O Preconceito Mata

O Preconceito Mata
Terapeuta e Consteladora Odegine Graça

Há alguns meses comecei a atender um rapaz muito bonito e jovem. Veio trazido pela mãe. Era triste e dizia querer morrer. Sua vida estava um verdadeiro caos. Nada dava certo, apesar de ser muito inteligente e bem formado.

Ele tinha grande dificuldade de falar de si e dos seus relacionamentos, desviava os olhos quando falava sobre meninas. Imaginei o que poderia afligir tanto um rapaz de excelente família, boa posição financeira, jovem inteligente e bonito. Uma coisa me veio à mente: ele era homossexual. Só poderia ser. Tanto conflito, tanta culpa e a vontade de morrer desde muito pequeno. Comecei a questionar sobre seus relacionamentos e em dado momento fiz a pergunta crucial: Você é gay? A resposta foi um suspiro profundo, seguido de um “Sou”.

A minha resposta foi um natural “Ah, então é isso?”

Ele me olhou sem entender nada. Talvez esperasse algo diferente quando dissesse isso pela primeira vez.

Foi um processo muito lindo desvendarmos o seu preconceito quanto a si mesmo. Essa pessoa decidiu contar aos amigos através de uma carta, e essa carta está literalmente aqui, conforme foi escrita, com consentimento do paciente, e sem, claro, revelar seu nome.

Decidimos por isso a público para revelar o sofrimento de alguém que é diferente e sente  que não tem direito a vida por isso. A intenção é ajudar a outros na mesma condição e fazer uma denuncia contra o preconceito de qualquer espécie.

Senhores, leiam e  pensem sobre isso.

 

 

Carta a um(a) Amigo(a)

 

“O termo minoria diz respeito a determinado grupo humano ou social que esteja em inferioridade numérica ou em situação de subordinação sócio-econômica, política ou cultural, em relação a outro grupo, que é majoritário ou dominante em uma dada sociedade. Uma minoria pode ser étnica, religiosa, linguística, de gênero, idade, condição física ou psíquica. Minorias não são necessariamente perseguidas ou dizimadas pelo grupo dominante, mas historicamente existem numerosos casos de perseguições.”

Sempre me identifiquei com as minorias. Desde pequeno percebi que havia uma segregação no mundo. Você é julgado por basicamente tudo. Etnia, religião, condição física, e assim vai. Mas, obviamente que para esse julgamento ser válido, existe uma maioria que o credibiliza. Para participar dessa maioria, os considerados corretos, todos devemos seguir uma cartilha passada de geração em geração que define as regras de conduta dos homens e mulheres num ambiente social, e o julgamento de gênero é o mais intrínseco na nossa espécie. Você aprende que é errado menina jogar futebol e menino brincar de casinha, a não ser que a casinha tenha alguma conotação sexual que exalte a masculinidade paterna, mas daí já é outra sessão da cartilha. Você aprende que homem é aquele que cumpre todas essas regras à risca, e seu grau aumenta de acordo com a assertividade. Aprende que mulher é feminina, delicada, seu ponto máximo na vida é casar e criar uma família, por isso desde pequenas elas brincam imaginando esse futuro já definido. Essa mulher é aquela que ao mesmo tempo que cortejada, deve sempre submissão, ou fingi dever, à figura masculina. É o jogo dos sexos que todos nós aprendemos desde pequenos.

Quando eu tinha por volta de cinco anos, ganhei dos meus pais de Natal uma coletânea dos vinis infantis da época. Havia desde Xuxa à TV Colosso. Me lembro que na capa de um deles havia um ator de um novela qualquer que provavelmente era o galã da temporada. Me peguei olhando o cara e observando como ele era bonito. Imagina para uma criança de cinco anos o impacto desse momento. Esse era o ponto básico da cartilha, cada ação fora de conduta era reprimida instintivamente. Parei, pensei, guardei o vinil. A partir daí percebi que teria problemas para lidar com as regras. Se o mundo realmente gira entorno à regra, então minha vida inteira seria uma luta entre o cumprimento e a fuga.

Revirei-me na cama noites e noites tentando entender porque isso aconteceu comigo. Porque eu tinha que nascer assim. Pensei diversas vezes em me matar. Não entrava na minha cabeça o fato de eu ser um flagelo da sociedade, de ser parte da minoria. De ter plena consciência de que pelo resto da minha vida as pessoas iriam me julgar e me tratar como anormal. Passei a infância murchando, cada dia mais me sentia reprimido e triste. Não compreendia porque era um problema o meu melhor amigo ser uma melhor amiga, porque eu deveria saber jogar futebol e andar de skate melhor do que andar de patins ou brincar de teatro. Só entendia que era um problema. Que as pessoas já julgavam quais eram minhas preferências e me julgavam estranho por escolher fazer coisas fora do “normal”. Na escola era tachado como nerd, estranho, diferente. Não era bom em nenhum esporte, e me animava mais em brincadeiras que não exaltavam nenhum gênero ou qualidade física. Além disso, sofri influências intensas do irmão mais velho. Quando você é o mais novo, o mais velho é seu modelo de comportamento. Tudo que você faz é comparado com o que ele fez. Ou ele mesmo impõe o que acredita ser certo em você. Meu irmão era o pegador do colégio, o galã das meninas, o atleta, o modelo ideal de homem que a cartilha define. Isso me fez acreditar ainda mais na necessidade de seguir a ordem.

Eu cresci. Chegou a puberdade, a adolescência, a vontade incessante de viver ao máximo, e junto a isso, a prova final de adequação a cartilha, ao socialmente correto. Nessa fase, eu já tinha plena ciência de como funcionava o relacionamento humano. Era um emaranhado de atitudes e comportamentos que no final das contas sempre focavam no próprio ego. Do tipo, ceder para ganhar mais depois. Eu faço isso se me trouxer aquilo. E tendo consciência disso, resolvi me adequar. Se eu quero ser aceito, ter amigos, ter uma vida “normal”, curtir sem ser curtido, eu devo ser como eles querem que eu seja. Meu personagem foi criado de forma que, na medida do possível, acompanhasse com exatidão a cartilha, mas desse espaço para liberdade. Porém essa liberdade só poderia ser usufruída quando já se atingisse um grau de maturidade, no qual meu comportamento já não era mais tão questionável. Era a liberdade para sutilmente defender a causa, explorar esse mundo, mesmo ainda não fazendo parte dele, buscar entender porque existem gays, porque eles se juntam em uma comunidade, como se relacionam. Assistindo como espectador, fui aprendendo como viver alheio ao “correto”, mesmo sem coragem para fazê-lo.  Portanto, todo esse período eu me policiei para que pudesse viver. Até eu parar e ver o quanto essa frase era absurda.

Qual é a definição de correto? É uma conduta arbitrária à razão. Tudo aquilo que se observa e racionalmente se considera certo. Tem lógica. Mas afinal, se pararmos para pensar, tem lógica definir e classificar alguma coisa? É um direito do ser humano julgar e contestar o que considera certo, mas esse direito é válido quando o objeto de análise é outro ser humano? Afinal, liberdade parece ser uma faca de dois gumes. Ou exploramos e tiramos proveito máximo dessa condição que possibilita a evolução do pensamento e o livre-arbítrio, ou usamos ela para nos sobrepor uns aos outros. Sou só eu ou mais alguém nessa sala enxerga uma inadequação do homem à vida em sociedade? Qual a verdadeira relação do indivíduo com seu meio? Porque suas escolhas, sonhos, objetivos são tão importantes e relevantes a ponto de resultarem numa repressão violenta da sociedade contra os que optam por provocar um intervalo nessa ordem? O pior de tudo é que essa violência ocorre no seu íntimo, desde o conflito comportamental de gerações às escolhas da vida. Sua família e seus amigos confundem intimidade com imposição. Eu te conheço tão bem que tenho o direito de te obrigar a aceitar isso. Devo ditar o que é certo para você ou não, o que você deve fazer da vida, o quão absurdo tomar essa decisão ou não tomar aquela, o quanto sua diferença me irrita, por eu não conseguir compreender porque ela é uma diferença. Todos nós somos parte dessa cultura. Porque eu realmente acredito que seja cultural, que foi esse conjunto de estruturas sociais e convicções comuns que moldaram nossa sociedade na forma da cartilha. Se não fosse, não acharíamos tão absurdo as outras culturas, como a egípcia e a grega, considerarem vários desses fatores normais. E é pensando assim que me vem novamente o conceito de liberdade. Eu sou livre para escolher não seguir essa cultura, fugir à regra que na realidade nem é uma regra. Fazer minhas próprias escolhas.

Se todos sonham com um mundo de paz e amor, sem preconceitos, sem repressão, sem injustiça, sem violência, sem brigas de ego, lutas de poder, sem a necessidade de ser. Ser alguém que faz isso ou aquilo, que chega com um cartão de visitas na testa para passar pela aprovação dos demais. Se você, meu amigo, realmente deseja com toda a sua energia que isso aconteça, é exatamente você que deve começar. Começar assumindo o que você realmente é, o que realmente gosta, o que realmente quer da vida. Quebrar a repressão. Sua omissão contribui para ela. Mostrar que a diferença é normal, que ela valoriza você! Que a partir do momento que existem pessoas diferentes de você, você se torna tão especial quanto elas.

Eu cansei de me esconder, de ter receio de falar o que eu penso por medo da repressão, por medo do os outros vão pensar de mim. Realmente é melhor tentar, do que viver na sombra. Aceitar o que eu realmente sou e, por falta de explicações, escolher a minha própria: a homossexualidade é uma ferramenta da natureza para controlar a superpopulação. Isso me deixa um pouco mais aliviado e seguro para continuar vivendo sabendo que tenho um papel a ser cumprido. Pelo menos eu tentei! Isso é muito mais confortante do que o fato de viver sua vida inteira se perguntando como seria ter sido você.

Por isso, resolvi te escrever essa carta. Resolvi lutar e viver, mesmo que isso me faça perder alguns combatentes no caminho. As pessoas aparecem na sua vida por algum motivo, para te passar alguma mensagem, para te fazerem aprender. Assim como elas vem, elas também vão. Então não viva sua vida com medo de perder as pessoas que estão do seu lado, se dedique as que se mantiveram e valorize por que o fizeram. O porquê de uma amizade ou uma relação familiar ser uma ligação de dedicação recíproca que cria laços de afeição, de estima, de conforto. De mútua aceitação, entendimento e liberdade.

Agora que você sabe que tem um amigo gay você tem duas opções: a primeira é relevar essa informação, por realmente acreditar que sexualidade não define caráter e tem clareza da razão pelo qual você cultivou essa amizade por tanto tempo. A segunda é perpetuar essa cultura de repressão enraizada na nossa sociedade, ver essa situação com preconceito e medo, por ser algo desconhecido até então, e viver a sua vida, longe de mim. Mas caso essa seja sua opção, sempre tenha certeza de que apesar de esconder esse fato, eu sempre fui eu do jeito que você me conhece. Continuo gostando de rock, cerveja e futebol. Continuo achando aquela mulher bonita e atraente. Continuo gostando de viajar, de viver, de aproveitar cada minuto da vida com pessoas a minha volta. Continuo sendo seu amigo, seu irmão da vida, aquele que você pode contar nas horas que precisar ou não. Não te julgo por ficar chocado e ter uma reação apreensiva. Demorei vinte e dois anos para lidar com meu preconceito, tenho plena noção do quanto é difícil entender essa situação, do medo que sentimos da diferença. Por isso, não cobro nenhuma atitude sua em relação a isso. Só peço que guarde esse fato para você. Preserve a minha privacidade, meu poder de revelar-me seletivamente ao mundo. Se você foi selecionado, é porque tem um grau de importância muito grande na minha vida.

Mas do fundo do meu coração, eu espero que você termine de ler essa carta e me dê um abraço. Sincero, sem preconceito, sem repressão, sem maldade. Sem julgamentos.

Assim vou continuar acreditando que nesse mundo cheio de peculiaridades ainda existe a bondade e o amor. E meus ídolos não morreram em vão.

 

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