Além do Olhar – Capítulo III

Além do Olhar – Capítulo III
Psic. Odegine Graça

Tudo no mundo não passa de ilusão. O que teus olhos vêem pode enganar-te, o que teus ouvidos te dizem verdadeiro, pode ser a mais crua falcatrua. Nunca tomei como verdade absoluta o céu azul ou o canto dos pássaros. O real para mim é aquilo que vivo, conforme vivo; e, de certo, vivo do engano de meus sentidos. Em meu mundo, não no seu. O maior de todos os mistérios é o homem. Pensas conhecer-me, por conviver diariamente a meu lado. Sabes como ando, sento e falo; conheces fragmentos do meu ser. Não te iludas achando que abro todas as portas de meu universo interior. Existem dentro de mim portas que não ouso abrí-las. Não por temor de ti; mas por medo do que vou encontrar de mim mesmo.

Deméter continuou em pé, olhando a menina a sua frente. Mantinha as mãos no bolso roçando suavemente os dedos nas chaves dos baús. Dafni, sentada no banco da mesa de refeições, mantinha a cabeça levantada com os olhos presos nos da avó. Atrás de sua cabeça brilhava o ouro do baú aberto, depositando em cima da mesa. A pequena segurava firme o lenço que a mãe lhe dera entre as mãos fechadas sobre o colo. Seu semblante amorfo procurava amoitar o pavor do momento crucial.

– Parece um ratinho. Nada tem de parecido com sua mãe; você é mesmo bem feia!

Dafni baixou os olhos, sem nenhum garbo; caiu num pranto profundo, soluçando de estremecer todo o corpo. Deméter, em instinto maternal, correu e abraçou a menina.

– Ora, vamos! Parece mesmo um ratinho assustado. Não fique triste! Todas as crianças são mesmo feias.

A menina abraçou a avó com tanta força, calor e ternura, que, por um momento, aqueceu a alma gélida da mulher, que há, muito, não sentiam seu coração fervilhar por um sentimento bom. O gelo derretido fez-se lágrimas e Deméter sentia-se acabrunhada ao sentir o gosto do sal nos lábios. Estava chorando…, seria mesmo possível? Há quanto tempo não chorava? Pensava ser um deserto árido, no qual não havia nem, nascente, ou outra forma de vida. Havia muito tempo, não tinha esperança de encontrar seu oásis. Agora ali estava sua pequena nascente. Tomou a menina nos braços, aconchegando-a em seu colo. Foi até a rede, abraçou-a, aquecendo-a em seu peito. Dafni não reagia. Parecia agora um gatinho manso, à procura de um carinho.

– Acha que vou crescer e ficar bonita um dia? – perguntou a menina com voz entrecortada por soluços.

– É claro que sim! Você já viu um pintinho quando nasce?

– Não! Acho que nunca vi. Respondeu limpando as lágrimas com as pontas dos dedos e espirrando fortemente o nariz, gesto que fez a avó rir.

– Pois vou contar como é. A mãe pode ser a mais bela galinha de todo o terreiro; penosa e gorda. O filhote, porém, sai da casca molhado, e quase sem penas, magro e feio de dar dó. Mas, quando vai crescendo toma forma, tornando-se muito belo ou deixando de ser tão feio.

– Isso quer dizer que serei bonita, ou deixarei de ser tão feia, hein vovó?

A avó não conteve o riso. Dessa vez nada tinha de sarcasmo ou sádico, como às vezes anteriores em que estrondosamente gargalhava. Esse era um riso alegre, descontraído.

– E um consolo ao menos. Imagine se você tivesse a certeza de continuar sempre como está, uma pequena chorosa, que só pensa em tornar-se bela?

Dafni sorriu, protestando ao mesmo tempo:

– Pequena já não é um tanto ofensivo; ainda completa com chorosa. Tem razão! E mesmo consolador saber que se não me tornar uma bela mulher, ao menos mais feia não ficarei. Ou ficarei?

Deméter e Dafni divertiram-se com a observação; ficaram horas a conjecturar quão terrível destino teria se ficasse ainda mais feia do que já era. Até que cansada, aconchegou-se ao corpo da avó e, aninhando-se, agarrou-se de tal forma que mesmo quando adormecida Deméter não pôde desvencilhar-se, ou, na verdade, não queria deixar aquele aconchego. Adormecera agarradas, com a casa totalmente aberta.

Os primeiros raios de sol iluminaram o interior da moradia, fazendo cócegas nas pálpebras fechadas de ambas, adormecidas na rede. Abriram lenta e preguiçosamente os olhos, sem querer despertar da magia da noite, para enfrentar o dia em sua inclemência.

– Vovó! Como eu faço para me levantar dessa coisa?

A avó sorriu diante da ingenuidade da menina.

– Essa coisa se chama rede. Vamos! Eu a ajudarei. Logo saberá deitar e levantar sozinha; basta acostumar-se e não fará mais diferença se a rede se mexe ou não, pois você sempre será mais veloz que ela.

Deméter levantou-se de um só pulo, com a garota nos braços. Dafni riu, às “favas”, do evento.

– Nunca serei tão rápida, pode acreditar. Quando pensar em pular, “puft”, já estarei, há muito, no chão.

– Seu traseiro ficará roxo até conseguir, disso pode ter certeza.

– Quero fazer xixi.

– Está bem! Vou mostrar-lhe como se arranjar.

Deméter levou Dafni pela mão até os fundos do casebre. Entre os arbustos havia um pedaço de madeira, ao lado uma enxada.

– Está vendo esse buraco? Deve fazer aqui suas necessidades, para depois cobri-lo com terra. Abra um outro buraco e deixe a madeira em cima. Para limpar-se, use aqueles sabugos secos do cesto da cozinha.

– Puxa! Que trabalhão!

– Bem, pode começar! Quando terminar, estarei à sua espera dentro da casa. Dafni concentrou-se na tarefa, enquanto a avó se afastava voltando para dentro da casa.

Demorou muito para conseguir arranjar-se; a enxada era muito pesada e o máximo que fez, foi um semi-buraco na terra, cobrindo-o com a madeira. E decidiu que só faria suas necessidades básicas em caso de extrema urgência. Voltou correndo para casa, pronta para contar a aventura à avó. Chegando à porta, enrubesceu. Parou sem saber o que fazer. A mesa estava repleta. De onde vinham eles, perguntava-se confusa? Lembrou que, no dia anterior, não vira ninguém na casa; e, agora, ali estavam doze pessoas em volta da mesa. Sentiu um vazio no estômago. Abriu e fechou os olhos para comprovar se não estava tendo alucinações. Foi inútil. Eles continuavam lá, bem vivos e todos a olhavam com um ar não muito amigável, segundo sua interpretação.

Deméter em pé, na ponta da mesa, fez sinal para Dafni entrar. A menina caminhou vacilante até onde a avó se achava e, por um instante, olhou as mãos como quem procura algo para adquirir seguranças. Foi, então, que percebera a falta do lenço que a mãe lhe dera. Esqueceu logo a idéia, indo colocar-se quieta ao lado de Deméter, que chamava por um nome que Dafni, confusa, não entendeu de imediato. Viu aproximar-se uma moça alta de cabelos ruivos, olhos incrivelmente verdes; era esguia e caminhava jeitosa e decidida.

– Essa é Cânace, minha filha mais velha. E a ela que deve ouvir quando estou ausente. A moça sorriu um pouco arredia; sua face demonstrava uma expressão desconfiada.

– Seja bem-vinda! Sua voz soou segura e amável; porém Dafni não sentiu veracidade no som ouvido.

Mélia, a outra moça sentada após Cânace, levantou caminhando em direção a Dafni; era igualmente alta, porém mais magra, com o corpo ainda em desenvolvimento; seus cabelos eram de um ruivo mais cor de fogo que os da irmã, e seu andar mais ligeiro. Os traços não eram tão belos, mas superava, em sinceridade, o sorriso de seus lábios. Os olhos eram brilhantes e alegres. Quando Cânace estiver fora, dizia Deméter, Mélia dá as ordens.

– É um prazer tê-la conosco, disse com alegre sinceridade. Dafni retribuiu o sorriso, o que não havia feito anteriormente, gesto que não passou despercebido aos olhos de Cânace.

Mélia voltou para mesa, onde Cânace também ocupava seu lugar. Pélias, a moça ao lado de Mélia, levantou. Essa era um pouco menor em altura, seu físico era o de uma garota magra e lisa. Os cabelos eram tão ruivos quanto os de Mélia; porém os olhos e o andar assemelhavam-se aos de Cânace. Deméter apresentou Pélias sem qualquer entusiasmo, tendo na voz aquela sonoridade sarcástica tão bem conhecida por Dafni. Pélias tenta dar ordens, mas ainda é jovem e inexperiente; não tem capacidade para isso, ao menos por enquanto. A garota levantou os olhos; seu rosto exprimia um ódio manifesto à mãe, não fazendo questão de disfarçá-lo.

– Como vai? Suas palavras frias como o gelo demonstraram a Dafni que não era bem vinda. Permaneceu em pé frente à Dafni, com uma atitude agressiva. E, quando se preparava para articular suas próximas palavras, foi interrompida bruscamente por Deméter, que, com voz severa, ordenou que a moça voltasse ao lugar. Essa o fez a passos largos e muito rápidos, demonstrando toda sua insatisfação.

Ao chamar Toossa, Deméter mudou totalmente sua fisionomia. Sua face enrugou e sua voz era rouca e áspera. Dafni atribuiu, por um momento, o exaspero da avó a Pélias, indagando consigo qual a razão da atitude inóspita da moça para com a mãe. Toossa aproximou-se e Dafni, em seu devaneio, só a percebeu quando estava a sua frente. A moça, em pé, parecia mais velha que Pélias, superando-a na altura e desenvolvimento corporal. Aquela garota apresentava indícios de uma mulher bela, que muito lhe prometia o tempo de bom em seus traços. Eram cabelos muitos lisos, destacando-a das irmãs que apresentava, no ruivo fogo dos cabelos, cachos grandes e leves. A cor de seus cabelos, porém, não negava o ruivo mais ameno de Cânace. Toossa tinha a pele coberta de sardas; isso, porém, não tirava em nada seu encanto. Os olhos eram azuis. Dafni gelara. Os olhos de Toossa eram azuis, tão límpidos como os de sua mãe. Tudo ficou claro a partir desta constatação; era esse o motivo de raiva da avó. Toossa era muito parecida com Perséfone, não por certo em detalhes físicos; mas a voz, o sorriso, em tudo assemelhava-se aos da irmã. Dafni demonstrou abertamente sua simpatia pela moça.

– Seja bem vinda, pequena! Toossa inclinou-se e beijou suavemente o rosto de Dafni, e, como sua mãe, a menina a fitou intrigada. A moça sorriu-lhe e a covinha do queixo exibiu mais uma semelhança incontestável das duas mulheres. Deméter, ao perceber a proximidade cúmplice das duas, ordenou, de imediato, a Toossa que voltasse ao seu lugar. Foi então que Neleu, o rapaz, levantou-se com garbo, andando como um cavalheiro de armadura, em sua direção. Dafni quase não conteve o riso ante a comicidade da situação; retraiu-se, pois o bom senso a advertia que Neleu levava sua postura muito a sério e rir de suas maneiras seria uma grave ofensa ao jovem. Seus traços eram semelhantes aos das irmãs; seu corpo, porém, era truculento, demonstrando um homem-menino. Esse é o mais velho de meus filhos homens, disse Deméter num tom de voz denunciando que seus modos não eram engraçados, somente a Dafni.

– É uma honra recebê-la. Saiba que estarei ao seu inteiro dispor, caso precise da proteção de um homem. Fez um gesto gentil com a cabeça. Deméter não se contendo, gargalhou uma torrente de risos contidos até então. Neleu cruzou a mão nas costas num gesto autoritário, dando meia volta na ponta dos pés e, com um semblante muito sério, demonstrou ter sido gravemente ofendido em sua dignidade masculina. Ao acalmar dos risos, Deméter apresentou tiro, Alcione, Celeno, Bentesicime, Despoina, e Pluto. Os cinco primeiros em tudo se pareciam. Pluto, o menor, era uma negação total do restante da família. Seus cabelos eram de um loiro quase esbranquiçado; os olhos eram duas órbitas brancas, onde não se viam as pupilas; seu corpo era miúdo e magro, deixando seus ossos à mostra; dentes dessemelhantes, finos e bem separados; e o rosto austero dava-lhe cem anos. Lembrava um cadáver pensou Dafni de si para si. Foi com asco que Dafni percebeu a aproximação do garoto. Suas mãos geladas tocaram seu rosto e seus dedos caminharam lentamente por todos os seus traços. Dafni retesou-se num gesto angustiado e amedrontado. Deméter levou o filho ao colo, com um carinho especial e beijou-lhe a face ternamente.

– Como vai, meu pequeno tesouro? Sente-se bem hoje? Ah! Quer ir com a mamãe ao campo? Boa idéia! Sabia que gostaria. Suba e pegue suas coisas.

Dafni paralisada, não sabia o que pensar diante do monólogo da avó. Estava muito assustada. Em toda sua vida, embora feita de poucos anos, mas de muita experiência, nunca tinha deparado com uma figura tão assustadora como a do pequeno Pluto. Sentia a cabeça rodar e demorou a decifrar a voz longínqua e melíflua de Deméter. Olhou fixamente o garoto subir seguro as escadas, sumindo no andar superior da casa.

– Dafni! Está me ouvindo? Deméter sacudia a menina, preocupando-se com a palidez de seu rosto. Dafni, você está se sentindo mal?

– Hã? Sim! Quer dizer, não! Acho que fiquei um pouco atordoada, só isso.

– Não se assuste com Pluto! Ele é inofensivo. Sabe, ele é mudo. E ao tocá-la, queria somente saber como você era, pois é a única forma de poder conhecê-la. Ele, também, não pode enxergar: é cego surdo-mudo de nascença.

Dafni, quase desfaleceu diante da revelação. Como pode? Pluto parecia ver e ouvir perfeitamente. Há pouco não fizera o que a mãe lhe propunha? Como sabia onde encontrá-la sem luz e sem sons.

Deméter, como se ouvisse os pensamentos da menina, esclareceu:

– É estranho de certo, mas Pluto entende tudo; e, de certa forma, vê melhor que todos nós, ouve e entende. Não se ocupe tanto em saber como; ainda não é o momento certo; logo muitas coisas ficarão entendidas, e as sombras que pairam em sua mente se desfarão. No momento basta que não tenha medo dele. Encare-o apenas como uma pessoa um pouco diferente de você.

– Quantos anos ele tem? – perguntou de um fôlego só, dando margem aos seus impulsos, sem ouvir sua razão que a advertia para não ir além na questão.

– Quatro. E apenas dois anos mais velho que você. Poderão ser amigos não acha?

– Por certo! – respondeu Dafni com voz trêmula e pouco convincente.

– Cânace tem quatorze anos, Mélia treze, Pélias doze, Toossa onze, Neleu dez, Tiro nove, Alcione oito, Celeno sete, Bentecisime seis, Despoina cinco. Agora você é a mais nova da família.

– São anos solares? – perguntou em voz falseada e de admiração.

– Sim! É claro! Sempre contamos a idade em anos solares.

– Mamãe tem vinte e seis anos solares. Contou-me que cuidava de todos eles, menos de Pluto que não havia nascido quando partiu. Ela tinha dezesseis anos quando deixou sua companhia. Como então podem eles ter tão pouca diferença de idade?

Deméter exibiu novamente aquele ar furioso, que a transformava em um outro ser; uma criatura medonha e perigosa, uma serpente pronta a dar o bote. Respondeu à neta com voz retumbante, impregnada de rancor:

– Foram purificados. Nunca mais, nunca mais, ouça bem pois só direi uma única vez, nunca mais toque no nome de Perséfone dentro dessa casa, e, principalmente, apontou com o indicador na direção dos filhos, diante deles.

– Cale-se! Nunca queira saber o que não deve. O que não entende, não lhe cabe compreender; o que for útil a sua sobrevivência, eu mesma lhe contarei. Quanto ao restante, não desenterre ossos, pois pode ser muito pior para você. Entendeu? Deméter segurava os braços de Dafni com tamanha força que chegou a interromper-lhe a circulação naqueles músculos. Dafni estava prestes a chorar de dor, demonstrando em sua face o terror dos olhos da avó. Ouça menina, a dor física, por vezes, é bem mais amena que a de certas recordações. A incerteza é benéfica, pois traz consigo duas probabilidades: ou que queremos saber nos trará muita alegria ou sofrimento disparital e irreparável. Portanto, fica meu conselho: mergulhe em suas dúvidas, e procure, em suas idéias, fantasias boas para saná-las. Creia-me! Isso a fará bem mais feliz.

Deméter largou o braço de Dafni repentinamente, sumindo do interior da casa. A menina, em desespero, procurou novamente o lenço da mãe entre as mãos, esquecendo-se por completo de não tê-lo entre os dedos.

Dos irmãos, somente Cânace parecia feliz com a situação constrangedora. Os demais permaneciam calados com um olhar de piedade voltado para Dafni.

Cânace, sorrindo, começou a dispersar todos, dando a cada qual duas tarefas diárias. Quando se encontrou só com Dafni, agachou-se, e, com um olhar maldoso, acrescentou:

– Então, garotinha esperta? Satisfeita? Pode chorar se quiser. Prometo que não direi nada a ninguém. Fez uma careta, que em qualquer outra situação seria cômica, mas ali, naquele instante, era mais uma forma de ataque frontal à garota. Cânace queria saber até que ponto Dafni lhe daria trabalho; isso ela saberia testando sua resistência; quanto mais cedo fugisse ou chorasse, melhor para ela. Não gostava de domesticar cavalos selvagens. Uma coisa deveria deixar bem clara aos olhos da pirralha: era quem, depois de sua mãe, dava as ordens ali.

– Vamos, continuou impiedosa! Chore ou corra! Faça o que quiser!

Dafni permaneceu imóvel por alguns minutos.

Depois com voz calma e olhar pacífico, perguntou a Cânace:

– Quais são minhas tarefas? Exasperada Cânace ergueu a mão direita e esbofeteou a garota tão forte que a jogou no chão. No canto de sua boca o sangue corria, dando uma coloração avermelhada ao rosto desafiante da menina.

– Então, Cânace! Hoje nada devo fazer além de servir-lhe de saco de pancadas? Se assim for, diga-me, pois levantar-me-ei quantas vezes cair, até que seu braço canse, ou, então, o sangue se esvazie de meu corpo.

Cânace atirou-se em cima de Dafni e pôs-se a esbofeteá-la ferozmente, sem que a mesma soltasse um gemido de dor. Foi, então, que Deméter entrou subitamente, deparando com a cena. Gritou com toda energia.

– Cânace! O que está fazendo? A moça susteve o punho fechado no ar e voltou-se pálida na direção da mãe que, já bem perto, agarrava-lhe os cabelos.

– Como pode? Não vê que é só uma criança?

– É um demônio encarnado no corpo de uma menina. Não vê isso mãe?

Deméter, ainda segurando a filha pelos cabelos, voltou forçosamente seu rosto de frente para o seu.

– Ouça Cânace! Sei bem o que faço! E você sabe que não deve castigar ninguém nessa casa. A única pessoa que tem tal direito sou eu. Perderá seu direito de primogênita durante duas luas, pelo seu ato impensado. Cânace calou sabendo ser qualquer protesto inútil naquele instante; porém prometeu a si mesma que Dafni pagaria muito caro por aquilo.

Deméter ajudou Dafni a levantar-se e cuidou de seu rosto ferido, sem uma palavra. Ao terminar, Pluto encontrava-se ao seu lado sem ter sido notado até então. Colocou a mão no ombro da mãe durante alguns minutos, e Deméter olhava para seus olhos mortos como se eles dissessem alguma coisa. Então balançou a cabeça num gesto afirmativo, e o menino exibiu de imediato seus dentes pontiagudos numa forma de sorriso.

– Dafni! Pluto pediu para você acompanhá-lo ao campo. Quer vir conosco?

Sem nada entender, concordou satisfeita por livrar-se de Cânace, ao menos naquele dia.

Andaram durante um quarto de hora sem descanso. O sol alto teimava em fazer a paisagem tremeluzir. Antes os olhos de quem as contemplasse, pareceriam miragens, imagens de um sonho. Dafni mal conseguia respirar, molhada de suor; seus pés, doíam, bem como seu rosto que inchara bastante devido às pancadas de Cânace. Deméter andava com ligeireza bem à frente dela e de Pluto que, embora andasse a passos curtos, parecia fazê-lo somente para acompanhar Dafni, o que a irritava profundamente. Quem pensava ser ele? Aquele verme sorrateiro, cego como um morcego, queria ser sua mão guia. Era muito atrevido. Quanta audácia achar que ela, Dafni, não poderia se virar sozinha; pois, em, breve, ele saberia do que ela era capaz. Pluto virou-se na direção de Dafni e, como a responder seus pensamentos, mostrou aqueles horríveis dentes pontiagudos sorrindo divertido. Dafni, raivosa, espremeu os lábios, levando as mãos ao chapéu muito grande para sua cabeça, e segurou com toda a força alçando vôo na tentativa de ultrapassar Pluto e alcançar Deméter. Marchando ruidosa, seus pequenos pés levantavam poeira ao alcançar a avó que, mesmo sem voltar-se um só instante para trás, estava com riso de quem tudo observa, e divertiu-se com o gênio tempestivo da menina.

– Então, Pluto lhe agrada ao ponto de deixá-la fora de controle? Cuide-se, Dafni! Pode apaixonar-se pelo meu pequeno príncipe.

– Vovó! Sei que pode ofender-se com minhas palavras, mesmo assim as direi. Pluto é estranho, insuportável, arrogante e, além de tudo, ainda é muito feio.

Deméter virou-se com um ar preocupado para a neta. Percebia seus olhos esfogueados, a face rubra e os lábios pressionados pela raiva.

– Como pôde em tão pouco tempo? Pluto já roubou-lhe o coração. Quando se ama muito jovem e com tanta intensidade, jamais se esquece esse amor. Que Afrodite a encante junto a Pluto; caso contrário tenho pena de meu menino. Você não parece o tipo de mulher que desiste fácil quando deseja alguma coisa. Temo que se ele não a amar por bem, vai ter que se acostumar a ser amado por você, sem reclamar. Dafni perdeu completamente o controle qual uma garotinha mimada. Encarou a avó furiosa e soltou um grito sonoro prolongado, ao mesmo tempo que mantinha os olhos fechados, os punhos travados e jeito de um pequeno lobo prestes a atacar sua presa.

– Eu o odeio! Eu odeio esse morcego, essa criatura horrenda! Gostaria que não existisse. Ao terminar seu desabafo, correu, entre lágrimas, pela vegetação rasteira e escassa. Deméter ria abundante da reação da pequena, quando Pluto a alcançou. A mãe, abaixando-se, afagou os cabelos do menino e, com a voz permeada pelo riso, tentava concluir sua frase:

– De certo, Pluto, sua presença a atormenta bem mais que os bofetões de Cânace. O garoto sorriu à mãe que complementou:

– Ah! Então, também foste dela? Vejo que terei muitos problemas nesse embate amoroso. Segurando as mãos do garoto seguiram em frente, ainda, com as faces iluminadas pelo riso prazeroso. Avistaram as primeiras árvores que anunciavam estar o campo perto. A vegetação abundava naquela parte e o verde das colinas amenizavam o calor. O campo, onde Deméter trabalhava, ficava além do frescor das árvores e da proteção das asas das colinas, ao lado dos pântanos, onde donatários descobriram a forma de aterrá-lo e fazer dele terra produtiva; para tanto utilizavam-se os serviços dos aldeões que mais necessitavam, dando-lhes, no final do plantio, algumas moedas de prata, algodão cru para fazerem suas roupas e pequenos apetrechos necessários à sobrevivência. Na colheita, davam-lhe cerca de dez por cento do trigo colhido e com isso passavam até a próxima colheita. Havia famílias que lucravam com esse sistema, pois possuíam muitos filhos crescidos e prontos para o trabalho; e, tendo a sorte de ser vassalo de um bom suserano que permitisse os filhos trabalharem, junto com os pais, era compensador. No caso de Deméter, seu trabalho era sacrificado, mas rendendo-lhe o bastante para sobreviver. Não podia contar com a ajuda dos filhos no campo, pois seu proprietário julgava darem azar no plantio sendo assim, com grande habilidade nutria a todos sem deixar nunca faltar o básico. Avistando a entrada para seu campo, que era demarcada por duas pedras pontiagudas em forma de portal, Deméter falou a Pluto que enchesse o cantil de água e pegasse a sacola, feita à mão com tecido de algodão, na qual havia pão e algumas tâmaras, e voltasse à procura de Dafni.

O menino obediente, cerrando o cantil, ao mesmo tempo que pendurava a alça da sacola nos ombros, sorriu e beijou a mãe.

– Pluto, deixe bem claro a Dafni que não deve passar os limites da pedra, pois, o senhorinho pode aparecer de repente e isso causará muitos problemas. E, Pluto, não a deixe muito furiosa, está bem! Ela já se cansou muito por hoje. Pluto saiu a passos seguros, indo direto ao encontro de Dafni. A menina estava sentada em uma pedra à beira de um pequeno riacho coberto por árvores pequenas e frondosas; o início do riacho era límpido e calmo dando para avistar a areia branca do fundo raso; alguns poucos metros, à frente suas águas tornavam-se violentas, e ao limpidez inicial tornava-se turbulência e perigo.

Dafni absorta na paisagem não percebeu Pluto atrás de si. Diga-se, porém, que Pluto caminhava suave como animal traiçoeiro, só notado por sua vítima quando estava prestes a ser abatida. Dafni estremeceu pelo susto ao deparar o pequeno ser cadavérico às suas costas. Num gesto desolado, deixou-se cair levemente na pedra e deitada, puxou o chapéu sobre o rosto, ignorando a presença do menino. Pluto retirou a alça da sacola que trazia nos ombros e abandonou-a junto ao cantil no encosto de uma árvore; sentou ao lado da pedra onde estava Dafni e lá ficou esperando a boa vontade da menina. Após um longo silêncio cortado somente pelo canto dos pássaros, Dafni resolveu mover-se; sentou-se e ficou a olhar o riacho, pensativa, enquanto remexia o chapéu de palha em círculos.

– E um lugar muito bonito esse! Falava sem voltar-se para Pluto. O rio é calmo e raso no começo, tão limpo e convidativo; tenho vontade de nele banhar-me. Levantou-se deixando o chapéu sobre a pedra. Prestes a lançar-se nas águas do riacho, estava feliz pela idéia de poder sentir a água fresca em seu corpo após a cansativa caminhada. Tirou os sapatos e, quando se preparava para entrar na água, as mão de Pluto a impediram com violência. Dafni horrorizada sentiu as garras cadavéricas a pressionar seu antebraço.

– Largue-me, idiota! Como se atreve! Olhou as órbitas sem vida do garoto sentindo uma aflição por detrás daquela cortina branca, uma preocupação velada que o garoto tentava desesperadamente passar.

– O que está havendo, Pluto? Não se preocupe! Não passarei a parte brava do rio. Pluto apertava mais o braço de Dafni e num gesto de desespero, remexia os lábios sem som e seu rosto mostrava pavor, quando a puxou até um galho fino de árvore que se estendia prestativo sobre seus pés. Sem largá-la um minuto, levou-a até as margens do pacífico riacho e mergulhou o galho em suas águas límpidas até alcançar a areia do fundo. Dafni empalideceu ao ver o galho ser subitamente tragado pelo fundo do rio. Impiedosa a areia engoliu, veloz, e de mansa e pálida tornou-se um redemoinho voraz. Nenhuma criatura que ali pisasse, teria a mínima chance de ver a luz do sol novamente. Apavorada com o que seus olhos acabavam de contemplar, disse num fio de voz:

– Mas, maaas… Ele parecia tão inofensivo, tão tranqüilo! Como pude me enganar?

Pluto, com os dedos, começou a escrever na terra, na escrita que só os sacerdotes conheciam. Dafni aprendera sua leitura com o velho da batina e, após um curto espaço de tempo, a menina leu a mensagem.

A natureza é como o coração do homem. Nunca é o que aparenta ser; por vezes traiçoeira nos leva ao abismo da morte; outras, à fonte da vida. Os olhos da carne vêem só o aparente; como a natureza, o homem só mostra de si aquilo que quer que seja visto. Uma mesmo homem pode parecer bom a você e mau a seu vizinho mais próximo; tudo depende das intenções de tal homem. O ser humano é um enigma, seu coração um labirinto em que nem mesmo seu dono encontra a saída. A totalidade suprema do bem e do mal são segredos que o homem, em sua corporeidade desconhece. Ninguém é totalmente bom, ninguém é totalmente mau. A vida é tempestiva e inconstante; num minuto somos anjo, no seguinte demônios. Entender um único homem em sua amplitude, seria entender todo o universo e seus mistérios de uma só vez. O rio em sua aparência era calmo e seguro; porém, em sua essência, era um monstro voraz. Nunca julgue um homem pela capa que veste, pois, por trás das vestes de um moribundo, pode esconder-se um deus audacioso e em pleno vigor. Dafni terminou a leitura permanecendo calada por algum tempo; levantou os joelhos do solo e, com voz tirilitante, perguntou onde Pluto havia escondido a comida. Foi numa atmosfera despreocupada e agradável que passaram o restante do dia. Dafni falava todo o tempo de futilidades; e Pluto não escondeu seus dentinhos de roedor um só instante. A tarde caiu serena; o céu cobriu-se com vestes alaranjadas, e o sol mostrava-se por inteiro calmo, prestes a deitar-se nos braços da noite.

Deméter achou os dois garotos estirados sobre a relva verde, Dafni apoiava a cabeça no ombro de Pluto, embora estivesse na posição inversa do mesmo, e dormia tranqüila e profundamente, assim como Pluto. Deméter ficou por instantes a admirar a magia daquele quadro para a seguir despertá-los com passos pesados, como se acabava de chegar. Os dois abriram os olhos lentamente, como se desejassem nunca mais acordar. Deméter fingiu, com rispidez, tentar apressá-los.

– Vamos! Tenho pressa! Não ficarei a esperá-los por toda noite! Temos longa caminhada a nossa frente. E partiu célere em meio as árvores, fazendo Dafni e Pluto correrem atrás, cabendo a Pluto segurar, desajeitado, a sacola, o cantil e o chapéu da Dafni.

Chegaram a casa banhados pela luz cândida da lua. Ainda distante da porta, via-se o tremeluzir das chamas da lamparina, formando espectros sobre o chão branco do terreiro limpo. No ar, o cheiro de carne assada, roçava as narinas dos famintos recém-chegados. Deméter entrou na casa, imediatamente acolhida com calor por todos, inclusive Cânace. Faziam uma algazarra estonteante. Queriam contar seu dia em uma só voz; Deméter, divertida, ouvia todos respondendo com igual zelo desde interpelações mais sérias às simples provocações de um irmão com a outro. O jantar transcorreu nesse clima divertido. Nele dançou e cantou; todos riram e aplaudiram entusiasticamente os passos de gazela do garoto. Foi quando Mélia com um bater de mãos, como quem lembra um fato imprescindível, em voz hilariante dirigiu-se à mãe:

– Mãe? O que são esses baús? – perguntava apontando para os suntuosos e calados objetos, esquecidos em fila no canto da sala.

– Bem lembrado, Mélia! Esquece-me por completo, de abrir os presentes do pai de Dafni.

– Deixe-me abrí-los, mãe? Onde estão as chaves? – perguntou Mélia com as mãos abertas paradas no ar.

– E claro que tenho as chaves; mas não será você a felizarda a abrí-los, respondeu à filha, dando-lhe um tapinha na mão estendida à espera das chaves.

– Abra-os gritou. Cânace, eufórica!

– Está bem! – respondeu, levantando a mão num sinal de calma, que fez todos silenciarem. Caminharam até o canto onde estavam os baús, e Deméter, tirando as chaves do bolso, começou a experimentá-las uma após outra; achando a do primeiro baú, perto da porta, deixou-a no cadeado e, assim, procedeu com os outros nove, ainda, por abrir. Ao terminar a distribuição das chaves, olhava, excitada, e hesitante as fechaduras com feição de quem não sabe o que vai encontrar. Enfim decidindo-se tornou, em passos lentos, ao primeiro baú; agachada, levou as mãos trêmulas ao cadeado e, imobilizada nessa posição, hesitou amedrontada.

– Abra! Vamos, mamãe! O que está esperando? Abra! – gritavam todos em coro.

Deméter girou a pequena chave lentamente; retirou o cadeado, que obediente não ofereceu resistência.

Levantou a tampa e um rangido desagradável agrediu o silêncio do recinto; ao ver, à luz, o que guardava cuidadoso em seu âmago, Deméter não acreditava em seus olhos. Levou as mãos à boca, soltou uma expressão de alegria frenética.

– Aaiii! Hã! Não posso acreditar! E mesmo verdade? Correu os olhos na direção dos filhos como a pedir que confirmassem se era verdade o que os olhos viam. Todos, pasmos, mostravam a mesma expressão de espanto incrédulo do rosto da mãe.

Embevecida de prazer. Deméter correu a abrir com sofreguidão baú após baú, sustando a respiração. Parecia agir em transe hipnótico. Gritava a cada chave que cedia ordens de seu punho veloz. Quando todos estavam abertos, parou resfolegante no meio dos dez baús, como o sol ao meio-dia. Aquecia com seu olhar os objetos reluzentes. Num espasmo conjunto, todos os dez filhos, à sua volta, pulava, berrando como animais selvagens. Cada baú estava repleto de pedras preciosas: rubis, safiras, esmeraldas, pedras de ouro negro, pérolas, cravejos rosados, mançans, sangrons. As três últimas só eram encontradas nos tesouros secretos dos grandes reis das terras baixas.

Deméter gritava sem parar. Compraremos o mundo; somos donos da terra. Os filhos a abraçavam fazendo planos mesquinhos, procurando relíquias para comprar com toda aquela riqueza. Dafni, entre a confusão, foi até a rede encontrando seu lenço. Estava a observar a cena de costas para a escada, quando sentiu o gelo da presença horripilante de Pluto, numa ameaça muda. Virou-se para encará-lo; seus olhos eram duas chamas ardentes e seus dentes pontiagudos abriram-se num sinal de raiva, que atingiu diretamente a alma da Dafni como uma flecha afiada. Ela gemeu de dor; segurou seu lenço entre os dedos com muita força, recompondo-se de golpe inesperado. Pluto voltou lentamente a cabeça para a família, virou-se novamente com ar soturno para a menina. Dafni, porém, dessa vez não teve medo, enfrentando seu olhar. Sorriu diabolicamente; abriu o pequeno lenço negro e estendeu-o em frente ao rosto de Pluto, queimando-lhe a alma com as chamas de um fogo que ao menino pareceu eterno. Dafni via Pluto contorcendo-se de dor, ouvindo seus gritos mudos aos ouvidos, regogizando-se em seu sofrimento. Aos olhos carnais, Pluto permanecia imóvel; porém sua alma gritava para que Dafni parasse:

– Por favor, Dafni! Pareee! – rugia a alma do menino em seu suplício.

– Foi você quem começou! Gostaria de manter seu espírito a arder pela eternidade, mas não o farei; porém um gesto de traição e jogá-lo-ei na mais completa escuridão.

– Farei tudo que desejar, prometo! Pluto era agora seu humilde servo e Dafni resolveu poupá-lo. Retirou o lenço do rosto de Pluto, guardando-o no bolso de sua anágua comprida. Agora ela e Pluto tinham um pacto. Sentaram-se no chão lado a lado, pernas cruzadas, observavam calmamente alegria dos diamantes e o triunfo do ouro sobre os homens. Eram seres humanos no auge de uma felicidade feita por pedras.

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