Bullying – Aprendendo o Preconceito

Bullying – Aprendendo o Preconceito
Terapeuta e Consteladora Odegine Graça - Especialista em Autoestima, Relacionamentos e Relacionamentos Amorosos
Terapeuta e Consteladora Odegine Graça

Nesse domingo, como quase sempre fazemos, iniciamos nosso passeio predileto: fomos as Livrarias Curitiba, ler e tomar café. Meu marido aproveitou para dar uma olhadinha nos temas de caderno para nossa filha de 11 anos.

Qual foi nossa surpresa, e indignação, quando nos deparamos com um caderno da Jandaia com o seguinte tema: “Salvem as baleias, as gatinhas deixem que eu salvo.“

Quase tivemos um “síncope indignatória“. Até mesmo porque a algum tempo atendendo uma mãe de uma garotinha de 10 anos que está com problemas sérios de tireoide e por conta disso engordou muito nos últimos meses. Como consequência já não quer ir mais a escola, pois os amigos lhe deram o “doce apelido” de orca, a baleia assassina.

Em tempos de conscientização, e de pleno falar sobre bullying, preconceito, respeito a dignidade humana e da vida como um todo, eu fico me perguntando como alguém que fabrica cadernos para jovens e adolescentes consegue colocar um tema de no mínimo extremo mal gosto no mercado? Como as Livrarias Curitiba, ou qualquer outro lugar que venda material escolar, pode incentivar esse tipo de atitude insana e de incitação a violência? No site da empresa, onde descreve a linha de cadernos, eles tem a desfaçatez de recomendar esta linha de cadernos para os “irreverentes”, e prosseguem descrevendo que esta linha “se destina ao humor inteligente e moderno”. Muito pior se assim fosse, haja visto que aprendemos nossos comportamento através da repetição e com extrema rapidez se os conceitos estão associados a fortes emoções ou humor.

Pensem só em adolescentes usando esse tema em seus cadernos e outros adolescentes compartilhando esse “humor inteligente e moderno”, e apontando no corredor uma menina obesa, que pode ser sua filha. Mais um adendo, este caderno especificamente foi feito para garotos, colocando as meninas numa posição de objeto.

Agora, se isso ainda não te convenceu desse absurdo pensem comigo, se estivesse escrito: “Cuidem dos macaquinhos pois das branquinhas cuido eu”, ou ainda “Protejam os gays, pois dos héteros cuido eu”. Ou ainda “Cuidem dos macumbeiros pois dos evangélicos cuido eu”, ou ainda “Cuidem dos judeus pois dos cristãos povo de deus cuido eu” e assim por diante, poderíamos ficar aqui falando disso um mês todo, citando o desrespeito as diferenças que em nome de um “humor irreverente” ensina nossas crianças como se tornarem preconceituosas e impiedosas.

Vocês acham que estou sendo exagerada? Não é preciso ser psicóloga para saber que a cabeça de crianças e principalmente de adolescentes é feita facilmente através do “humor“, mesmo que elas nem saibam direito o que estão falando, ou melhor repetindo. Perguntei a minha filha hoje pela manhã “Filha, o que você acha de um caderno que diz: salvem as baleias, porque das gatinhas cuido eu?”. Ela pensou, pensou, e me respondeu “Acho bem engraçado; só que eu não entendo direito o que quer dizer”. Aí então eu disse: “Você lembra da fulaninha sua amiga do colégio que é bem gordinha?”. Ela disse : “Claro mãe.”, e eu disse “O que você acha de chamarem ela de baleia?”. Ela respondeu ficando vermelha e com raiva, “Ano passado no acampamento da escola os meninos ficavam o tempo todo chamando ela assim e a fulana, deu socos e pontapés de raiva neles… Eu não achei isso nada engraçado.” ela completou: “mas meninos são meio dãrrr”, Então eu perguntei: “E o que você acha que deveria ser feito para resolver o problema?”. Ela me respondeu “Acho que a fulana deveria fazer regime e emagrecer bastante e aparecer bem linda para eles..”.

Perceberam? Existe uma inversão de valores acontecendo aí, bem a nossa frente. As meninas aprendem desde muito cedo que elas como são, se forem diferente das mulheres plastificadas mostradas pela mídia, não tem valor nenhum, e que se quiserem pertencer ao grupo devem obedecer as regras, mesmo que tenham de deixar de serem elas mesmas.

Agora, o preconceito não pega somente meninas, os meninos também são vítimas, principalmente quando não seguem o padrão estético ou se sua escolha sexual parecer diferente aos olhos dos colegas. Prova disso é o horrível acontecido com o garoto Oliver de 12 anos que se matou enforcado com o cinto da mãe após, ser chamado de “gay gordinho” na escola. Os pais avisaram a escola, que não tomou providência alguma. O menino escreveu uma carta pedindo perdão aos pais e se enforcou com o cinto da própria mãe. Isto  foi publicado dia 05/03/2012 na mídia. Será que algum pai acha alguma graça nisso?

A falta de atitude das escolas, do mercado consumir e de todos nós humanos, vem matando nossas crianças. Ao invés de fazermos campanhas  preventivas inteligentes e bem humoradas para conscientizar nossos jovens da importância de respeitar os outros, das diferenças, estamos permitindo que nossos filhos comprem cadernos e consumam ideias como as aqui propostas por uma mídia toda poderosa que detém o mercado de ideias infantis.

Estou muito indignada, e peço aos pais, educadores e aos seres humanos de valor que fiquem indignados comigo.

Nós somos consumidores e dizemos sim ou não àquilo que devemos consumir. Deveriamos processar e exigir que essa empresa e todas aquelas que poem um produto desses a venda pagassem tributos as crianças e adolescentes que morrem e sofrem muito por causa de bullying. Elas deveriam pagar o tratamento dessas crianças e também a limpeza das suas cabeças, através da conscientização.

Somos seres humanos e todos somos responsáveis pelo mundo que fazemos. Vejam a foto e repassem esse texto para os seus contatos por favor.

Em nome de nossas crianças e adolescentes, e de sua saúde, e vida.

Um forte abraço.

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