Além do Olhar – Capítulo VI

Além do Olhar – Capítulo VI

Psic. Odegine Graça

O tênue fio nos liga à vida, é fácil de romper; mas o que é viver sem arriscar a ruptura desse fino liame?

Os segredos da morte, o homem conhece na vida, quando a vive. Envolto nesse invólucro frágil de matéria está a alma infinita.

Toda a matéria está exposta à corrosão do tempo. O homem nasce, cresce e morre. Os ventos corroem a matéria de seu corpo finito. Ele encontra seu fim.

Mas o que é o fim? Somente o primeiro passo para o infinito.

“cada instante que morre, traz outro em si, já morto e morre, o olhar absorto noutro que, à frente, corre.

Quem vou sendo agora já fui noutro mundo:

Futuro, ido e presente, me defino em-outra-hora.

Aquilo que ontem fui me faz ser hoje assim

Como se move em mim o tempo azul que flui.

Lembra-me ter sido tão outro que não sou, ter

Ido onde não vou: serei o foragido?”

Celso Pedro Lima (poemas).

Dafni acordou. Uma sensação estranha tomou-a por completo. Seu corpo formigava. Por instantes pensou não poder mover um só dedo; suas vistas, ainda embaraçadas, percorreram o ambiente. Um quarto pequeno e branco, todo de pedra, uma pesada porta de ferro, sem, fechaduras, mostrava-se a sua frente. Aos poucos tomando consciência de si e do lugar. Estava deitada nua, sobre uma cama de pedra.

– Bom dia! Uma mulher surgiu ao lado de sua cama, vinda não sei de onde. Dafni olhou a porta fechada, passou os olhos pelo pequeno quarto; não havia outra entrada. A mulher riu graciosamente do intento da menina, e lendo seus pensamentos, respondeu sua pergunta em voz alta:

– Isso é algo que aprenderá; estar em vários lugares ao mesmo tempo. A imagem tremulante da mulher tocou seu corpo, irradiando calor por todas as células necrosadas.

Enquanto fazia o trabalho, a mulher sorria e falava sobre jardins e o frio que matava as flores naquela época, elevou a mão esquerda a um nível mais alto, ficando com a direita sobreposta à cabeça da menina.

– Não se assuste! Isso fará com que se sinta bem melhor.

Uma luz vermelha, semelhante a chamas fracas, fumaceava saindo da mão da desconhecida, que transmitia um calor inebriante e reavivava o corpo da pequena. Seus sentidos voltavam a ela; ouvia sons externos, os olhos desanuviavam por completo; sentiu um cheiro que pareceu mirra, vindo do corpo da mulher. Dafni moveu a língua, sentindo um gosto amargo na boca; moveu os dedos sobre sua cripta, sentindo o gelo da pedra.

– Logo alguém lhe trará sua refeição e um manto para cobrí-la.

Dito isso, a mulher desapareceu. Dafni ficou a piscadelas, achando terem seus olhos pregado uma peça de ilusionismo.

A porta abriu-se num rangido irritante. Uma moça, vestindo uma espécie de batina inteiriça com um longo capuz caído sobre as costas, feita de estopa sem tintura e, diga-se, que a vestimenta era mesmo grosseira. Na cintura uma corda amarrada. A moça, de cabelos muito curtos e pretos como seus olhos, exibia-lhe um sorriso realmente lindo; era desprovida de qualquer beleza física, de baixa estatura, corpo franzino, seu rosto tinha um aspecto meio eqüino irregular; porém, seu sorriso e aquela luz de seu rosto, a tornavam realmente bela, uma beleza que fugia a qualquer padrão da estética convencional, uma beleza vinda além do corpo.

– Eu sou Pamona! – falou fechando a porta atrás de si com os pés num gesto engraçado, fazendo Dafni cair numa gargalhada gostosa que não conseguiu reprimir.

A moça olhou para Dafni com um semblante fingidamente sério.

– Ora, mocinha! … Não ria de alguém com ambas as mãos ocupadas e que tem os pés como último meio de salvação.

Disse tais palavras com solene zombaria. E ambas gracejaram sobre a importância dos pés. Pamona aproximou-se da cama, depositou uma tigela de barro ao lado, no chão. Levantou-se e abriu a pequena túnica de uma só vez.

– Eis aqui suas vestes purpúreas, majestade! Fez uma reverência e estendeu a túnica à menina. Dafni fez uma careta de desaprovação.

– Vou ter que vestir essa roupa?

– Não! A não ser que queira vagar nua pelos corredores gélidos de Varlaan, não precisa vesti-la. Sua entonação era muito divertida.

Dafni sentou na cama sem resistência.

– Vamos Dafni! Vá com calma! Pode sentir-se um pouco tonta. A moça ajudou-a a vestir-se.

– Graças aos céus que não tem espelhos ou algo que reflita minha imagem, queixava-se a menina após ter sido vestida. Pamona, divertida, respondeu com um olhar absorto, como se refletisse algo muito sério.

– Não se preocupe! Ainda é muito jovem para se casar. Até estar na idade, quem sabe já ganhou uma nova túnica, hein?

– Ora, você não é capaz de respeitar o orgulho de uma mulher ferida! Insensível!

– Digo que continua muito bela.

– Não caçoe!

– Isso é para compensá-la. Estendeu-lhe uma tigela cheia de um caldo verde, estranho, que causou náusea ao estômago de Dafni.

– Vou ter que comer isso? Dafni deixou os ombros caírem num gesto gracioso, com ar resignado.

– Feche os olhos e verá que o gosto não é tão ruim.

– Gosto não se vê, ainda mais de olhos fechados. Sei bem quando tentam me enganar.

Pamona, sentada ao lado da menina, encheu a colher de pau com o estranho líquido. Grasnou como um abutre:

– Vai comer ou terei que lhe enfiar goela abaixo?

– Com prazer! Dafni abriu a boca e fechou os olhos. Com uma careta de quem está prestes a submeter-se a uma tortura, manteve-se firme, à espera do líquido.

– Estou pronta!

– Lá vai!

– Até que o gosto não é dos piores.

– Obrigada! Transmitirei suas palavras à cozinheira.

– Quem é?

– Eu.

– Garanto que jamais provei manjar tão saboroso.

– Não caçoe!

Riram durante muito tempo. Nesse clima de cordialidade, Dafni terminou sua refeição.

– Bem mocinha! Agora que está alimentada e vestida, vou entregá-la à gradeira. Ela vai acompanhá-la até o locutório.

Sem palavras, Dafni seguiu os passos de Pamona. Andaram em corredores sombrios, de pés descalços; o gelo das pedras atritavam com o calor dos pés da menina, fazendo-a dar pulinhos ao andar, como se estivesse caminhando sobre um braseiro.

– Chegamos, anunciou a moça, enquanto empurrava uma porta, que Dafni nem percebera devido à escuridão reinante. A porta dava para uma sala ampla, porém vazia. Era espantosa a falta de luz daquele lugar. Os olhos da menina lobrigavam com esforço espasmódico o recinto tentando acostumar-se à escuridão.

Parecia uma necrópole. Gelada e sem luz, a cidade dos mortos não devia diferenciar-se muito do lugar.

– Seu espírito ainda está cheio de sandices. Não julgue tão depressa! Isso é próprio dos estúpidos.

Um tremor ligeiro passou por todo seu corpo, quando uma voz veio do fundo da sala; era grave e em tom de censura. Céus! A mulher lera seus pensamentos.

– Sim o diálogo não se dá somente por palavras, pois estas, geralmente, distam dos verdadeiros pensamentos.

Dafni voltou-se à procura da presença reconfortante de Pamona. Até aquele dia pensava que esse tipo de comunicação somente era possível entre ela e Pluto, e guardava isso em seu coração como sendo fruto do amor de ambos, da fusão de suas almas através do profundo sentimento que os ligava. Agora ali ouvia aquela voz, vinda não sabia de onde, a dizer-lhe que podia comunicar-se com qualquer outra pessoa da mesma forma; estava assustada, queria poder achar algo de conhecido, alguma coisa de seu mundo em que pudesse apegar-se ante aquela imensidão assustadora daquele mundo desconhecido, que não sabia ser real ou um sonho; um sonho não seria a palavra adequada e sim um pesadelo. Queria acordar, precisava acordar. Aquilo não podia estar acontecendo. Não, realmente não podia, era ilógico.

As palavras ríspidas daquela voz retiravam as últimas esperanças de estar sonhando.

– Os prazeres do riso já lhe foram dados. Reconfortado está seu espírito, pronto para o próximo passo. Então, a mulher surgiu dentre a escuridão, bem a sua frente.

– Eu sou Métis. Levá-la-ei até a sacerdotisa-mãe.

De repente Dafni sentiu que as mãos da mulher seguravam as suas e ela nem mesmo percebera um único movimento se seu corpo. Seria porque estava dispersa, amedrontada?

– Não confie em seus olhos, em seus ouvidos, ou em qualquer de seus sentidos. A percepção verdadeira vai além de seus limites, e, dentro de Varlaan, eles não lhe serão de valia alguma.

Guiada pelas mãos de Métis, Dafni caminhava; um turbilhão de dúvidas invadiam sua mente. As idéias eram tão escuras quanto os corredores lucífugos pelos quais andavam.

A porta do parlatório abriu-se; mais uma sala soturna, pensou Dafni, agoniada.

– Sejam bem-vindas! Uma figura luzidia estendeu as mãos para amenina. O espírito de Dafni alegrou-se com a visão feérica. A mulher de olhos lucíferos iluminava o lugar.

– Sou Manto, a grã-sacerdotisa. Cabe a mim a tarefa de seu noviciado. A necessidade traz pensamentos errôneos; com o tempo habituar-se-á a ver, sem necessidade da luz externa.

– As sombras que tanto a apavoram agora, muito a ensinarão no futuro. A iniciação pelos caminhos dos mistérios não é agradável. Ardiloso será seu caminho e uma vez iniciada, não poderá voltar.

Agora escolhe! Dou-lhe o livre arbítrio e sua voz será minha ordem.

– Deseja voltar ao mundo, vivendo o prazer do animal feliz, ou prefere adentrar no desconhecido, à procura de respostas?

Dafni hesitou. Trêmula diante da pergunta, pensava em Pluto, em sua mãe, na avó, em todos os mistérios que envolviam sua existência. Teria que escolher. Tinha uma existência envolta em perguntas sem respostas, repleta de terror, de angústia; nunca saberia onde pisar ou o porquê das coisas serem tão diferentes em seu mundo. Mas aquele lugar sombrio, sem prazeres, seria esse o pagamento? Poderia ir embora, viver na luz dos olhos e desfrutar de seus sentidos o prazer de não ver além, ser um animal-natural, feliz em sua imanência. Se nada conhecesse, de nada poderiam acusá-la. Depois o que haveria de errado em viver como todos os demais seres humanos?

– Ouvia mais uma vez a voz de Pluto a ressoar em seus ouvidos. Quando estiver com os olhos da carne tão escuros quanto os meus, então muito entenderá.

– Fico, respondeu! Os espinhos são parte da rosa. Perco em minha escolha a felicidade insana dos animais; porém, quero saber o que há por detrás das cortinas que vedam os olhos de minha alma.

– A escolha foi feita. Íngreme será seu caminho, a recompensa nem sempre vêm com o esforço. Muitas de suas perguntas trarão, na resposta, maior angústia do que na ausência de qualquer conhecimento. Não existe outro caminho.

– Toma! Essa é a bebida ritual. E feita com água, farinha de cevada e folhas de hortelã. Ela será seu alimento durante seu caminho.

Manto ergueu a voz, pronunciando palavras incompreensíveis para Dafni; cantou canções no mesmo dialeto, e Dafni só sentiu a tristeza da melodia, parecendo um canto fúnebre. Ao terminar, ergueu uma taça de puro ouro e, com voz embargada, disse:

– O rito começou. De imediato, várias mulheres começaram a dançar em círculos; ao poucos rodearam Dafni, e seus corpos pareciam ficar, conforme o canto, mais frenéticos, remexendo-se sem lógica, em movimentos descompassados, e cantarolando sem parar. Dafni ingeriu a bebida do cálice dada por manto, e aos poucos sentiu-se levemente embriagada. Cada vez mais distante foi ouvindo o canto triste das mulheres, com palavras que seus ouvidos não entendiam, mas sua alma parecia sofrer a cada refrão. Via tudo entre névoa e tentava, a todo custo, mover-se sem conseguir. Uma das mulheres aproximou-se com uma navalha. Dafni, horrorizada, viu seus cabelos serem tosquiados, enquanto ela permanecia imóvel, incapaz de um só movimento. Viu as mechas negras de seus cabelos caírem a seus pés. Outra mulher entrou no círculo com um recipiente cheio de uma substância branca, que foi passada sobre sua cabeça. Dafni sentiu o frio da navalha em sua cabeça, subindo e descendo em movimento sincrônico ao compasso da música inteligível. Manto trouxe uma tira de pano cheia de um estranho ungüento e vedou seus olhos; com um chumaço de algodão hígido tapou seus ouvidos. Quando num último esforço Dafni tentou protestar, sentiu que a bebida tirara-lhe a voz. Inebriada com a música, sentiu-se estonteada, não querendo acreditar no que ocorria. Sentindo-se cair num vazio sem luz ou som, adormeceu.

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