Além do Olhar – Capítulo IX

Além do Olhar – Capítulo IX
Psic. Odegine Graça

A floresta traz em si a essência da vida. As árvores gigantescas, austeras, tinham o poder da longevidade; pareciam ignorar qualquer minúscula forma humana abaixo delas. Os raios da lua fugiam tímidos entre suas folhas, infiltrando a luz pouca, num desafio às forças do sol, da lua; as árvores uniam-se soberanas, suas copas abraçavam-se numa rigidez apertada, dificultando os raios de luz invadirem seu âmago. A falta de luz fazia o chão úmido, coberto de húmus, liguento e escorregadio.

O ar gélido era igualmente úmido. Perséfone andava passos lentos, de quem não tem pressa de chegar por não ter onde chegar. Há duas luas, caminhava em direção ao infinito… Ousava, de quando em vez, levantar os olhos, avistando somente árvores velhas e novas, e um caminho a seus olhos sempre igual. Por momentos pensava não ter saído do lugar, mas seu corpo agastado negava a idéia.

Estava só, aterrorizada com a companhia de si mesma; naquele enorme vazio de seres humanos, era obrigada à própria presença. Já, sentiu, sem dúvida, a dor mórbida que enregela o coração, o medo de estar só consigo mesma; mas sempre havia muito o que fazer; pouco tempo restava para pensar. Rodeada por seus irmãos, que exigiam muito tempo e atenção, a imagem que tinha de si, era a que seus pais e irmãos refletiam nos olhos.

Agora ali estava, dentro do desconhecido; não sabia o que fazer ou onde ir. Só tinha a si mesma; ninguém para dizer o que fazer, e isso era realmente assustador. Estava nos amplexos da floresta, carregada de vida, e sentia na espinha um arrepio de morte.

A névoa envolvia as árvores, mergulhando aquele pedaço de mundo num espaço sem tempo; não tinha como protelar, entre a bruma densa e os perigos, de se ver; abrir as portas que separavam seu ser, o medo, o desconhecido (…), seus pés inseguros, não tinham chão certo. Quase sem perceber, enveredava floresta adentro, entrando num mundo de sombras misteriosas. Adentrava dentro de si mesma e para vencer a floresta, precisava primeiro conhecer seu íntimo, transcender seu ser, conhecer seus medos para vencê-lo, ver seus limites, travar luta violenta contra tudo o que a impedia de seguir em frente. Sairia dessa batalha não como figura pacífica; seria guerreira, dona do conhecimento imprescindível, dos mistérios que envolvem a natureza, a vida, a morte, e seu verdadeiro sentido. Seguiria sua estrada, construindo uma fortaleza, tornar-se-ia imperscrutável, capaz de controlar seus instintos, despertar seu mais alto grau de consciência, da imanência à transcendência; passaria pelo fogo primeiro e, se preciso fosse, enfrentaria a morte para descobrir o verdadeiro sentido da vida.

Mergulhada em seus pensamentos, seus pés vacilaram, escorregou num galho podre. Perséfone caiu sem resistência sobe o lodo e o húmus. O chão vacilava, seu corpo cedeu à imobilidade. Valeria o esforço penoso? Tão longa jornada, sem saber onde chegar!

O sol mostrava seus raios espaçados, entrando onde lhe era permitido. Por vezes, arrombava uma ou outra folha da copa de uma árvore, invadindo com seu calor aquele útero frio e escuro.

Perséfone havia adormecido profundamente. Acordou, mas não abriu os olhos. Repetia a si mesma que, quando o fizesse, ver-se-ia em casa e riria muito do terrível pesadelo. Teimou, durante horas, contra o evidente. Agia deliberadamente, de má fé consigo, preferindo os olhos fechados e a estaticidade, a abrí-los e lutar para sair de onde estava. Divagava conjecturas a despeito da ação. Poderia morrer ali mesmo, sem nada sofrer; bastaria manter as pálpebras coladas. Deixar o tempo correr seus dias, corroer seus ossos. Se optasse por abrí-los, enfrentaria uma jornada desconhecida, correria riscos, talvez tivesse morte mais horrível. Pensava: agindo ou não, isso acaso faria diferença? Todos os caminhos do homem não o levam a um só lugar? Morrerei eu andando ou parada, isto é certo. Se ficar no reino da estaticidade, fugirei do mundo nesse canto, parada e sem incômodos; estarei protegida de todos, e, quanto às minhas dúvidas, eu não farei conta delas. Então, uma voz conhecida sussurrou:

— Não fará conta? Pode agüentar a fome e o frio, mas, quando o sangue parar de correr em suas veias, irá até o tártaro profundo com seus próprios pés? Como suportará sua presença a falar-lhe de sua covardia até sua morte? Sim! – pensou ela, subitamente, por um fio de consciência. E quanto à minha própria presença? Posso fugir de todos, mas nunca de mim mesma; não existe abrigo no céu ou na terra que me esconda do meu próprio eu. Porém, quem sou eu? Ou o que sou eu?

Tenho medo de abrir os olhos, de me ver além desse invólucro de carne. Aos poucos, Perséfone sentia-se cair num abismo profundo, num poço lodoso; permanecia em seu desespero de olhos cerrados, teimando contra toda a lógica. Imóvel, deixava embalar-se prematuramente nos braços da morte enlaçada pela inação, pela falta de vontade, pelo medo de lutar, de despertar; esse acordar que faz, muitas vezes, o pensar penoso, pesaroso, pois nesse ponto de mutação, todos os prismas de nossa vida mudam repentina e totalmente, e o que era real, há pouco, parece-nos um sonho, uma ilusão profunda, na qual nos confundimos, perdendo um precioso tempo com coisa tão insignificante, tão óbvia, pois as verdades mais profundas estão nas coisas mais singelas; e percebemos, num refrão de lucidez, o quanto fizemos parábolas para dizer um simples não ou um sim; gastamos energia por caminhos obscuros, mirabolando mil dificuldades, enquanto a verdade lúdica estava o tempo todo ali, tão perto, dentro de nossa própria consciência. Como pode? Perdemo-nos em abstrações errôneas de que a morte é certa, a imanência sábia. Assim optamos pelo canibalismo de nossa própria existência, deixando a morte reinar soberana dentro de corpos que andam, comem e respiram; fala, mas nada expressam, pois suas palavras estão cheias de necrofilia e descrença. Corpos vivos sustentados pelo esteio da morte nada valem, pois acham seu único valor em si mesmos ou seja, sua existência resume-se em seu invólucro; vivem para satisfazer os desejos da carne como se nada mais existisse além de seus instintos animalescos; morrem, assim, duzentas vezes em forma de macaco, para acordar algum dia com uma similitude de homem.

Perséfone sentiu de súbito o impacto da queda violenta, obrigando-a quase que por instinto a abrir os olhos. Estava num poço lodoso, estreito e abafado; ao tentar mover-se, caiu; seu corpo enterrou-se na lama preta que a cerceava por completo, começando pouco a pouco a cobrí-la; sentiu-se tão pesada que, a cada movimento tentado, seus braços e pernas aumentavam enormemente de peso; todo o peso da gravidade da terra estava sobre seu corpo imerso. Incrustada no solo lodoso, seus membros tinham criado raízes como uma planta, cuja semente é jogada em solo fértil; sentia-se como aquele lodo imundo, fazendo parte daquele buraco escuro. Não! Aquilo não era possível; não era ela. Seu ser não pertencia aquele lugar; precisava lutar, abrir os olhos. Não! Definitivamente, não! Chegou até ali; não desistiria; não acabaria sua existência num charco nauseabundo, com cheiro de defecação. Morreria um dia, mas não ali; não como algo que não era. Lutaria pela sua identidade; certamente não tombaria no meio do caminho. Entre gemido e sangue, movia-se, numa tentativa desesperada para erguer-se. O tempo desaparecera naquela luta; percebeu, então, que não havia cronômetro ou qualquer convenção humana; nenhuma ajuda externa lhe sobreviria. Era uma batalha sem regras; ali tudo valia. A angústia, a solidão escura, faziam-na desfalecer muitas vezes; ao acordar começava nova luta. Até que um dia conseguiu, enfim, mexer os braços; violentamente arrancou-se do lodo e ergueu-os como sinal da sua primeira vitória.

Seus demais membros permaneciam no charco. A respiração começava a faltar, o lodo adentrava suas narinas. Seus braços sentiam o ar; estavam livres. Mas qual era sua possibilidade de liberdade completa? Não encontrava, com efeito, nada em que pudesse se apoiar. Precisava que alguém a puxasse lodo afora. Pensou com rancor: — de que me servem braços livres, se não tenho onde apoiá-los? Acaso as mãos não foram feitas para segurar e os braços para sustentá-las? Mas quem me sustentará? Quem me arrancará de minhas raízes?

Freneticamente começou a abanar os braços; pareciam eles uma planta exótica em meio a um lamaçal açoitada pelo vento.

Não desistirei mesmo que minha única ação consista em abanar os braços até o último sopro de vida a esvair-se de meu ser. Aqui nas entranhas da terra, sufocada pela minha consciência mediata, não cessarei minha procura. Quero a verdade de mim mesma; uma vez nasci das trevas do útero de minha mãe, tornei-me carne e sangue, passei pela fenda apertada do canal da vida, deslizei para a luz do mundo visível, para a vida mediata e em meu primeiro suspiro, suguei a morte. Hoje adentro em minhas entranhas, gerarei meu espírito, não nascendo mulher; conhecerei um outro nascimento, o do espírito, nascido para viver.

Luto contra o charco corruptível, as bolotas que me lançam como verdade. Quero pérolas, não bolotas para porcos! Quero a verdade! Não aguardarei pela salvação de outrem; não esperarei calada em meio a esse lodo, como feto sufocado pela falta de água vital. Perséfone abanava os braços com toda a força de sua alma. Quando esses arrefeciam diante do enorme esforço, ela os levantava, embalando-os em movimento de angústia furiosa, tentando agarrar a vida que lhe escapava.

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