Além do Olhar – Capítulo VIII

Além do Olhar – Capítulo VIII
Psic. Odegine Graça

Perséfone, confusa, procurava os olhos da mãe.

— Mãe! O que ouve na colina.

Deméter respondeu com tranqüila evasiva:

— Ora, minha filha! Em Trulles tudo, pode acontecer; essa é uma terra estranha, esquecida há muito pelos povos de além-mar.

Perséfone, exasperada, pensou que havia outros povos envolvidos com o fato ali acontecido! Era uma resposta vazia, sem qualquer significado. Em seu coração uma tempestade de dúvidas soprava, devastando todo seu ser. Perguntava num martírio que as palavras não podiam exprimir. O que seria ela? Que tipo de criatura faria o que ela fez? Indagou a mãe com voz áspera, num desafio inconsciente, notado por ela só no brusco ressoar das palavras:

— Mãe! Por favor! O que aconteceu na colina é devido ao sangue que escorreu do meu corpo? Morrerei a sangrar e todos comigo? O que foi aquela fúria? Como posso eu, menina, ter em mim a força dos titãs? O poder de muitos deuses uniu-se em mim; tornei-me dona dos ventos, das águas; controlei céus e terra. Fiz-me senhora de mistérios, que não me é lícito conhecer. Desejei a morte de meu pai, de outros que zombavam, de mim; meus desejos eram satisfeitos; bastava erguer o dedo e tudo se movia conforme meus pensamentos. Estava embriagada de poder; não pude controlar-me. Tinha o poder nas mãos e podia, segundo minha vontade, destruir a existência dos que pesava a minha.

— O que sou eu mãe?

— Um ser humano vítima de seus desejos insanos. Não sabe controlar seu ódio. Nunca mais abra sua mente como fez hoje!

— Como não o faria? Nem mesmo sabia que podia fazê-lo. Tenho dezesseis anos; sou sua filha única com diferença de idade. Vivo sozinha. Queria que tivesse um coração puro vivendo alimentada por seu ódio? Quando tenho sede, peço a meu pai água e recebo chibatadas; posso conservar-me limpa, vestida de branco mas me jogam lama. Não tenho direito a banhar-me? — responde Deméter ― Você, mãe, dá vida à terra; os frutos plantados por sua mão são os de melhor sabor e agradam as vistas; louvam-na as mulheres do clã pela fertilidade do seu ventre. Como pode, então, um fruto de seu ventre, regado por suas mãos, ser ruim?

Deméter, acuada pela veracidade dos fatos, exasperou-se, pois qualquer refutação seria inútil, visto palavras não poderem acobertar fatos tão evidentes. Como podia aquela menina, desconhecendo todos os mistérios, falar tão sabiamente. A verdade simples desvelava o rosto de Deméter; sentia-se varrida de argumentos. Seca, como árvores após o inverno, era terra salgada que nada mais produzia. Tornou-se estéril; nem gado defecaria em seus limites. Contemplou o ventre volumoso. Sabia se era essa a última vez que geraria? Semente nenhuma floresceria jamais seu ventre.

Aquele pequeno ser era seu último fruto. Habitava seu ventre, seu único e verdadeiro amor. Sentia-se feliz por Meléagro ter apagado como um tição por baldes de água. Podia amar tranqüila o pequeno fruto de Iáson, o belo jovem que caminhou por todo o mundo, descansando em seu colo.

Fugiu do presente vendo o dia em que encontrara seu amado. Trabalhava na seara e, há pouco tempo, parira o último filho de seu marido, quando seus olhos o viram pela primeira e última vez. Ouviu o ressoar de sua voz, doce e forte. Nunca esqueceria o ardor de seu peito ante seu visitante. Seus lábios proferiram sons amáveis ao saudá-la:

— Salve, augusta, deusa esplêndida das searas! Concede graça de sua presença a este seu servo sedento, que, há muito vaga por áridas terras, com corpo cansado da luta, a alma triste de tanta desgraça avistada! Permita a esse errante repousar por um instante que seja ao lado de tão divina beleza! Sua presença seria capaz de satisfazer a todos os mortais; mesmo os que vivem no profundo tártaro se iluminariam ante seu olhar.

— Seja bem-vindo estranho! Apeie do seu cavalo! Dê-lhe de beber no riacho! Tire-lhe os arreios e deixe que paste no gramado de minha terra! Descanse seu corpo! Não sobre carregue seu espírito, pois em minhas searas está protegido, seguro como no ventre de sua mãe. Coma do meu Pão e beba do meu vinho! Durma sobre minha palha!

— Poderei retribuir seu gesto?

— Em meu coração fui uma deusa; seus lábios acalentam minha alma com palavras doces, despertando, nessa camponesa, a beleza de uma deusa, o ardor de uma mulher.

Você tem o dom de nutrir homens, animais e plantas, com seu seio prolífico! Você é o começo e o fim da existência dos homens.

— Como lhe chamam, galante desconhecido?

— Iáson.

— E você ó divina?

— Deméter.

Após ter alimentado o corpo faminto, Iáson tirou de sua bolsa de viagem uma jóia verde-mar, brilhante; à medida em que a mexia, a pedra tornava-se mais clara mudando, de quando em quando, sua tonalidade para um verde mais claro ou escuro. Seu brilho era tanto que chegava a ofuscar a vista.

— Essa é a pedra do templo de Tristão. Enquanto a tiver em meu poder, minha vida está assegurada.

Tristão salvou-me a vida, quando um barco saxão, no qual navegava, perdeu-se em um nevoeiro. Já havíamos saído muito da rota e, após dias de escuridão, sentimo-nos totalmente perdidos. O nevoeiro por fim dissipou-se, e, após uns dias de calmaria, o mar tornou-se revolto. O barco foi envolvido por um tornado que o destroçou em minutos.

Estávamos à mercê do mar, subjugados por sua força. Homem algum poderia vir ao nosso socorro. Certamente o medo da escuridão e da morte, medo milenar na alma humana, fez-se presente, emergindo do âmago de nosso ser. O mar furioso rugia; tragava homens de forma impiedosa e voraz, outros eram atirados contra rochedos sem nome, na terra do nada.

Debatia-me furioso por entre as ondas e, quando pensava ter chegado ao fim, vi uma figura sobre-humana, meio-homem e meio peixe. No início pensei ser minha imaginação de moribundo; mas logo vi claramente ser um semideus marinho. Clamei por misericórdia à criatura de quem não sabia o nome; nunca vira algo que a ela se assemelhasse. Ouvindo minhas súplicas, fez bramir uma concha em forma de trompa que trazia com ele. O som, saído do instrumento, apaziguou a tempestade. O vento acalmou aos poucos sua fúria, desaparecendo. Uma brisa suave tomou seu lugar. O mar revolto era agora um lago manso, lânguido.

Cessou a música. O estranho acolheu-me por suas costas escorregadias. Seu tronco era de um homem e o resto do seu corpo era peixe. Levou-me para uma gruta, situada meio mar meio terra, por inteira cravejada de pedras azuis, amarelas, verdes e muitas outras de cores diversas, a luz, invadindo a caverna, batia nas pedras, iluminando todo o ambiente; a sensação era de estar dentro de um arco-íris. A gruta era repleta de magia, cores e luz. O som ouvido era doce reconfortante como canto de sereias. Maravilhado, diante daquele fulgor, em pé no mesmo lugar onde havia sido posto, permanecia estático.

O fantástico ser sentara-se em uma cadeira, com formato do seu corpo, feita em pedra de azul-violeta. O lugar estava cheio de água borbulhante e vaporosa. Descansava tranqüilo em seu trono, sem largar seu instrumento apaziguador. Olhou-me ternamente; seus olhos eram verdes como o mar, transmitindo uma paz extasiante. Meu corpo e mente estavam confusos, como se houvesse ingerido demasiada quantidade de vinho, misturado a ervas alucinógenas. Esforçei-me para falar, gaguejar um agradecimento, apresentar-me, saber quem era esse que devolvera a vida dada a mim por minha mãe e que o mar tentara roubar. Nem um som saiu de minha boca; percebi que, mesmo assim, ouvia respostas às minhas perguntas.

— Sou filho de Posseidon, deus do mar, e Anfitrite uma mortal. Deram-me o nome de Tritão. Cuido dessa parte do oceano, tarefa a mim designada por meu pai. Esse, proveu-me dessa concha em forma de trompa para aclamar a tempestade e anunciar sua chegada. Como vê, sou meio homem meio peixe. Vivo entre o mar e a terra; não pertenço nem aos homens nem aos deuses. Por vezes, angustio-me por minha sina: não pertencer nem ao divino nem ao mortal. Carrego meu destino como peso. Como atlas sustenta a terra, cansado. Procuro resignar-me cumprindo fielmente os encargos que me foram dados.

Salvei sua vida para ter um pouco de companhia; a presença de um ser de uma espécie pura. Assim poderei ter prazer em olhar um corpo sem duplicidade, e, em breves momentos, poderei ser você ao contemplá-lo, quebrar a solidão dos meus dias, imaginar-me a cavalgar por terras verdes, escalar montanhas, correr pelos campos com minhas pernas, sem conhecer os limites de não ser por completo nada; sendo assim, nunca terei a alegria de um homem, nem desfrutarei da voracidade de um deus.

Estou condenado por milhares de luas a ser Tritão, semideus e semi-homem; estou condenado a nunca ser completo; estou condenado a nunca ser.

Após esse tristonho pensamento, que sua mente transmitia a minha, passou grande tempo a contemplar-me de seu trono. Por vezes cheguei a pensar que possuí meu corpo, numa era longínqua, pois naquele instante ele me era um total desconhecido. Comecei acorrer em desabalada carreira de um lado para outro; sem qualquer controle de meus músculos ou sentidos, via-me espreitando os movimentos de meu próprio corpo, como alguém a olhar de fora de sua moradia, ladrões que entram e comem do seu Pão, bebem de seu vinho, aproveitam-se de sua mulher, de seus servos, e esse homem está sem espada e só, não podendo nada fazer contra o bando que viola sua maior preciosidade, seu lar. Forçosamente, estava ao dispor de Tritão; esse pulou com minhas pernas, gritou com minha voz, usou várias vezes meu sêmen em ninfas, sereias e outras criaturas de horrível e indescritível forma. De modo que, me tornei pai de muitos titãs; após usar meu corpo como bem quis, deixou-me a posse do que me era legítimo. Sentia-me febril, cansado; mandou que ingerisse um pouco de seu néctar. Rivigorei-me quase que de imediato.

Sentindo novamente minhas pernas e braços, todos meus músculos sobre meu controle, agradeci-lhe ter salvo minha vida e, imediatamente, perguntei como poderia voltar à terra firme. Então, Tritão arrancou da parede essa pedra, prendendo-a em uma corrente de ouro e madeira.

Disse-me ser um presente de agradecimento pelo prazer que lhe havia proporcionado através de meu corpo. Advertiu-me ser essa pedra triangular, dotada dos poderes dos três cantos sagrados do universo, e que protegeria de todo o mal, enquanto a possuísse. Deveria usá-la dignamente, pois um ato sem sabedoria poderia abrir dimensões jamais vistas por um humano. Se a fizesse presente, seria somente à mulher que geraria meu único filho, fruto de amor verdadeiro e puro. Com um gesto solene passou, a pedra a Deméter.

— Ela lhe pertence, Deméter, pois a amo antes mesmo da luz de meus olhos. Quando a vi caminhando entre o trigo como uma deusa, meu coração ardeu com a chama do amor. Só tenho sua presença material por pouco tempo; porém, augusta minha, jubilo levando minha alma com a sua além dos limites do tempo e do espaço corpóreo. Amo-a com todo o fervor de minha alma! Sempre a amarei com a fúria proferida pelo amor ao homem somente uma vez, ao lado de uma só mulher. Não me tome por um errante à busca de pueris aventuras no corpo de uma mulher qualquer. Juro meu amor por todos os deuses do Olimpo!

Deméter segurou a pedra entre os dedos; sentiu a energia viva do talismã; arrebatada por cores, ventos e fragrâncias desconhecidas, flutuava pela magia da pedra. Sentiu-se leve como se o ar não existisse e seu corpo fosse totalmente desprovido de peso. Navegou, por instantes, naquele mar desconhecido em estado de êxtase total. Esforçou-se ao máximo para voltar à realidade. Ainda inebriada, voltou-se para Iáson e, com um brilho indescritível nos olhos, falou-lhe em voz embargada de prazer:

— Acredito em suas palavras! O tempo não é digno de veracidade; seu corpo nutriu-se dos frutos de minha terra, cultivada por minhas mãos; retomou seu vigor físico e agora reclama meu amor; pede para eu carregar sua semente e gerar um filho seu. A terra o alimentou com a substância de seus três reinos; mineral, vegetal e animal. Deram-lhe a jóia da vida, quando Tritão permitiu sua saída do reino de Posseidon. Se der a mim o talismã da transmutação, engendrarei seu filho. E Iáson se perderá na noite dos tempos.

Engendre-me e se mate! Alimente-se de meu amor e se devore! Enquanto estiver em meus seios, em meu ventre, o tempo estará a devorá-lo. As eras, os séculos, os dias, as horas, os segundos nascem e morrem na ávida boca de meu ventre.

Escolha!

Iáson abraçou Deméter calorosamente. Tirou-lhe as vestes e a amou avidamente: não sentia mais o segredo que encerra a história humana entre datas de nascimento e de morte, mas “regenerada” nos ritmos perenes da vida: nascer, morrer, renascer.

A medida que seu sêmen penetrava em Deméter, a vida esvaía em fagulhas do corpo de Iáson; esse não sentia a morte, mas um sinal de esperança, uma promessa de imortalidade. Iáson deu seu último suspiro nos braços de Deméter; ela chorou sua morte e celebrou sua vida. Carregava, em seu ventre, uma continuação daquele homem. Pendurou o talismã no pescoço, enterrou Iáson e partiu. No leve toque produzido pelo movimento de seu corpo, o triângulo queimou-lhe o peito. Ouviu a voz fugidia de Iáson, como um vento suave: — zele pela segurança do triângulo; sua magia tem a força para destruição simultânea de muitos mundos. Não saia ele jamais das suas mãos! Se o perder ou o roubarem, as três dimensões se confundirão sem barreiras de tempo ou espaço. Os reinos governados pela magia da pedra são antagônicos e subsistem pela separação do espaço no mesmo instante. Três forças, três reinos, igualmente fortes; o equilíbrio não pode ser destruído. O homem não está ainda preparado; os efeitos seriam catastróficos. A você e ao nosso filho garante saúde e felicidade. Adeus, amada!

— Até breve, amado da minha alma! Até breve!…

Deméter sabia tratar-se de um menino o filho de Iáson; ele seria uma criança especial. Desde que ela preservasse em segurança o talismã. Dele, certamente, dependeria a saúde e a vida do menino; seu filho teria o nome de Pluto. O fruto de Iáson seria um deus benfazejo; percorreria toda a terra e a ampla superfície do mar. Ele concederia fortuna e longevidade a quem viesse a ele.

Impregnada de bons pensamentos, tornou a caminhar rumo a sua casa; seus passos eram firmes, passos de quem carrega um deus no ventre.

Sobressaltou-se ante o grito de Perséfone, voltando forçosamente ao presente. Não ouvia as lamúrias da filha, abrasada pelo súbito arranque do devaneio doce, esbofeteou bruscamente, o rosto da moça. O golpe violento atirou Perséfone ao chão. Segurando o rosto, os olhos amargurados, não ousara transmitir um único som. A dor ardente subia de seu peito e morria em sua garganta. Pensava de si para si. Era como estar prestes a dar a luz a um filho e alguém segurasse suas pernas, impedindo a saída do feto. Perséfone, calada, ouvia a mãe falar-lhe ódio.

— Amaldiçoada seja pela minha boca! Leva, por onde for, a maldição daquela que a gerou. Você trouxe a desgraça para todo nosso clã; foi levada a invocar os deuses do ínfero pelo ódio de sua alma. Alimentou as águas com seu primeiro sangue; correu léguas como uma égua do Olimpo; com passos de fúria desafiou seu pai; em seu trajeto de louca fúria regou a terra em que passou com o sangue primeiro do qual sairá sua geração; ofereceu sacrifício maior aos deuses, às fúrias. Bradou vingança. Os deuses de negro a ouviram; as forças da deusa-mãe incorporaram-se em você. E você? Matou, destruiu cegamente, sem sabedoria e nem piedade. Pagará com o fruto de seu ventre tamanha insanidade. Sairás hoje mesmo do teto de seu pai morto, vagando pela terra e provendo, sem a ajuda desse clã, seu sustento. Ao parir seu primeiro filho, voltará a mim, dois anos após o seu nascimento. Sangue velho por sangue novo. Restituirá a vida de meu marido com o sangue do seu filho. Nunca mais, então, pisará nessa terra ou verá seu primogênito, homem ou mulher. Uma vida por outra. Agora, destituo-a desta casta; é filha do nada e somente eu carregarei a vergonha de tê-la parido.

— Se assim deseja seu coração, assim o seja. Irei, cumprirei meu destino; em cada rio, lago ou mar pelo qual passar, lavarei minhas mãos parricidas, pedindo o perdão dos deuses, implorando perdão à grâ-sacerdotisa, pedindo que ilumine meus caminhos e me dê sabedoria.

Deméter rugiu ao ouvir pronunciar o nome da grã-sacerdotisa e, com um brilho feroz, olhou Perséfone transmitindo em suas palavras um horror sombrio que a moça não compreendeu.

— Saiba! Pode conseguir o perdão de todos os deuses. Porém, nunca o da grã-sacerdotisa; morrerá na ignorância e nenhuma fagulha de sua sabedoria lhe será dada.

Artigos Relacionados