso ter beleza física e virtude, como as princesas dos contos de fadas. Essa virtude era reconhecida através da submissão e resistência aos sofrimentos, por mais intenso que eles fossem.
De acordo com Mill, se para os escravos o instrumento usado pelos senhores para subjugá-los era a força e o medo; para a mulher, esse instrumento era o sentimento amoroso. O autor aponta três razões que levam as mulheres a se sujeitarem aos maridos: a primeira é a atração natural que ocorre entre os sexos; a segunda se refere à dependência financeira da mulher em relação ao marido; e a terceira diz respeito à dependência social, pois a mulher só conseguiria ser aceita (e bem aceita) pela sociedade se assumisse o papel de esposa honesta e amorosa.
Tais razões levaram a mulher a acreditar, quando solteira, que a sua principal obrigação seria a de se fazer atraente ao homem para que, dessa forma, pudesse ser selecionada para assumir o tão desejado papel de esposa. Hoje já não vivemos no séc. XIX, porém essas heroínas, e as princesas continuam permeando o nosso imaginário e dirigindo nossas vidas. Atendo inúmeras mulheres extremamente bem sucedidas, que sentem-se extremamente mal por não estarem casadas, ou ainda por não encontrarem um marido que possa livrá-las da triste vida de trabalhar fora.
A pergunta que fica é até quando seremos escravas do nosso imaginário e cumpriremos seus ditos sem questionarmos? Em minhas palestras com mulheres escuto inúmeras vezes a queixa de terem perdido suas vidas em troca de viver uma fantasia bem elaborada por alguém que elas nem imaginam quem seja. Contos de fadas, assim como os romances que louvam o casamento e a afetividade indiscriminada da mulher por um marido, muitas vezes carrasco, disseminam os valores de uma sociedade burguesa onde era muito importante o papel da esposa submissa, que fazia qualquer sacrifício pelo marido e por sua prole.
A mulher no correr dos séculos e através dessa educação criou dentro de si o protótipo daquela que ama a sua própria fantasia e não a outro. E aquelas que teimam em se desvencilhar desses valores burgueses são duramente discriminadas pelas próprias mulheres.

Um exemplo bem clássico são as mulheres que se decidem por amar e ter por companheira outra mulher. A grande maioria ainda vive as escondidas e quando se mostram, são encaradas, olhadas nas ruas como se fossem a manifestação do próprio demo, solto pelas ruas nos últimos dias do apocalipse. Já é o momento de pensarmos em nosso ser essencial. O que somos? O que queremos? De onde viemos? Devemos decidir nosso caminho de mulher, o caminho do feminino dentro de nós, sem demagogia e com muita verdade, a procura de nossa felicidade.

Psic. Odegine Graça – CRP 08/07936
Psicóloga, psicoterapeuta
odegine@casadasfadas.psc.br

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