Corpos Plásticos

Corpos Plásticos

Psic. Odegine Graça

A sedução pelo fascínio da forma corporal tem sido fator predominante na escolha de parceiros. Formas reveladoras, cheiros, cores e comportamentos provocantes fazem parte do ritual de sedução e conquista dos seres humanos. Porem, a forma corporal modelada de acordo com um objetivo específico de acréscimo de beleza para responder a uma imagem de beleza e sedução é um fato da civilização moderna. Nossa era vem revelando nitidamente o cérebro como uma máquina de prazer e voltado para a construção de prazer. E é esse cérebro que permitiu aos homens cientistas desenvolverem técnicas para construir fêmeas com corpos perfeitos, respondendo a um instinto básico do seu cérebro primitivo. A busca pelo prazer dessa máquina criativa e insaciável levou os homens a criarem propagandas televisivas, cartazes, e livros com a fala do corpo perfeito das heroínas sedutoras. “A mente é como um parque de diversões. A mente é vista como um filme de ficção científica cheio de ação e efeitos especiais ou como uma comédia romântica. A mente é como uma suíte de lua-de-mel em Las Vegas. A mente é como uma boate, um romance de suspense, um jogo de estratégias no computador, uma catedral barroca ou um navio de luxo. Acho que você entende o que eu quero dizer “. (M; pág. 170)
Sendo os homens até pouco tempo aqueles que dominavam a ciência e a indústria de produção de idéias de maneira geral, esses criaram uma demanda desafiadora para as mulheres no mercado da seleção sexual, ou seja: homens poderosos, com capacidade de sustentar uma prole, preferem mulheres desse tipo, e apontavam os dedos para a imagem sedutora impressa nas mídias. Essa conversa subliminar entre homens e mulheres, levou as mulheres a uma corrida desesperada em busca de aptidões, ornamentos, que permitissem a ela derrotar, eliminar, as concorrentes, tornando-se abelha rainha na escolha do zangão. Essas idéias criaram a indústria da beleza e essas os corpos plásticos. Nesse momento a mente pensa o corpo e o transforma em modelo plástico, pronto a ser moldado, transformado, em objeto de consumo pelas mãos do cirurgião hábil, o mago da indústria do consumo de prazer e beleza. O corpo gentil, passivo e calado, entregue a modelação, é por ironia daquelas que imperam no mercado da seleção sexual, o corpo feminino. “Embora a teoria evolutiva ainda fosse extremamente dominada pelo sexo masculino, individualmente os homens sentiam uma pressão maior da escolha pelas mulheres. Biólogas que faziam trabalho de campo também chamavam mais atenção pela escolha pelas fêmeas entre os animais que estudavam. Isto foi especialmente importante na primatologia, quando mulheres como Jane Goodall, Dian Fossey, Sarah Hrdy, Jeanne Altmann, Alison Jolly e Bárbara Smuts exploraram estratégias sociais e sexuais das fêmeas. Ignorar a idéia de que a escolha pelas fêmeas, ignorar que isto podia influenciar os rumos da evolução parecia, agora, preconceituoso e na contramão da ciência. Ao chamar a atenção para a evolução do comportamento social e sexual em animais, a sociobiologia da década de 1970 fez, pelo estudo da sexologia animal o que o feminismo fez pelo estudo da sexologia humana, permitindo que os pensadores indagassem: Por que o sexo funciona assim, e não de algum outro modo? (M; pág. 74-5). Ainda assim o mercado da seleção sexual tem suas próprias regras, e a competição entre os iguais pelo parceiro é uma delas. E assim, quem “pode mais chora menos”, ou seja, mulheres com maiores atributos têm mais chances de escolher parceiros mais aptos. Mas… de onde vieram essas idéias? O que é seleção sexual? A seleção sexual é a tese central do livro de G. Mueller, ele afirma que: o cérebro humano evolui pelo mesmo principio que evolui a cauda do pavão: devido à seleção sexual. A seleção sexual é em geral, uma forma de escolha de parceiros, feita pelas fêmeas, por uma ou mais características fenotípicas do parceiro. Estas características serviriam de parâmetro de seleção e não necessariamente deveriam estar relacionados com a capacidade de viver do individuo. Na página 77 de seu livro a mente seletiva Geoffey Miller diz: “Em poucos anos a seleção sexual tornou-se a área mais quente da biologia evolutiva e das pesquisas do comportamento animal… uma vez rompido este circulo vicioso por John Maynard Smith, George Williams, Amotz Zavani, Robert Trivers e outros pioneiros, a idéia favorita de Darwin estava livre para prosperar. Este revival da seleção sexual foi rápido, dramático e singular. Esta pode ter sido a única teoria cientifica importante aceita após um século de condenação e interpretações incorretas… A seleção sexual tornou-se a idéia mais produtiva na ciência emergente da psicologia evolutiva”.

Porem o que é a psicologia evolutiva? É uma ciência que tenta entender a natureza humana perguntando como nossos ancestrais sobreviveram e se reproduziram. Quanto melhor nós entendermos nossa evolução, melhor nós entenderemos nossos cérebros, nossas mentes e o comportamento moderno. A psicologia evolutiva procura compreender, por exemplo, por que buscamos status, achamos alguém sexualmente atraente, fazemos amigos, fofocamos e outras respostas para perguntas que tradicionalmente foram negligenciadas pela psicologia. O que estamos compreendendo agora é que boa parte do nosso comportamento é produzido por circuitos do cérebro que evoluíram, originalmente, para que os nossos ancestrais se tornassem sexualmente atrativos.

Partindo-se do principio básico de que a reprodução é o instinto básico de todos os seres, Miller acredita que a mente desenvolveu durante a evolução, ” diferentes estratégias reprodutivas.” Uma das principais se encontra na necessidade de tornar-se mais atrativo sexualmente. Esse requisito é preenchido no caso da mulher, não para o parceiro escolhido, mas para derrubar a rival. “A escassez de machos alfas está na raiz do fato de que muitas mulheres tendem a ver suas iguais como inimigas. É natural que os ecos do passado primitivo ainda se imponham. Homens e mulheres, afinal de contas, passaram apenas 1% de sua trajetória evolutiva sob os efeitos da civilização. Durante os outros 99%, estiveram à mercê dos seus instintos, que não têm nada de simples. Desde que o naturalista inglês Charles Darwin publicou A Origem das Espécies, em 1859, a ciência se habituou a analisar a evolução por meio de uma norma cardeal: a sobrevivência pertence aos mais aptos, e é para sobreviver no seu habitat que as espécies mudam e se adaptam. Visto sob esse prisma da seleção natural, o cérebro humano seria uma máquina de resolver problemas ligados à sobrevivência, e o sexo não passaria de uma decorrência dessa necessidade. Mas agora há uma nova revolução em curso na ciência. Ela prega que, se estamos aqui, é porque cada um de nós é fruto de uma seqüência ininterrupta, que já dura milhões de anos, de relacionamentos bem-sucedidos entre homens e mulheres.” (Candace Bushnell, eta veja. Ed. N 1812- 23-07-03)

Dentro dessa visão, a meta da evolução não é outra senão a procriação. Aqui o cérebro humano pode ser comparado a uma máquina de cortejar, criando uma linguagem para seduzir, assim como a cauda do pavão e os chifres do cervo. Com a diferença que o homem pode materializar seus desejos, através da arte e da ciência. Dessa forma, essa máquina de seduzir criou a indústria do prazer nos corpos belos das mulheres instintivas inscritas no campo mais primitivo do cérebro de cada homem reprodutor. “A seleção sexual explora este espaço de toda estimulação possível, chegando ao cérebro do indivíduo que percebe e determinando o que excita e causa uma relação positiva. A evolução sexual navega pelo espaço cerebral de cada espécie, em busca de prazer mútuo e logro reprodutivo pelos handicaps.” (Cleverson leite bastos, revista de filosofia, V. n 18 pág. 114). Mas… o que pode ter haver corpo de mulher modelado através do desejo do homem de ter mais prazer em reproduzir-se e da materialização desse desejo, aceito pelas mulheres, para tornarem-se mais competitivas, modelando seu corpo através da cirurgia plástica com Handicaps? O que são Handicaps? “O princípio de seleção sexual e o conceito de handicap, conceito trazido à baila pelo biólogo israelense Amotz Zahavi, sugere que muitos sinais de animais, incluindo ornamentos sexuais, evoluíram como enunciadores de aptidão animal. Zahavi sugere que “…o único modo confiável de anunciar aptidão é produzir um sinal que custe muito em termos de aptidão” (M; pág. 139). Em nossa cultura moderna, capitalista, consumista, existe a supervalorização da aparência física, essa é tida como fonte de prazer, pois preza o olhar. Estudos comprovam que somente olhar para um rosto bonito causa uma descarga elétrica no cérebro, fazendo com que quem olhou sinta prazer. Essas descobertas, acompanhado pelo crescimento de uma medicina da beleza, fez da cirurgia plástica estética, um deus recriador de corpos. Esse corpo plástico produzido materialmente, é antes uma linguagem, um significante imagético, uma metáfora de reprodução, guiada pela biologia e por preferências estabelecidas pela espécie há milhões de anos. “Homem alto, forte, caçador habilidoso e dominador. Mulher jovem, saudável e com potencial para gerar muitos filhos. Em matéria de sexo, ele só quer saber de engravidar o maior número possível de parceiras. Ela é mais seletiva: seu objetivo é engravidar de um macho capaz de lhe dar a prole mais apta a sobreviver e encontrar um provedor que a ajude a alimentar e proteger os filhos. Assim eram, nos tempos das cavernas, os protótipos daquilo que os biólogos chamam de “macho alfa” e “fêmea alfa”, os reprodutores ideais da espécie. Milhões de anos se passaram desde então, mas a ciência não pára de trazer à tona indícios de que o comportamento sexual humano, tal e qual se conhece hoje, segue fundamentalmente os mesmos mecanismos psicológicos ancestrais. A herança evolutiva explica, entre outras coisas, por que sexo e dinheiro – ou melhor, sexo e status – sempre estiveram intimamente ligados. Nem mesmo uma revolução como a conquista dos direitos da mulher alterou significativamente as velhas táticas de sedução e os sinais de atração.” (Veja. Ed. 1812- 23-07-03).

Esses sinais de atração transformaram-se em uma linguagem de sedução, figurada no próprio corpo da mulher, quer dizer, um aceita o outro e incorpora em seu domínio como parte sua. Essa linguagem impressa, realiza no corpo da mulher esta associada a um imaginário humano e é divulgada pela mídia como o corpo saudável, ágil, belo, gostoso, sarado, desejável. Esse corpo pode ser adquirido, moldado, ornamentado pelas mãos e bisturis dos artistas da forma humana. “Handicaps transmitem informações sobre a aptidão que os indivíduos desejam ao fazerem suas escolhas sexuais, haja vista a cauda do pavão, por exemplo, o que parece representar em termos de economia evolutiva um contra-senso, um tremendo desperdício de tempo, energia e aceitação de risco evolutivo. Tal conceito de indicador de aptidão pode ajudar-nos a entender a evolução da mente humana. As qualidades admitidas como tipicamente humanas para a música, pintura, humor, poesia, a criatividade, não parecem ser adaptações comuns. Ao inventariar o que o cérebro humano pode realizar, muitas das capacidades mentais humanas parecem, sob a óptica do conceito de handicap, ser indicadores de aptidões.

Muitas, milhares das adaptações psicológicas da mente humana são compartilhadas com outras espécies. Outras são compartilhadas apenas com outros antropóides de grande porte. As capacidades admitidas como intrinsecamente humanas como inteligência criativa e linguagem complexa são excepcionais desperdícios de tempo, energia e esforço adaptativo se sua gênese for fixada somente no âmbito da explicação cultural. Contudo, se esses indicadores de aptidões forem tomados como adaptações biológicas legítimas, então o conceito de handicap e o princípio de seleção sexual são os responsáveis pela constituição ou cobertura de vastos espaços da mente humana. O cérebro pode, a partir desta perspectiva, ser definido para além dos modelos usuais das teorias cognitivas, como um conjunto de adaptações selecionadas sexualmente de custo elevados em termos evolutivos. Sendo que o próprio custo para a sua produção é ele mesmo um indicador de aptidão. Ao favorecer os indicadores de aptidão como linguagem, música, pintura, cultura, a escolha sexual exigiu um comportamento que ampliou as capacidades mentais. A seleção sexual […] não perguntou o que o cérebro poderia fazer por seu dono, mas que informações sobre as aptidões do dono um cérebro poderia revelar” (M; p. 151). (Cleverson Leite Bastos, Artigo Filosofia, pág. 113). Enfim, a cultura da beleza cinematográfica permite a todos que possuem recursos financeiros ornamentar o corpo e destacar-se no mercado da seleção sexual. Esse mercado desperta ainda mais a necessidade instintual de tornar-me mais atrativo sexualmente, através de qualidades especiais que podemos ter, adquirir para nos tornarmos sexualmente competitivos dentro do mercado evolutivo. Nesse mercado, a moeda corrente de maior valor é ter bumbuns grandes e vantajosos seios. Mulheres de posse desses ornamentos sexuais tem um titulo de capitalização a mais que as outras. Na cultura do prazer elucida Steven Pinker “Na maioria das espécies o desejo sexual é uma estratégia para propagar os genes. Entre homens e mulheres, não. Entre nós, o desejo sexual e esse prazer é a estratégia dos genes para se autoprogramar. Assim sendo, construímos a partir de um cérebro biológico que busca o prazer, corpos socialmente desejáveis. Dessa forma, nosso corpo segundo Heilborn (1997) “Não é uma entidade natural apenas, o corpo é também uma dimensão produzida pelos efeitos da cultura. A nossa sensação física passa, obrigatoriamente, pelos significados e elaborações culturais que um determinado ambiente social nos dá.” E essa cultura é feita sobre a seleção sexual. A cultura moderna privilegia os olhos, que estimulam o desejo dos outros sentidos. Nessa cultura o cérebro é o órgão mais sexual que existe. Ele cria a imagem, a linguagem, a cultura, a ciência e disponibiliza os moldes para seduzir o sexo oposto, existe nessa linguagem ritual um conjunto de movimentos, gestos e posturas, sons, prescritos que devem ser seguidos. Essa formula inclui o não exprimível, o não significado e o não simbólico, o linguisticamente incomunicável, as sensações e os sentimentos dos corpos que se prostram e silenciam nas fabricas de beleza, para conseguirem sucesso reprodutivo.

O conceito de corpo remete à questão da natureza e da cultura, como vimos anteriormente, e abre assim um leque diferenciado de posicionamentos teóricos, filosóficos e antropológicos. Segundo Braunstein & Pépin (1999), o corpo não se revela apenas enquanto componente de elementos orgânicos, mas também enquanto fato, social, psicológico, cultural, religioso. Está dentro da vida cotidiana, nas relações de produção e troca, é um meio de comunicação, pois através de signos ligados à linguagem, gestos, roupas, instituições às quais pertencemos permite nossa comunicação com o outro. O corpo é um lugar que institui idéias, emoções e linguagens, sendo uma interação sensório-motora dos sentidos à ação. Na sua subjetividade, está sempre produzindo sentidos que representam sua cultura, desejos, paixões, afetos, emoções, enfim, o seu mundo simbólico. Neste jogo o corpo fala e também é falado pelos outros, sendo um múltiplo lugar de significações, que nossa cultura permite revelar. (Fausto Neto, 2000)

Nessa dança entre genética e cultural, homens e mulheres vêm trocando passos confusos e perguntas dúbias para entender o que fez o que, o desejo construiu a cultura e estas construíram os homens e mulheres atuais? Para Rosário (2004), junto com a industrialização, na metade do século XX, os meios de comunicação começaram a funcionar como propulsores da comunicação de massa. A reprodução do corpo não fica mais somente no âmbito da pintura, agora, ela, pode atingir um número elevado de indivíduos. O corpo pode ser reproduzido em série, através da fotografia, do cinema, da televisão, da internet, etc.

A partir do cinema americano, segundo Del Priori (2000), é que novas imagens femininas começam a se multiplicar: Se até o século XIX matronas pesadas e vestidas de negro enfeitavam álbuns de família e retratos a óleo, nas salas de jantar das casas patrícias, no século XX elas tendem a desaparecer, e o aparecimento de rostos jovens, maliciosos e sensuais na tela, somados a outros fatores, foram cruciais para a construção de um novo modelo de beleza.

O corpo representado na mídia é um corpo musculoso, sarado, restrito a uma parcela muito pequena da sociedade, limitada principalmente pela condição financeira. Porém é esse corpo que serve de padrão, norma de beleza, modelo e sinônimo de saúde e higiene à grande maioria das mulheres e um campo em ampliação para os homens.
Estamos assistindo neste início de século XXI, especialmente nos grandes centros urbanos brasileiros, a uma crescente glorificação do corpo, sua exibição pública é cada vez maior, deixando transparecer o que antes era escondido e, aparentemente, mais controlado. Para Goldenberg & Ramos (2002), as regras da atual exposição dos corpos, parecem serem fundamentalmente estéticas, sendo que, para atingir a forma ideal e expor o corpo sem constrangimentos, é necessário investir na força de vontade e na autodisciplina.

Assim, os indivíduos fazem quase tudo para manter seu corpo dentro dos modelos construídos e dominantes, como aponta Rosário (2004), abre-se espaço para uma indústria do corpo; a matéria física precisa entrar numa linha de produção que incluí ginástica, musculação, regimes alimentares, tratamentos estéticos, tratamentos de saúde, consumo da moda e de bens. As indústrias da beleza, da saúde e do status têm no corpo seu maior consumidor. Encontra-se à espera de homens e mulheres, academias, estéticas, salões de beleza, spas, clínicas médicas, hospitais, estilistas, costureiros, boutiques… O corpo está a serviço, portanto, da produção que o domina, utilizando-se da ilusão de fazê-lo belo, saudável e forte.

Novas formas de pensar o corpo têm sido reinventadas constantemente, num processo que vem alterando significativamente a relação que os indivíduos têm com seu corpo. O corpo virou objeto de consumo e totalmente fragmentado, o culto ao corpo ganha uma dimensão social inédita, cercado de enormes investimentos. O corpo em forma se apresenta como um sucesso pessoal, ao qual homens e mulheres podem aspirar. Hoje se vive na era da magreza, dos regimes, da lipoaspiração, dos implantes de próteses de silicone, botox, das academias, da construção de corpos, ou seja, da metamorfose dos corpos. E aqui destacamos a “escolha” feminina como a principal responsável pelos corpos plásticos, como aquisição de ornamentos, devido a competição de membros do mesmo sexo. A proposta é baseada no fato, de que a forma corporal feminina, simétrica perfeita adquirida através desses ornamentos fornecem as fêmeas uma superioridade diante das outras, o que permite a mesma tornar-se ainda mais seletiva na escolha do parceiro. “… a seleção sexual incorporava a convicção de Darwin de que a evolução era uma questão de diferenças na reprodução, em vez de diferenças apenas na sobrevivência. Os animais passam suas vidas inteiras na busca por parceiros sexuais, contra todas as expectativas da teologia natural. Longe de um Criador que deu a cada animal o equipamento necessário para prosperar em seu nicho correto, a Natureza moldou os animais para uma competição sexual exaustiva que pode ter pouco benefício para a espécie como um todo. Finalmente, Darwin reconheceu que os agentes da seleção sexual eram literalmente os cérebros e corpos dos rivais sexuais e potenciais parceiros, e não as pressões desprovidas de intelecto de um habitat físico ou nicho biológico. A psicologia assombra a biologia com o espectro da escolha semiconsciente de parceiros, que molda o curso de outro modo cego da evolução. Este encaixe da evolução na psicologia foi a maior heresia de Darwin. Uma coisa era a Natureza em geral substituir Deus como força criadora. Muito mais radical era substituir um Criador onisciente por cérebros do tamanho de pedregulhos dos animais inferiores em sua busca incessante pelo sexo uns com os outros. A seleção sexual não era apenas ateísmo, mas um ateísmo indecente (M; pág. 57) A seleção sexual impôs as formas do corpo feminino, e as mulheres dessa cultura aceitaram plenamente essa imagem vendo nessa uma maneira de destacar-se na seleção sexual as regras do jogo eram agora impostas pela economia, pela indústria do prazer. Para Boudrillard (1997) seja em que cultura for, o modo de organização com relação ao corpo, reflete o modo de organização com relação às coisas e das relações sociais.

De acordo com Rodrigues (1987), cada cultura “modela” ou “fabrica” à sua maneira um corpo humano. Cada sociedade imprime, no corpo físico, determinadas transformações, mediante as quais o cultural se inscreve e grava sobre o biológico; arranhando, perfurando, queimando a pele. Inscrevem nos corpos cicatrizes-signos, que são verdadeiras obras artísticas ou indicadores rituais de posição social: mutilação do pavilhão auricular, corte ou distensão do lóbulo, perfuração do septo, dos lábios, das faces, amputação da unhas, alongamento do pescoço, apontamento dos dentes ou extração dos mesmos, atrofiamento dos membros, musculação, obesidade ou magreza obrigatória, bronzeamento ou clareamento da pele, barbeamento, cortes de cabelo, penteados, pinturas, tatuagens… práticas que tentam ser explicadas, por razões sociais, de ordem ritual ou estética. Como vimos não há sociedade que não modifique de alguma forma o corpo de seus membros, cada uma, portanto, se especializando na produção de determinados tipos de corpos, os quais servirão como insígnias da identidade grupal, nos quais o corpo biológico trabalhará como matéria sociológica. (Schilder, 1999).
Hoje se vive a revolução do corpo, valores relativos à beleza, saúde, higiene, lazer, alimentação, atividades físicas têm reorientado um conjunto de comportamentos na sociedade, imprimindo um novo estilo de vida, mais livre, narcíseca e hedonista do corpo.

Na segunda metade do século XX, segundo Goldenberg (2002), o culto ao corpo ganhou uma dimensão social inédita e entrou na era das massas. A difusão generalizada das normas e imagens, a profissionalização do ideal estético e a grande preocupação com os cuidados do rosto e do corpo, fundam a idéia de um novo momento da história da beleza feminina e, em menor grau, masculina. Cada indivíduo é considerado responsável (e culpado) por sua juventude, beleza e saúde. O corpo torna-se, também, capital, cercado de enormes investimentos (de tempo, dinheiro, entre outros), a obsessão com a magreza, a multiplicação dos regimes e atividades de modelagem do corpo, a disseminação da lipoaspiração, dos implantes de próteses de silicone nos seios, de botox para atenuar as marcas de expressão, testemunham o poder normatizador dos modelos cada vez mais acentuados na atualidade. E são esses modelos que prevalecem como doutrinadores do comportamento feminino no mercado da seleção sexual. Essas escolhas aparentemente culturais, econômicas e sociais se pensadas dentro da teoria da mente ornamental, dos handicaps, anunciam essas mutações corporais, como uma nova maneira de seleção sexual, feita pela própria cultura, a qual fere toda a lógica de sobrevivência. A exposição aos riscos da cirurgia plástica, as dores sentidas no pós-operatório, os hematomas deixados, o perigo da anestesia e dos erros médicos, nada disso faz as mulheres desistirem do seu intento. As mulheres que procuram a cirurgia plástica estética vão desde adolescentes até mulheres ditas intelectuais, e maduras. Nos EUA, em 2003, foram realizados, segundo a American Society For Plastic Surgeons (ASPS, 2004a), mais de 8.7 milhões de procedimentos estéticos, dentre os quais: quase 3 milhões de injeções da toxina botulínica, 320 mil lipoaspirações e 254 mil aumentos de mamas1. A tendência de 1992 a 2003 aponta para um grande crescimento no número de cirurgias plásticas cosméticas: aumento de mamas 657%, lift nas nádegas 526%, lipoaspiração 412% e injeções de botulina 153% de 2002 a 2003 (ASPS, 2004b). Uma outra tendência é o aumento dessas intervenções em faixas etárias cada vez mais precoces. Nos EUA, realizaram 3.841 cirurgias para aumento de mamas em meninas menores de 18 anos em 2003, um aumento de 24% em relação a 2002. No mesmo ano, as adolescentes americanas se submeteram a 5.606 intervenções para injeção de botulina, um aumento de 950% em relação a 2002 (ASPS, 2004c). O Brasil é o terceiro país do mundo em número de cirurgias plásticas, atrás apenas dos EUA e do México, foram 400.000 intervenções em 2003, sendo metade delas puramente estéticas e dentre essas: quarenta por cento de lipoaspiração, 30% de mamas e 20% na face. O que leva as mulheres a se submeterem a essa tortura? “… a ciência do séc. XX teve grande dificuldade para explicar os aspectos da natureza humana mais evoluídos como exibições físicas, status e imagem. Os economistas não puderam explicar nossa sede por artigos de luxo e consumo desenfreado. Os sociólogos não conseguiram explicar por que os homens buscam a riqueza e o poder mais avidamente que as mulheres. Os psicólogos educacionais não puderam explicar por que os alunos tornavam-se mais rebeldes e ligados a modismos após a puberdade. Os cientistas cognitivos não conseguiram imaginar por que a criatividade humana evolui. Em cada um destes casos uma falta aparente de ‘valor para sobrevivência’ fez com que o comportamento humano parecesse irracional e não adaptado. (MILLER, 2000, pág. 78). A transformação da imagem corporal da mulher, é o caro pagamento exigido pela sua necessidade biológica de segurança encontrada no parceiro. A linguagem de sedução imposta pela cultura dita as regras do jogo para as competidoras. Essa linguagem “Imagetificada” figura-se na Bio da mulher, imprimindo-lhe uma arte, um ornamento, uma nova aptidão, fazendo desse corpo uma BioArte-Integração, onde exigências biológicas juntam-se, integram-se com a cultura exigindo uma nova mulher. Essa pesquisa pretende levantar dados sobre essa mulher de corpo plástico, para saber se essas são mais bem sucedidas na busca de parceiros…

Psic. Odegine Graça – CRP 08/07936
Psicóloga, psicoterapeuta
odegine@casadasfadas.psc.br

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