Falando de Amor – Capítulo 1

Falando de Amor – Capítulo 1

 

Odegine Graça

Era uma vez uma mulher que cansou de sofrer e decidiu deixar o mundo em que vivia em busca de um mundo melhor. Ela não podia se conformar em viver todos os dias da mesma forma e ver as pessoas vivendo todas, todos os dias da mesma forma. Por mais que se esforçasse  ela não conseguia ver um sentido para tanto sofrimento e desamor. Parecia que os homens e mulheres do seu mundo tinham apodrecido o coração e viviam somente para atacar e se defender, haviam esquecido a sua humanidade e viviam puramente como animais.

 

Profundamente triste essa mulher pegou somente mais um par de roupas e de sapato, pôs em uma pequena mochila e começou a caminhar pela vida sem rumo, sem destino, sem compromisso, sem acreditar em nada mais que em seus passos. Andou por um dia inteiro, comeu muito pouco e bebeu muito pouco, e descobriu ao cair da noite que precisava comer e beber muito pouco para continuar viva. Uma triste solidão tomou conta de seu coração quando se deitou na relva e vislumbrou o céu estrelado de noite escura e ar puído. Seu coração bateu forte e ela teve saudades de casa. Mas que casa? Talvez as estrelas fossem sua casa, talvez fosse o céu que procurava na terra. De onde ela vinha? Para onde iria? Perdida em seus pensamentos assim como naquela noite, naquele caminho, naquele lugar, naquela terra, ela adormeceu, respirando profundamente aquele ar que era de todos, mas não era de ninguém. E seu corpo sentiu-se aquecido, coberto, protegido, muito confortável, como jamais ela havia sentido antes e um doce calor subiu por todo o seu corpo e uma voz macia ressoou por todo o seu ser desértico.

Dorme criança do meu coração, dorme, pois eu estou aqui como sempre estive para te amar e te proteger. Dorme e amanhã não vai lembrar-se de nada, mas o teu ser mais profundo entenderá que não está sozinha. Por hoje dorme. Somente dorme. Eu estou aqui, entre esse céu, esse ar, essa terra, por entre essas árvores, no teu ser do teu ser. Estou aqui como sempre estive e sempre estarei.

No dia seguinte a mulher  acordou e o sentimento de solidão, dor e abandono haviam desaparecido. Seu corpo estava descansado, e ela sentia seus olhos abertos, seus ouvidos abertos, seu coração aberto e tinha vontade de voltar para casa.

Sim, ela tinha uma casa, tinha um lugar, tinha uma família. E o seu coração lhe dizia que essa casa, essa família, poderia ser ali mesmo naquele instante ou poderia ser de onde viera, ou para onde iria. Ela sentiu-se ligada a todo aquele universo sem fim e sem começo, sentiu-se livre, feliz e protegida. A vida parecia sorrir pela primeira vez após tantos anos e ela sentiu o Sol em sua pele. O dia amanheceu e a vida sorria para ela, naquele vento, naquele Sol. A terra quente abaixo de seus pés sustentava seu corpo e seu corpo sustentava sua alma e sua alma sustentava seus anseios e seu coração estava quieto e tranqüilo e ela sentia-se por inteira completamente humana, inteiramente feliz, saudavelmente presente naquele corpo, naquela vida, naquele instante presente. E no aqui e no agora ela era completamente, e tinha tudo.

Assim reiniciou seu caminho rumo a todos os lugares, com o coração cheio de esperança, sentindo o Sol, sentindo a vida e sentindo-se na vida, viva. Uma pergunta se fazia no ar a ressoar em seu coração: o que havia acontecido na noite anterior? O que havia mudado tão radicalmente seu ponto de vista? Quase no mesmo instante de sua pergunta uma sombra com grandes asas apareceu a seu lado, assustada olhou imediatamente a sua direita e viu um enorme ser branco, cheio de penas e com asas enormes. Se parecia humano, mas com certeza humanos não tinham asas. Um sorriso maroto se fez no canto esquerdo do rosto claro do homem com asas, uma covinha apareceu em seu canto esquerdo da boca que exibiam agora dentes muito brancos e bem alinhados, os olhos castanhos dourados se sobressaiam, a tez branca e os cabelos extremamente escuros e longos.

–          Quem é você? – perguntou a mulher esfregando os olhos como quem quer entender que não esta sendo vitima de uma peça pregada pelos próprios sentidos.

–          Eu? – repetiu o homem de asas apontando para o seu próprio peito. Eu sou eu – repetiu firmemente e entusiasmado. Eu sou isso que sou – estendeu as mãos apontando para todo o ser completo. Nada além disso, e estou muito além de tudo isso – e apontou para a cabeça da mulher que o olhava aturdida. Eu sou aquilo que sou, e sou aquele que  è e jamais serei diferente disso, pois estou além do tempo e do espaço. E concluiu sorrindo.

–          Mas… Que explicação mais confusa – reclamou a mulher. Como você quer que eu entenda algo assim? Não sou pitonisa para decifrar oráculos – concluiu mal humorada, com a testa enrugada como era o costume sempre que ficava confusa.

–          Ok – respondeu o homem de asas, sorrindo, divertido da resposta da mulher. Então vamos tentar assim: quem é você?

–          Eu? – apontou a mulher para seu coração.  Eu sou Stella Regina disse a mulher com voz firme e decidida.

–          Ah! Você é a estrela rainha? – O homem de asas fez uma reverência com as asas à mulher e continuou. Em que mundos têm brilhado? O que tem feito com os seus poderes de estrela rainha?

–          Como assim? Esse é só o meu nome. Só isso.

–          Como assim só isso? Você não entende que seu nome é o selo do seu destino e o título principal do livro onde deve escrever com seu próprio punho seus atos na Terra? E depois de partir para lá – apontou o dedo para o Sol – onde continua seu caminho, na paradinha no meio da continuidade, terá que mostrar seus escritos e então abrirá o livro da sua missão para concluir como foi aqui – apontou para o chão – e isso definirá para onde irá.

–          Nossa… – A mulher coçou a cabeça ainda mais confusa. Acho que vou parar de perguntar. Cada resposta sua me deixa ainda mais confusa. Do que você esta falando?

–          Estou falando de você, do seu poder, da sua luz, do quanto você é especial e de como o mundo precisa da sua luz. Você é única, especial e veio para fazer algo que ninguém nesse planeta pode fazer a não ser você. Se não fizer o mundo empobrecerá e ficara mais escuro, e seus irmãos de viagem ficarão mais confusos, agressivos e perdidos.

–          Que? – respondeu a mulher indignada. Você ta querendo dizer que a culpa dessa esbórnia toda é minha? Quer dizer que o mundo está essa droga que tá porque eu, euzinha, estou deixando de fazer alguma coisa? Era só isso que me faltava mesmo.

–          Sim. Estou dizendo exatamente isso. Você não é uma euzinha, você é bem mais que isto, você é uma estrela rainha e deveria estar brilhando, iluminando, elucidando mentes e esclarecendo espíritos, mostrando o caminho. E o que está fazendo? Está fugindo. Muito bem. Muito bem mesmo. – O homem de asas concluiu sua frase batendo as asas como quem aplaude a um show.

–          Areee arghh… – A mulher cruzou os punhos de raiva e sentou-se a beira da estrada, fechando os olhos com as mãos e repetindo. Isso não existe Stella Regina, você esta alucinando, está alucinando… Definitivamente está ficando louca. Homens com asas não existem. Agora você abrirá os olhos e verá que está sozinha e tudo isso é efeito do Sol e de muito stress. Respire fundo e abra os olhos.

A mulher abriu os olhos e olhou para a estrada vazia, vislumbrando somente um raio de Sol brincando no asfalto. Suspirou aliviada. Concluiu aliviada, dando um tapinha no próprio braço – Viu Stella, eu te disse?

–          Disse mesmo… – ressoou a voz ao seu lado. O homem de asas estava deitado ao seu lado, no caminho, mascando zombeteiramente um pedaço de capim. Essa coisa de auto-hipnose dá bem certo mesmo sabia? Mas acontece que eu sou imune a isso. – E riu muito.

A mulher levantou-se e começou a caminhar de cabeça baixa, e repetindo para si mesma – Ele não existe ele não existe ele não existe.

Enquanto ela andava e repetia, o homem de asas a cobria com suas asas contra o Sol ardente. Após quilômetros da mesma repetição, o homem de asas decidiu enfim manifestar-se indignado.

–          Ok então, você quer que eu não exista? É assim que vai ser de agora em diante. Vou desaparecer, e só vou voltar quando você me chamar e disser que quer continuar essa conversa, ok? – E desapareceu.

Ao desaparecer, o Sol ardeu cruelmente sobre a cabeça da mulher e a mesma sentiu-se tonta e enjoada. Sentou a beira do caminho sem forças para continuar. Sua cabeça rodava, o sol escaldante afligia todo seu corpo e suas vistas embaçadas se negavam a definir qualquer objeto a sua frente. Tudo o que via era uma luz ardente. Confusa, exausta, deixou seu corpo tombar no chão. O mundo desapareceu debaixo do seu corpo, e tudo ficou escuro. E nada fazia sentido algum.

Ela havia perdido os sentidos.

 

 

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