Flores do Mal

Flores do Mal

Flores do Mal.

A Natureza do Homem

O Homem E a Natureza

O poeta e crítico francês Baudelaire marcou com sua presença as últimas décadas do século XIX, influenciando a poesia internacional de tendência simbolista. De sua maneira de ser, originaram-se na França os poetas “malditos”.

Baudelaire inventou uma nova estratégia de linguagem, incorporando a matéria da realidade grotesca a linguagem sublimada do romantismo, criando, dessa maneira, a poesia moderna.

Sua obra prima é o livro As Flores do Mal, cujos poemas mais antigos datam de 1841. Além de celeuma judicial, o livro despertou hostilidades na imprensa e foi julgado, na época, imoral.

Charles Baudelaire possui uma produção fortíssima que retrata a inquietude, o mal, o degredo e as paixões da alma humana. Sua vida sempre flutuou entre a noite, a boemia e paixões alucinantes. Poeta da vida e da alma humana, trouxe para os seus versos todos os prazeres que o homem pode desfrutar entre um e outro copo de vinho. As Flores do mal, sua obra prima, nos faz deparar com o limbo de cada uma de nossas almas, com o tédio de nossa existência, com o mesquinho de nossa essência, com a paixão do ser humano.

É preciso mergulhar nessa obra para descobrir quais são as flores que o “mal” produz.

Justificativa

Este trabalho fundamenta-se em Charles Baudelaire, em seus poemas catalogados em seu livro “Flores do Mal”. Como representante de um panorama cultural, que se mostrava nos idos de 1850 a 1900. No século XIX a Europa vivia uma série de mudanças culturais, econômicas e ideológicas. Entre elas se dava o abandono do movimento romântico e o nascimento do movimento anti-romântico no qual se destacava na ciência positivista de Augusto Comte (1798 a 1857). Surge então o materialismo, o capitalismo desumano, a revolução industrial, e principalmente o pensamento do homem como “Dominador da Natureza”. A revolução tecnológica permitiu ao homem seu desenvolvimento ultra-rápido e o explorar da natureza com a mesma rapidez, sem pensar que seus recursos esgotariam algum dia. O homem desse tempo que marcaria todos os tempos subseqüentes é marcado pelo abandono de suas emoções de humanidade e é tomado pelos seus demônios, vive o inferno de abandonar todas as funções de sua natureza e resumir-se a um Cogito Ergum Sum (Penso Logo Existo). Baudelaire mostra essa alma tomada por demônios, glorificando e gozando com a descrição poética e pormenorizada de estupros, assassinatos, suicídios, enfim, todas as barbáries que vivem no escuro do homem quando este sufoca suas emoções. Analogicamente também podemos dizer que Charles Baudelaire descrevia as primeiras barbáries feitas pelo homem à natureza. Hoje, dois séculos mais tarde, Baudelaire é atualíssimo em se falando de emoções e destruição da alma do Universo. Tamanha é a destruição causada pela visão positivista e cartesiana dos fatos em nosso mundo que estamos morrendo sufocados pelos pulmões da Terra, que clama nossos próprios pulmões cancerosos. Fez-se necessário voltar a uma leitura do mundo baseado em um modelo de vida integrado, sistêmico, a uma visão ecológica, se esse termo for entendido dentro do conceito de ecologia profunda, que diz segundo Fritjof Capra diz: “A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades, estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos).”

Nesse sentido as Flores do Mal, aqui apresentadas em releitura analógica, mostram as sementes plantadas por um movimento desumano de uma visão fragmentada da vida, que cresceram e geraram um jardim de dor, sofrimento, solidão e barbárie no coração dos homens, os quais construíram seus próprios calabouços e escreveram sua própria destruição.


Objetivo


É o de alertar, provocar um olhar sobre um universo diferente daquele que estamos acostumados em nosso cotidiano. É o de mostrar que por detrás de uma beleza plastificada e perfeita, consumida dentro de um desejo irrefreado de consumir, escondem-se emoções que nos consomem, destruindo a nós e ao sistema ecológico como um todo.


Descrição


As Flores do Mal aparecem aqui como uma leitura plastificada dos poemas de Baudelaire, sem deixar a letra de lado, ou seja, os poemas acompanham a obra, como um grito de alerta aos danos causados a nossa natureza humana e a natureza externa. Os materiais utilizados para a confecção das expressões, são garrafas pets, garrafas de vidro, caixas de papelão, caixas de leite e de sucos longa vida, vidros de xampu e desodorante, garrafas de água mineral e roupas para d
ar o formato do humano. As formas aqui brincam com o rígido, a fixidez, o claro e o escuro, o desconforto e o conforto interno provocado pelas expressões. Brinca com o permanente e o impermanente. O material utilizado é inovador em forma e mistura, provocando mais uma provocação à procura de soluções inovadoras e humanas para velhos conceitos castradores. Esta exposição é um grito, um chamado a pulsão de vida do homem e para encarar sua sombra, sua pulsão de morte, que é onde paradoxalmente encontra-se a salvação para sua vida. O lixo produzido no mundo é usado para moldar o lixo da natureza humana, o nosso interior poluído que num relacionamento de equidade perfeita com o exterior suja a nossa sociedade e nosso ambiente. Mas esse mesmo lixo interior, estes mesmos fantasmas, também pode ser reciclado e se tornar nossa mais poderosa força humana, nossa mais poderosa força de vida e consequentemente, transformarem a nossa realidade exterior, afinal, “Quanto Pior Melhor”, e “Quanto Melhor Pior”. Somente quando soubermos realmente nosso poder de destruição é que poderemos transformá-lo em poder de construir a vida. Precisamos fazer isto no simbólico, na arte, nas nossas emoções, para não destruirmos o real. Tudo aquilo que não é simbolizado, que não é DITO, é agido, como disse Freud.

Saber de nossas forças destruidoras é preciso, falar disso é preciso, para que possamos fazer agir no amanhã um real iluminado, respirável e sadio para nossos filhos e nossos netos.

Material Utilizado: garrafas pets, caixas de leite longa vida, fios, gesso, tinta, tecidos, caixa de papelão, recortes de jornais e revistas, napa, pedras coloridas.

Obssessão.

Bosques, encheis de susto como as catedrais,
Como os órgãos rugis; e em corações malditos,
Quartos de terno luto e choros ancestrais,
Todos sentem ecoar vossos fúnebres gritos.

Eu te odeio, oceano! e com os teus tumultos,
Já que és igual a mim! Pois este riso amargo
Do homem a soluçar, todo sombras e insultos,
Eu o escuto no riso enorme do mar largo.

Como serias bela, ó noite sem estrelas,
Que os astros falam sempre claro em sua luz!
Busco o infinito negro e os precipícios nus!

Porém as trevas são elas próprias as telas,
Em que surgem, a vir de meu olho, aos milhares,
Seres vindos do além de rostos familiares.

Material Utilizado: garrafas pets, meias de nylon, peças de roupa, boneca de plástica, pulseira de semente, tinta, gesso, caixa de papelão.

Material Utilizado: garrafas pets, meias de nylon, peças de roupa, boneca de plástica, pulseira de semente, tinta, gesso, caixa de papelão.

Elevação


Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,
Por sobre o éter e o mar, por sobre o bosque e o monte,
E muito além do sol, muito alem do horizonte,
Para além dos confins dos tetos estrelados,


Meu espírito, vais, com toda agilidade,
Como um bom nadador deleitado na onda,
Sulcas alegremente a imensidão redonda,
Levado por indizível voluptuosidade.

Bem longe deves voar destes miasmas tão baços;
Vai te purificar por um ar superior,
E bebe, como um puro e divino licor,
O claro fogo que enche os límpidos espaços.


E por trás do pesar e dos tédios terrenos
Que gravam de seu peso a existência dolorosa,
Feliz este que pode de asa vigorosa
Lançar-se para os céus lúcidos e serenos!


Aquele cujo pensar, como a andorinha veloz
Rumo ao céu da manhã em vôo ascensional,
Que plana sobre a vida a entender afinal
A linguagem da flor e da matéria sem voz!

Material Utilizado: garrafas de leite, bola de isopor, tecido, meias, papelão, tinta, gesso, recortes de jornais e revistas.

A MUSA VENAL

Ó musa de minha alma, amante dos palácios,

Terás, quando janeiro desatar seus ventos,
No tédio negro dos crepúsculos nevoentos,
Uma brasa que esquente os teus dois pés violáceos?

Aquecerás teus níveos ombros sonolentos
Na luz noturna que os postigos deixam coar?

Sem um níquel na bolsa e seco o paladar,
Colherás o ouro dos cerúleos firmamentos?

Tens que, para ganhar o pão de cada dia,
Esse turíbulo agitar nas sacristia,
Entoar esse Te Deum que nada têm de novo,

Ou, bufão em jejum, exibir teus encantos
E teu riso molhado de invisíveis prantos
Para desopilar o fígado do povo.

Material Utilizado: caixas de leite, tecidos, flores artificiais, tinta, gesso, recortes de jornais e revistas.

O Inimigo

Foi minha juventude não mais que um vendaval

Em que raro brilharam os Sóis como espelhos;
Nela a chuva e o trovão fizeram estrago tal
Que sobram no jardim poucos frutos vermelhos.

Eis que chego ao Outono do pensamento,
E usarei pá e ancinho por manhãs obscuras
Para juntar de novo o solo lamacento
Com crateras enormes como sepulturas.

Quem sabe se a flor nova que meu ser anseia
Achará neste chão lavado com a areia
O místico alimento que lhe dá vigor?

Devora o tempo a Vida, ó suprema agonia!
Se rói o coração o inimigo traidor,
Cresce por se nutrir desta nossa anemia!

Material Utilizado: caixas longa vida, tecidos, banco de plásticos, discos de vinil, pedras coloridas, chapas de radiografia, CDs e DVDs, tinta, gesso, recortes de jornais e revistas.

DE PROFUNDIS CLAMAVI

Imploro-te piedade,a Ti, razão de amor,
Do fundo abismo onde minha alma jaz sepulta.
É uma cálida terra em plúmbea névoa oculta,
Onde nadam na noite a blasfêmia e o terror;

Por seis meses um morno sol dissolve a bruma,
E durante outros seis a noite cobre o solo;
É um país bem mais nu do que o desnudo pólo

– Nem bestas, nem regatos, nem floresta alguma!

Não há no mundo horror que comparar se possa
À luz perversa desse sol que o gelo acossa
E à noite imensa que no velho Caos se abriu;

Invejo a sorte do animal mais vil,
Capaz de mergulhar num sono que o enregela,
Enquanto o Dédalo do tempo se enovela.

Material Utilizado: vaso de cerâmica, recortes de exposição fotográfica, tecidos, isopor, garrafas de leite, tinta, gesso, recortes de jornais e revistas.

A PRECE DE UM PAGÃO

Não deixeis esfriar tua chama!
Minha alma entorpecida aquece,
Volúpia, inferno de quem ama!
Escuta, diva, a minha prece!


Deusa no espaço derramada,
Flama que dentro em nós desperta,
Atende a esta alma enregelada,
Que um brônzeo cântico te oferta.

Volúpia, abre-me a tua teia,
Toma o perfil de uma sereia
Feita de carne e de veludo,

Ou verte enfim teu sono mudo
No vinho místico e disforme,
Volúpia, espectro multiforme!

Artigos Relacionados