Falando de Amor – Capítulo 3/Final

Falando de Amor – Capítulo 3/Final

 

Psic. Odegine Graça

 

A mulher que havia perdido a esperança

Uma pequena réstia de luz atingiu a cabeça de Stella Regina, bem na altura da testa e de repente, muito fracamente, ela ouviu uma voz de menina rir dentro do seu coração.

Nesse riso ela se encontrou em um campo florido com uma garotinha magrinha de saia xadrez e chinelos de dedo. A menina sentada na relva sentia o vento e se aquecia ao sol.

Stella podia ouvir os pensamentos da menina:

–          Ainda serei grande, e quando for grande, eu vou morar bem longe daqui. Vou ter uma casa enorme, muito conforto, vou ser respeitada e terei uma linda profissão. As pessoas vão me reconhecer quando eu passar na rua e vão dizer “Lá vai a moça do livro, a moça da TV, a moça do jornal. Sabe aquela moça ali, ela é muito famosa, ela faz um trabalho incrível e ajuda milhares de pessoas.”

Stela podia falar com a menina mesmo do  lugar onde se encontrava. E perguntou:

–         O que está fazendo menina?

–          Estou sonhando – repetiu a menina sem hesitar um só minuto. Estou construindo o meu futuro, estou plantando boas sementes para quando eu precisar.

A menina respondeu a tudo sem abrir os olhos e continuou a relaxar, sonhando, aquecida pelo sol e acariciada pela relva verde e tranqüila. Parecia que nada podia derrotá-la, nada poderia entristecê-la. Ela estava ali naquele momento, escrevendo seu futuro.

Nesse exato momento Stella Regina entendeu tudo. Era isso mesmo.

No mesmo instante o homem de asas brancas surgiu em sua frente ainda com o capim entre os dentes e no velho tom bem humorado ressaltou:

–          Demorou heim? Vamos embora daqui – e estendendo as mãos retirou Stella do lodo, a envolveu em seu braços e carregou-a para fora do lugar sombrio, em um vôo espetacular.

O ser cinza nem sequer teve tempo para fazer qualquer gesto. Chegaram à estrada de onde haviam saído, porém, agora se sentaram nas mesas de uma linda choupana que se encontrava entre lindas arvores bem ao lado da estrada. Choupana essa que Stella jamais havia observado.

Uma moça com roupas coloridas e um enorme chapéu igualmente colorido trouxe-lhes suco, pão e frutas, tudo numa bandeja de flores. Stela Regina então observou que suas roupas estavam limpas e eram outras, roupas e sapatos elegantes.

–          Quem é você? – Repetiu Stella ao homem de asas. O que é esse lugar?

O homem sorrindo respondeu:

–          Eu sou você, aquele lugar é você, esse lugar é você e você é bem mais que todos esses lugares juntos.

–          Como assim? – Repetiu Stella Regina.

–          Você consegue acreditar que está aqui e não mais está lá?

–          Sim, consigo. Com absoluta certeza consigo – e sorriu.

O anjo sorriu…

–          Sente medo de voltar para lá?

–          Sim, sinto.

–          Apenas enfrente esse medo, sempre… trate-o como uma emoção passageira e não como uma determinação da vida. Quando ele vier, sinta-o e deixe passar, como um riacho… nunca como uma represa. Você estará segura assim. Faça isso com todos os medos, toda sensação de falta, de angústia, de fraqueza… você é um rio e não uma represa.

–          E você realmente é real?

–          Tão real quanto o seu medo… tão real quanto aquele lugar… tão real quanto as coisas que você deixa passar e tão real quanto as coisas que você represa e segura com você. Você vai me deixar passar? Você vai me represar? Qual a sua escolha.

E Stella Regina viu aquele ser de luz e asas desaparecer como uma brisa… mas ela ainda o ouvia falando, tão alto e claro que parecia que ainda estavam de frente um para o outro, conversando em alto e bom som sobre a vida.

Ela pensou consigo mesma – Nunca mais vou estar sozinha.

Ouviu uma gargalhada e aquela voz ressoou novamente:

–          Nunca esteve… nunca esteve.

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