Além do Olhar – Capítulo VII

Além do Olhar – Capítulo VII
Psic. Odegine Graça

Estou no ventre de minha mãe: sinto seus agrados. Tudo é escuro em meu corpo disforme. O caos, cego aglomerado da matéria primordial, anima-se e toma forma, torna-se um universo ordenado. Encolho-me a cada dia. Meu espaço torna-se cada vez menor; meu corpo cresce tomando forma humana; meus olhos não possuem órbitas; minhas orelhas não possuem lóbulos; minha boca ainda está fechada; meus lábios ainda não foram formados. Meu nariz está cheio de um, líquido estanho. Estou imersa em água e escuridão. Um cordão liga meu ser ao de outro, de quem dependo para viver. Sinto sua aflição, sua ansiedade. Minha mãe tem medo por mim; teme que não aspire o ar de fora de seu ventre. Por quê? Nada ouço; o que sinto são ondas de calor vindas até mim; muitas vezes reconfortantes e outras me fazem querer desistir de ver o mundo fora dos amplexos de minha mãe.

Meus olhos abrem-se, ganham vida, minha boca está formada, minhas orelhas, meus dedos, tenho forma, sou humana; estou prestes a nascer, a descer, mas não quero.

O ventre impiedoso de minha mãe expulsa-me para a vida, estou sendo empurrada; a passagem é muito pequena. Nãaooo…, estou presa! Estou preeesa!… Alguém me ajude!…, minha cabeça é puxada por mãos gélidas. Estou livre. Cortam o cordão de minha segurança, de minha proteção.

— Não! Parem! Eu…

A película de meu nariz foi perfurada. Um cheiro nauseabundo, um odor insuportável ofende minhas narinas. Grito meu primeiro vagido de vida. Grito para levarem-me desse cheiro de morte; estou só, num mundo que não conheço e que não pedi para conhecer.

Começo a ver espectros, mas não vejo formas definidas. Preciso de proteção…. Não quero ficar só. Os dias ganham mais luz. Já identifico a presença aconchegante dessa mulher que responde a meus gritos. Alimenta-me e me embala. Meu corpo cresce. Percebo o mundo a minha volta. Ouço palavras e a muitas identifico. Vejo cores e formas nitidamente. Reconheço claramente minha mãe.

— Mãe! Onde está indo? Mãe olhe para mim! Sou eu, Dafni, sua filha. Mãe!, mãaee!!.

A figura continuou seu caminho sem tomar conhecimento da presença gritante atrás de si.

— Aonde vai? Não me ouve? Dafni reteve-se subitamente; e, a cada passo que a mãe dava, mais jovem ficava. Caminhou até total transmutação: era agora uma garota que apenas lembrava os belos traços de Perséfone. Vestia-se de trapos e seus olhos denunciavam uma profunda amargura.

— Perséfone é você?

— Sim, mãe! – respondeu uma voz trêmula e insegura.

— O que espera? Vem logo! Seu pai está furioso pela sua demora.

Era Deméter, jovem, na mesma casa onde Dafni fora deixada por sua mãe. Seria aquilo possível?

Perséfone caminhou rapidamente em direção da mãe. Entrou na casa. Um velho estava sentado em um tronco, junto à entrada.

— Por que demorou tanto? Onde está meu fumo, perguntou o velho com os olhos a brilharem movidos por uma espécie de ódio, uma fúria, que fez Dafni sentir-se trêmula. Perséfone estendeu um rolo comprido de fumo em direção do pai; suas mãos fraquejaram deixando-o cair no chão antes que Maleógreno segurasse o rolo de fumo.

— Apanhe, sua besta! – esbravejou a figura horripilante.

A menina curvou-se, apanhou o fumo e deu-o ao pai, sem coragem de levantar os olhos.

— Não tem, mesmo, bons modos essa pirralha! – gritou Deméter, exibindo maior desprezo que o pai à filha. Perséfone “cegou” ante a crítica da mãe. Como poderia ela ser assim tão dura, se seus modos eram insatisfatórios? Certamente a culpa não era sua. Pensou, exasperada, em como sempre a tratavam dentro daquela maldita casa. Sendo mais velha dos onze irmãos, cabia a ela todos os encargos domésticos. Cuidava de todos aqueles fedelhos, limpava o rancho, tirava o leite, tecia e sobrava tempo para oferecer o lombo às chibatadas do velho. Odiava a cada membro daquela casta; e, por vezes, duvidava pertencer a ela. A mãe estava sempre prenha. Cada ano ouvia-se o berro de mais um pequeno, trazendo-lhe mais tarefas. A cada ano, a cada irmã ou irmão que nascia, mais crescia a revolta de Perséfone.

A mãe jamais lhe fizera um carinho; por mais que se esforçasse, sempre encontrava uma repreensão nos lábios ou nos olhos daquela mulher. Por que a odiava tanto? O que teria ela feito para merecer tamanho desprezo?

O pai agastava-a com suas grosserias e divertia-se ao açoitá-la.

Nunca tivera tempo para si; esquecia-se de sua existência como ser independente, possuidor de um corpo, de uma vida própria. Desconhecia-se totalmente, nem mesmo notava seu crescimento físico, as mudanças de seu corpo. Um dia, imersa em suas tarefas, notou em seu vestido manchas de sangue. Teria ela se machucado, sem notar? Tentou limpar-se; porém o sangue persistia. Lembrou-se, então, de conversas discretas que ouvia de sua mãe com outras camponesas sobre quando suas filhas entravam em estado interessante. O que significava estar em estado “interessante”?

Estava a lavar roupas em um pequeno riacho e, em seu estado de perturbação, tentava lavar-se desesperadamente. Não percebendo a aproximação do pai, sentiu-se surpreendida; o pânico tomou conta de seu corpo ao vê-lo entre lágrimas. Tentava desviar-se do olhar do pai, do sangue, limpar-se, precisava limpar-se. Um asco sem tamanho formigava em seu corpo. Sentia nojo daquele velho asqueroso, daquele sangue maldito que teimava em escorrer-lhe das entranhas, tonta, sem saber o que fazer, desistiu do esforço inútil e mesmo com medo, decidiu sair da água, correr do pai e procurar a mãe.

Seus pensamentos eram desprovidos de qualquer lógica. Sua mente deslizava entre idéias absurdas. Certamente havia-se ferido; não se lembrava como.

No marasmo em que estava envolvida, esqueceu-se de súbito da presença do pai e saiu a passos lentos do riacho; cabisbaixa, reconfortava-se na idéia de se ter ferido. De súbito, o velho apareceu a sua frente, como um fantasma, interditando seu caminho.

Perséfone ergue lentamente a cabeça, deparando o pai a observá-la com ar de nojo. Olhou seu vestido salpicado de sangue, bem devagar, aumentando cruelmente os minutos de sua humilhação. Por fim disse:

— Vou arranjar um homem para você, pois já pode procriar. Não desejo que saia pelos campos a deitar-se com qualquer macho como uma cadela no cio.

Apavorada, ante a idéia, Perséfone pôs-se a correr em delírio. Não conseguia associar o sangue com homens, cães, crianças. Fugia corria pelos campos sem saber para onde. O céu, as árvores, seguiam-na em seu desespero veloz. Perdeu a noção do tempo, do espaço e de tudo que era externo.

Foi sendo tomada de uma estranha força e de uma debilidade, até a total inconsciência.

Acordou. O sol esmaecido morria no horizonte; seu corpo estava gelado pelo vento da colina. Encolheu-se para proteger o corpo do frio. Onde estava? Tentou desanuviar a cabeça dolorida; a única coisa da qual lembrava eram os gritos do velho; suas palavras zuniam em seus ouvidos e um terror ecoava em sua mente.

— Volte aqui, sua imunda! Não pense que pode fugir às suas obrigações. Preciso de meus cavalos escovados! Obedeça-me! Pare ou vou açoitá-la até a morte, sua vaca! Estremeceu; não havia sonhado; olhou ao redor pensando encontrar o pai em pé a sua frente, com o chicote nas mãos, e o sorriso estampado em sua face; mas o que viu, foi o velho término, o carvalho que sempre a protegia. Ele sabia de todas as suas angústias; era seu único amigo. Desde muito, garota, era ali onde chorava; com ele desabafava, podia contar-lhe tudo; e, em silêncio, ele a compreendia e a confortava.

Num gesto desesperado, levantou-se e abraçou-o chorosa:

Meu amigo fiel, companheiro, o que farei eu? Diga-me o que fazer, por favor! Deixou as emoções fluírem, arrebentando num pranto hostil, desesperançado.

O céu tornou-se raivoso tão subitamente; explodia com seu coração; as trevas da noite tornaram-se mais densa; a escuridão trazia um vento selvagem, entoando um canto de morte em seu silvo. Relâmpagos rasgavam o Manto negro do céu. Então Perséfone já não sentia, não pensava, não sofria sozinha; seu corpo fundira-se ao de término, e sentia em sua força milenar, toda a robustez do carvalho imponente; os cabelos de término e Perséfone esvoaçavam revoltos em uma fúria sombria e conjunta.

O terror incendiou a terra, a natureza furiosa, extasiando Perséfone dando-lhe um prazer que jamais sentira. A terrificante paisagem de fúria, que a cerceava, era seu próprio ser; o raivoso grito da natureza era o lamento há muito contido em sua alma, deixando sair pela garganta da floresta seu vagido. Embriagada, desvencilhou-se de término. Abriu os braços, sentiu o vento forte percorrer todo o seu corpo e um riso iluminou seu belo rosto.

Seu brado furioso propagava-se por toda a aldeia, fez-se chamado, levando seu recado em forma de vendaval que varria toda a região, fazendo as folhas dançarem frenéticas no ar; e, a cada passo do vendaval, seus pés destruíam cabanas, celeiros, muros alcançando, enfim, os muros fortes do palácio do Duque de Queens. A construção onipotente, que até então reinava soberana há mais de cem anos, nem homem e nem vento haviam ousado desafiá-la; naquela noite, o inviolável tornava-se frágil, o forte fraco, e o ritmo da vida parecia ter mudado.

Os habitantes de Trulles ouviam um chamado bravio, um grito de mulher, mandando no vento que obedecendo, derrubava e destruía tudo a sua frente. Os muros de Queens, seus jardins, parte de sua torre, ruíram, indefesos, rasgando-se como seda fina ante a hórrida força.

Os vagidos monstruosos ecoavam por toda a aldeia, num chamado intermitente, cheio de ameaça. Pessoas corriam em desespero, sem saber por que ou para onde seus passos as levavam, naquele instante apocalíptico não se distinguia, entre a massa amedrontada de homens, plebeu no nobre, guerreiro ou escravo; era somente um amontoado de animais debatendo-se, fugindo da morte.

Entre relâmpagos e ventos, movendo-se enfeitiçados, iam em direção ao clamor desconhecido.

Todos os demônios da noite, da alma dos homens, tinham sido desacorrentados.

Ao pé da colina, como sonâmbulos, despertos, o povo viu-a; todos rodeavam a mulher-divindade a quem ninguém reconheceu. Estava ela em frente ao carvalho que, aos olhos do povo parecia ter vida, movendo-se ameaçador como um monstro das trevas. A criatura, em forma de mulher, mostrava um corpo esguio, qual estátua marmórea; os braços abertos evidenciavam a luz que saía a ponta de seus dedos longos; em seu rosto luzia um sorriso diabólico. A beleza e o fulgor de sua face maléfica destoava com o furor dos olhos azul-acinzentados, confundindo-se com o céu: um instante lindo, em outro aterrorizante, mudando de cor, tornando-se negros como as nuvens que acobertavam o firmamento, e, quando reluziam os relâmpagos, clareavam, em comunhão perfeita aqueles olhos belos e faiscantes. Os longo cabelos negros esvoaçavam revoltos por todas as direções, anunciando a negridão das noites e dos dias vindouros.

As máscaras foram tiradas; não havia um só rosto que não demonstrasse a angústia e o medo de seu coração.

Os homens-guerreiros, o Duque de Queens, foram os primeiros a dobrar seus joelhos diante do espectro pavoroso, seguidos pela multidão que dobrava-se ante a aterrorizante e desconhecida figura.

Todos os olhos contemplavam a glória do medo. Vozes elevaram-se, num clamor lúgubre, em uma oração escatológica, pedindo o fim da existência daqueles que haviam desenfreado a fúria da “augusta-deusa”, de quem ninguém sabia o nome.

— Revela seus desejos e os cumpriremos! Poupa, misericordiosa, a vida de nossos inocentes, o clamor foi elevando-se, crescendo, rompendo num brado fervoroso por misericórdia.

A natureza incorporou naquela mulher, demonstrou seus poderes na força indomável da malidicência. Do seu corpo energizado fluíam relâmpagos incendiários que destruíam rochedos e, por fim, morriam no ventre da colina. Córregos, riachos, tomavam vida própria dada pelo turbilhão de energia despejado dos dedos da fera voraz. Todos permaneciam estáticos ante aquela bela assustadora.

Um brado estrondoso rompeu das entranhas da Perséfone. Fendeu a terra, em um abismo profundo e estreito. Gritos de desespero ouviam-se de todos os lados; muitos foram, sem piedade, tragados no vórtice abismo infernal. Cada gesto das mãos ordenava a próxima vítima.

Corpos voavam do meio da multidão, erguidos por um fio de energia azulada, desprendida dos dedos de Perséfone e guiados até seu fim na fenda abissal; em um instante, que pareceu toda sua vida, Meléagro, o velho pai de Perséfone, vislumbrou entre o tumulto seu fim.

Ao reconhecer aquele demônio furioso como sendo a sua filha, humilhou-se numa súplica movida de desespero. No âmago de sua alma aterrada, suplicava pela vida.

Sentiu a energia maléfica tomando seu corpo. Subiu como uma frágil pluma pelo ar, pairando sobre a fenda. Seu olhar encontrou o de Perséfone. Teve, nesse instante, a lívida consciência de sua morte. Diferentemente dos outros, seu corpo ficou parado por muito tempo sobre a fenda do inferno, em quem Perséfone descarregou cargas elétricas sobre o homem. Seu corpo tornou-se uma tocha viva; ouviram-se gritos inumanos daquela criatura queimando. Cada partícula de Meléagro foi transformada em chama viva. Em gesto brusco, Perséfone abaixou a mão, deixando a tocha-humana cair no tártaro profundo.

O terror estampado nos rostos mortais era indescritível. Diante da cena, todos temiam seus destinos se igualarem; mas a fenda fechou, engolindo para sempre os seres oferecidos às suas sombras. Na terra, nenhum vestígio de calamidade.

Hades, das sombras profundas, admirou aquela mortal. Um passo e atingiu a esfera dos deuses; aspirou o cheiro da vida fresca: aquela feiticeira seria sua rainha.

Uma bruma densa envolveu o alto da colina. Os relâmpagos cessaram, o vento acalmou, e o céu assumiu uma tristeza chuvosa. Banhou com finas lágrimas os homens, cordeiros escapados do matadouro, que se levantavam, seguindo seu caminho, sem nada dizer, ninguém ousando olhar atrás.

Uma figura de mulher permaneceu ajoelhada, estarrecida segurando o ventre volumoso anunciando sua avançada gravidez. Levantou-se num gesto desolado, caminhando em direção do ápice da colina. Seu vestido molhado, atrapalhava seu movimento; o seu peso tornava a subida mais árdua. Caminhando sem fazer conta dos reclames de seu corpo, com o fôlego debilitado, chegou a seu destino. Ajoelhou-se, estendeu a mão a uma garotinha assustada e chorosa, abrigada aos pés de um grande carvalho.

— Dê-me sua mão! Vamos para casa!

Deméter e Perséfone, desceram a colina embaixo de um céu claro, em uma noite lindamente enfeitada de estrelas. Porém, a lua sangrava. Chegaram em casa. A paz e o silêncio reinavam soberanos; as crianças dormiam um sono profundo. O lodo de seus corpos, estendidos sobre a cama, era a única testemunha da veracidade do horror, há pouco; a lividez do rosto de cada um dizia claramente que suas orações noturnas foram atendidas e que, nessa noite, por certo eram de agradecimento à deusa—desconhecida a qual havia satisfeito seus desejos.

A terra fora regada com sangue.

Perséfone observava calada os irmãos adormecidos. Cânace, Mélias, Pélias, Toossa, Neleu dormiam na mesma cama, grudados com medo do sono separá-los. A pequena diferença de idade de um para outro, tornava seu vínculo ainda mais forte. Ali estavam, unidos, personalidades fortes e bem diversificadas. Cânace, a mais velha, dormia do lado de cima no meio de Mélias e Pélias. Na lei estabelecida por eles, dominava o primogênito, sendo o poder dado em escala hierárquica. Cânace, por ser a mais velha, ganhava o melhor lugar na cama.

Tiro, Alcione, Celeno, Bentesicime e Despoina dormiam na cama ao lado. A cama dos pais estava no centro das duas, mostrando que esses eram os deuses do lar.

Perséfone dormia no celeiro, para evitar roubos. Seu destino era mesmo irônico (…).

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