Falando de Amor – Capítulo 2

Falando de Amor – Capítulo 2

 

Psic. Odegine Graça

Stela Regina piscou os olhos várias vezes para poder ter certeza que os mesmos estavam abertos, tamanha era a escuridão que a envolvia. Moveu-se com dificuldade e seu corpo estava gelado. Tentou lembrar-se de onde estava, mas sua mente não a ajudava em nada. Seu nariz anunciava um cheiro de mofo… Ou seria podre? Aos poucos seus olhos foram se acostumando com a escuridão e as formas bruxuleantes foram se fazendo em seu campo visual.

 

Estava submersa em  um lugar horrível, em um enorme lodo. Ao seu lado havia muitas rochas lodosas e mal cheirosas. Era impossível se movimentar. Tentou sentar-se e atolou-se ainda mais no lodo frio. Quanto mais tentativa de movimento fazia mais se afundava. Então ouviu uma voz tão asquerosa quanto o lodo a sua volta.

– Desista, desista. Você jamais vai conseguir sair daí. Não adianta gastar suas energias, sossegue. Isso é assim mesmo. Quanto mais lutar mais vai se afundar. Você nunca poderia sair daí. Você merece estar aí, na verdade você deve estar aí. A mais pura de todos as verdades é que sua única capacidade é de estar ai, exatamente onde você esta.

– Não, não, não mesmo… Eu não quero estar aqui, eu não mereço estar aqui, eu quero…

– Cala a boca bebê chorão… É só isso que você sabe fazer: reclamar, reclamar e reclamar… Você é como sua mãe, seu pai e como o restante dessa humanidade podre que está toda ai. – A voz asquerosa mostrou uma mão cadavérica saindo por entre um manto cor de cinza que cobria seu corpo e rosto como um todo, e mostrava agora, um mar de pessoas uivantes e atoladas como Stela Regina.

– Que horror – gritou Stela cobrindo os olhos para não ver a cena horrível que se desvendava diante de seus olhos.

– Isso – continuou o ser cinza. Cobre os olhinhos criança assustada – e uma gargalhada rasgou  aquele lugar sombrio e nefasto deixando a paisagem completa com aquele som tão apropriado àquele ambiente cavernoso, doentio e escondido. Isso de nada vai adiantar, só desiste de tentar. Se entrega, é essa sua vida, é esse seu destino, é aqui que você deve ficar. Veja – mostrou o ser cinza – ali esta sua mãe, seu pai e seus irmãos, vê como eles estão quietinhos? Já nem percebem mais que estão aqui. Fica quieta e aceita sua situação que logo você acostuma.

Stella Regina olhou para frente e viu sua família ali, quieta. Afundados, seus rostos não tinham mais olhar, nem expressão alguma de algo que um dia foi humano. Eles só estavam ali, comodamente atolados.

– Mamãe – gritou, e a mulher não demonstrou nenhum sinal de vida. Papai, papai – gritou mais forte. O mesmo se deu com seu irmão. Ninguém lhe respondia todos continuavam ali, mortos vivos, comodamente atolados.

– Pare de se debater. Quanto mais cedo aceitar, mais cedo ficará em paz, tranqüila, sendo aquilo que é para você ser. Aquele é o seu destino. Assim foi com seu pai, com sua mãe, com toda a sua família e assim será com você. E isso é assim mesmo. Você deve somente aceitar.

A coisa cinza falava agora com uma maciez indescritível em sua voz. Ao ouvir aquele som tão conhecido Stella teve uma vontade enorme de se deixar vencer, de parar de lutar, de acreditar naquilo. Afinal, de alguma maneira, em algum lugar dentro dela aquilo tudo era tão conhecido, tão confortável. Talvez o mundo fosse mesmo assim. Talvez esse fosse mesmo o seu destino. Talvez…

Ela estava tão cansada de lutar tanto, de procurar tanto e de encontrar tão pouca coisa boa em sua vida. E se o mundo fosse mesmo aquele? E se pela primeira vez em sua vida seus olhos realmente estivessem abertos? Ela havia lutado sempre tanto e no final era sempre a mesma coisa: aquela sensação de ter perdido. Ela era sempre traída, relegada a segundo plano. Era sempre alguém com mais poder que dava as cartas e acabava com tudo que ela havia feito até ali. Agora, aquilo lhe parecia verdade. Na verdade, aquilo lhe parecia mesmo natural. A vida era mesmo isso. Os seres humanos eram podres seres.

Resignada acomodou-se no lodo fétido em que estava atolada e quanto mais se aquietava mais confortável aquilo lhe parecia. Até que ela ficou bem quietinha. Tão quietinha que não conseguia mais ouvir o seu coração.

– Isso mesmo, bem assim – disse o senhor cinza lodosa. Boa menina. Agora sim. Enquanto falava o ser tenebroso passava as mãos na cabeça da mulher, e essa sem movimento e sem sentido, nada percebia, nada sentia, só estava confortavelmente ausente de si mesma.

 

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