Além do Olhar – Capítulo V

Além do Olhar – Capítulo V
Psic. Odegine Graça

O mês de Janus chegou. Dafni estava em pé, frente a pluto numa despedida que somente os dois partilhavam. Silenciosa dafni abraçou o garoto com um calor carinhoso.

– Estou pronta, vovó!

– Muito bem! Sabe que nada pode levar de fora para dentro do mosteiro santo. Fui informada que sua iniciação será em varlaan, no grande meteoro. Astreu a levará até o vale do penée.. No primeiro alvéolo, uma das sacerdotisas designadas pela mãe de todos, a levará até o cume do rochedo sagrado. Dafni manteve-se calada; mãos frias seguravam com força seu lenço preto. Deméter aproximou-se da neta e a beijou-a com rapidez.

– Comporte-se, menina! Saiu da sala com passos aflitos. Os demais membros da família, nenhum veio despedir-se, e dafni não sabia o porquê. Pluto, porém, continuava a seu lado, fiel e amigo. Acompanhou-a até a carruagem onde o cocheiro já a aguardava com a porta aberta.

Pluto tocou o ombro de dafni, transmitindo um calor carismático com a ponta dos dedos. Continuou a aquecê-la com toda a força energética de que dispunha sua mente. A comunicação foi clara, como se em palavras ditas em bom e alto som.

– Dafni, não tenha medo! Nem tudo o que é desconhecido, é mau. Sua alma será fortalecida. Você adentrará nos mistérios de seu ser, entenderá as dúvidas que tanto a atormentam e oprimem sua alma. O desvelar de muitos fatos estarão em breve ao alcance de sua mente. Haverá momentos, porém, em que desejará nunca ter saído de dentro das paredes deste castelo.

O caminho do conhecimento é árduo e doloroso; nem tudo o que aprenderá, fará sua alma feliz. Caminhará ao lado da angústia e do desespero. Quando chegar o dia em que a loucura for sua aliada e estiver tão cega quanto eu, verá nitidamente seu destino. Não com os olhos da carne, mas, do espírito. Leva meu calor. Minha alma estará a seu lado no momento em que mais precisar. Vá agora! Esqueça seus medos. Encare seu futuro de frente.

– Adeus, meu querido! Por onde eu for seu amor levarei em meu coração; seja qual for meu destino, minha alma estará sempre ligada à sua pelo amor incorruptível, que nem homem e nem o tempo podem destruir. Pode a solidão assombrar meus dias, mas jamais poderá levar-me sua presença.

Dafni entrou no carro, chorando a separação física e alegrando-se pela proximidade espiritual. Pela janela da carruagem, dafni via florestas e rios e colinas correndo de seus olhos. Os cavalos estavam a todo o galope; viajaram nessa intensidade todo o dia, sem nenhuma parada. O entardecer suave e avermelhado cobria-se de um fino véu negro. Era a noite que se fazia anunciar majestosa e o céu cobriu-se de estrelas, tornando-se, de súbito, deus-supremo; o firmamento propagava a glória celestial. As estrelas eram meninas brincando em volta da grande mãe lua que, naquela noite, apresentava-se em toda sua plenitude gloriosa; vestida de rubro, reinava tranqüila e só. A carruagem parou abruptamente. Dafni foi atirada ao chão batendo com força a fronte na ponta do banco da frente. Astreu, ao abrir a porta, deu um brado aterrorizado:

– Senhora! … Por Zeus, o que foi que aconteceu?

Dafni tentou levantar-se, mas seu esforço foi inútil; sentiu a terra girar embaixo de seus pés; o mundo todo desapareceu de repente.

Ao acordar, sua vista, ainda embaralhada, viu a imagem tremulante de uma mulher alta; seu rosto pareceu-lhe disforme, como tudo ao seu redor. As paredes tremulavam e o corpo da mulher teimava em dançar como uma serpente. Fechou os olhos. Uma voz distante ecoou em seus ouvidos:

– Vamos, bela criança! Logo estará restabelecida. Depois um gosto amargo como fel rasgou-lhe a garganta, vindo a seguir um calor confortante; seu corpo relaxou e caiu num sono pesado e sem sonhos.

Já havia trinta dias que dafni morava no coração da tessália, acolhida no velho mosteiro dos montes alcandorados. Jazia no cume sem consciência, deitada em uma cama de pedra do interior de varlaan, mosteiro principal do grande meteoro.

O que havia acontecido fora que, ao parar a carruagem, astreu obrigado por um enorme bloco de pedra surgido no meio da estrada, puxara as rédeas violentamente, fazendo com que os cavalos estacassem de súbito. O impacto causou a queda de dafni que bateu fortemente com a cabeça, provocando fratura em sua testa, de uma extremidade a outra, uma horrível fratura tão profunda que deixou parte de seu cérebro à vista. Astreu, horrorizado com a cena, tomou a menina nos braços e saiu vagueando pela floresta, como um animal ferido.

Dafni sangrava sem parar, aumentando o desespero do homem que já havia clamado por todos os deuses em seu socorro. Parou, desolado, no meio da mata, sentando em uma pedra; olhou a menina, choroso e percebeu um pequeno lenço negro que a menina segurava firmemente entre os dedos da pequena mão. Astreu tentou retirar o lenço da mão gélida da menina, quando ouviu uma voz rouca em meio à escuridão da noite sombria e fria.

– Não! Não tire o lenço! Olhou assustado as árvores, nada vendo. Quando voltou os olhos na direção das mãos da menina, viu um menino, raquítico, cujos cabelos louros contrastavam com a escuridão da noite; seus olhos eram duas chamas sem órbita. Ao falar, seus lábios continuavam fechados. Astreu ficou paralisado pelo medo diante da figura cadavérica e não pôde pronunciar uma única palavra.

– Sou pluto! Vou ajudá-lo a achar o caminho. Siga-me!

O homem andou horas atrás do garoto. Pararam em uma clareira, dentro da mata. Havia no centro um cubo de pedras, aberto no alto. Fez um gesto com as mãos indicando a ara do sacrifício.

– Deite-a sobre a ara! – ordenou a voz do menino, firme e impedindo que pudesse, por um minuto, despertar dúvida em astreu, quanto ao fato de o garoto, fosse quem fosse, saber exatamente o que estava fazendo. Astreu obedeceu sem nada perguntar. A imagem de pluto aproximou-se de dafni; tirou o lenço das mãos, passando-o em sua testa encharcada de sangue. O pequeno véu negro mudou de cor: era agora sangue, o sangue de dafni, a colorir aquele pedaço de pano como seu pedaço de vida. Pluto, com os dedos magros, inscreveu um triângulo no chão, depôs o lenço ensangüentado no meio. A terra o engoliu de imediato, um raio incendiário cortou os céus, formando, ao redor do altar, grandes labaredas.

Em outro reino, nas profundezas ínferas o lenço ensangüentado caiu no colo de sua rainha; Perséfone segurou o sangue da filha nas mãos, soltando um grito que percorreu todos os reinos, despertando deuses da luz, das águas e das trevas. Hades sobressaltou-se em seu trono e o reino do silêncio foi invadido pela dor gritante de sua deusa suprema.

Perséfone estava pronta para subir ao reino da luz, quando o marido a interpelou:

– Não pode fazê-lo, amada!

– O sangue de nossa filha me chama. Ela não pode descer até nós; seria o fim de todo o futuro possível.

– Dafni, também é minha filha, mas não posso deixar que irrompa em um reino de outro deus, sem sua ordem.

Hades tomou das mãos de perséfone o lenço ensangüentado e clamou por hermes. Este, desconhecendo as fronteiras, penetrava livremente em todos os reinos. Ouvindo o rompante chamado, o deus provincial, amigo dos vivos e dos mortos, desceu ao além-túmulo; duas asas na cabeça e duas nos pés. O deus humano vivendo na terra entre o homem e a natureza, humanizado graças às asas dos pés, deus dos céus graças às asas da cabeça; mensageiro dos deuses, guia dos homens, portador de mensagens de esperança. Durante o dia, ia e vinha entre o céu e a terra; durante a noite acompanhava ao hades, as almas dos mortos e levava os sonhos aos mortais adormecidos.

Hermes não concentrava em si a força e a majestade como os seus celestes irmãos mas tinha a presteza, a astúcia e a arte mágica. Todos os procuravam para pedir ajuda e conselho, graças ao seu livre acesso a todos os reinos e a seus pensamentos astuciosos.

“meu país não é a terra, nem o céu, nem o mar:

Moro em chão que eu teria se escolhesse um lar.

Ho o sol lá de fora, mas o que há na memória

De haver feito sol dentro, faz lenda minha história.

Ontem, no azul lembrado, torna hoje em paraíso:

Tal é meu céu-inferno, teto de que preciso.

Meu nome não é nome, letra-som natural:

Acordei investido, Cavaleiro do Gall.”

Foi assim que Hermes saudou Hades e Perséfone. Ambos conhecendo o senso de humor inabalável do nume, não estranharam seu gracejo vindo em hora tão imprópria. Para Hermes, tudo era jogo ou comédia. Nunca perdia a malícia.

– Vejam! – bradou Perséfone, perdendo seu olhar na infinita escuridão. Saindo dos bosques e dos montes, um pequeno ser noctívago adentrava no espaço e no tempo, no lugar em que o sol sempre está embaixo do horizonte, na noite eterna. Hades olhou desesperado para Perséfone que correspondia em plenitude aos maus augúrios do marido.

A medida em que a figura espectral descia ao reino das sombras, Perséfone, com voz cheia de amargura, confirmou o vaticínio.

– E Dafni! Está à beira do Estige, se adentrar as águas do silêncio; o sopro do fogo da vida apagar-se-á de seu corpo; ela é uma mortal, mesmo sendo sua filha. Esse é meu castigo. Se subir na embarcação de Caronte, atravessará os três rios e então, nada poderemos fazer.

– Lembra-se do oráculo, Perséfone? – perguntou Hades, ao mesmo tempo em que virava a esposa pelos braços, para fitá-la de frente, numa tentativa de retirá-la do transe em que se encontrava.

– Sim! – respondeu a mulher, piscando os olhos várias vezes, numa tentativa de voltar seus pensamentos, sua energia ao presente a fim de encontrar uma solução para o problema. Lembro-me como se em meus ouvidos retumbasse seu som prolongado num eco sem término, concluiu Perséfone, livrando-se de vez dos pensamentos que não a ajudariam em nada naquele instante.

Hades pronunciou novamente a profecia, vasculhando o sentido de cada palavra, procurando armas para lutar contra as moiras. Andava de um lado para outro, com as mãos no queixo, nos olhos uma vastidão de tempo se aglomerava em um único segundo, pondo todos os seus pensamentos a girarem de uma só vez.

Quando Albúrnea pronunciara o oráculo no bosque de Tivole, Hades tinha nos braços, a pequena filha recém-nascida. Foi Perséfone quem ouviu o primeiro som da voz da sibila.

– Tua filha nasceu do ventre imortal; mas terá que conquistar a imortalidade, pois sua vida é dada por outra. Albúrnea virou-se para Hades:

– Sua mulher venceu as Erínias. Engendrou sua filha por vontade própria, sem ultrapassar as barreiras do não ser; mesmo mortal conquistou a imortalidade pelas mãos de minerva-guerreira, pois sendo, ainda mortal, a menina conquistou o coração de um deus. Desafiou as moiras, vencendo o medo humano. Porém, nada disso tira o pecado do parricídio de suas costas. Ouvi agora sua sentença! Fica sua mulher, seis luas no ínfero, em sua companhia; mas, quando flora perambular sobre a terra, ela subirá ao reino da luz, voltando somente quando a terra estiver gelada. Sua filha foi gerada em terreno neutro, parida no reino de Zeus, que tão bondoso dá permissão para segurar o fruto de seu sêmen num reino onde lhe é proibido calcar os pés. Esta que em seus braços segura, não lhe pertence. E dada por um mortal; mas uma concessão lhe será feita. Sua filha poderá ser iniciada no reino dos mistérios, conquistando assim uma nova essência, a imortalidade. Para tanto, terá ela que vencer as Parcas, enfrentando Cloto que tece o fio da vida, Láquesis que distribui a cada um a parte do fio que lhe cabe, e Átropos que corta o fio no momento preciso. Érobo, que junto habita, filho do caos e da noite, justo, proibiu as parcas, suas filhas, de acelerarem o tempo de sua filha. A que fia a lã, a que enrola no fuso e a que corta o fio da vida, terão a vida de sua filha, como a de qualquer mortal, porém, somente Tânatos, ordenará o corte da lã.

Quando Dafni nasceu, foi dado a conhecer o pai. Zeus, que permitiu a Hades subir ao seu reino, comoveu-se com o encontro do irmão com a filha; seu coração paterno fez com que o mesmo permitisse a convivência de Hades com a filha e a mulher, até que fosse entregue ao seu destino; impôs a Hades que jamais a pequena soubesse sua origem até que seu destino se concluísse. O oráculo, também, deveria ser respeitado. Mesmo assim Hades estava feliz; olhava a filha em seus braços e via que poderia ela vencer todos os obstáculos impostos pelo destino. Repetiu seu nome com afeto e esperança:

– Dafni, meu pequeno loureiro, construirá sua própria essência, vingando com justiça minha dor.

Nesse dia, não contava com o fato de uma morte prematura vir a assolar o caminho de sua pequena filha. Dafni, morrendo sem ser iniciada, passaria como qualquer outro mortal pelo rio da dor e do esquecimento. Seria mais uma habitante do reino da inação; sem nenhum movimento, ficaria para sempre nas trevas eternas, sem reconhecer sua própria casa. E a esperança de mudar o ciclo daquele mundo estaria todo o sempre perdida.

Enquanto Hades viajava em seus pensamentos, Hermes no presente, estava pensativo, segurava o queixo com expressão séria no rosto, coisa que não lhe era peculiar. Perséfone a seu lado, olhava horrorizada para a filha, que, aproximando-se do barco de Caronte, estava prestes a adentrá-lo. Foi, então, que Hermes quase sem querer, olhou as mãos de Perséfone percebendo o lenço de Dafni entre seus dedos; olhou fixamente o sangue que o encharcava e deu uma gargalhada demorada e alta, ouvindo-se o retumbar do seu riso de deidade do senhor do tártaro.

Perséfone e Hades saíram de seu estado hipnótico, centrando atenção nele.

– Eis aí a prova da trapaça das moiras!

– Como? – perguntou Hades vendo o lenço ser arrancado das mãos da mulher, com jovialidade, pelo deus Sátiro.

– Como chegou até aqui? O pequeno lenço esvoaçava no ar, dando ênfase as suas palavras.

– Foi Pluto, respondeu Perséfone, primo de minha filha.

– Ah! Hermes mostrou um ar satisfeito. O menino das sombras, o pequeno sábio, repetiu o nume entusiasticamente. Por certo foi levado por Morfeu até onde Dafni estava.

– Bem Hermes! E o que tudo isso diz, enfim? – perguntou Hades impaciente.

– Quer dizer, meu amigo, que nem sempre o que os olhos vêem são fatos que espelham a verdade. Pluto, percebeu isso, vendo através dos véus da aparente realidade, o mane não segue Tânatos, entende? Alegremente Hermes passou os braços em volta dos ombros de Hades, num gesto engraçado de quem descobre um enigma difícil. Levou a outra mão ao queixo, franziu a testa, fazendo pose de mestre que explica ao seu discípulo os mistérios do universo.

– O que digo é que o sono da morte foi mandado pelas moiras até Dafni em hora imprópria. O pequeno Pluto viu Tânatos adormecido como criança indefesa e o mane de sua filha ser roubado pelas parcas; então chamou Morfeu, sono da verdade e este confirmou suas suspeitas; Pluto pediu que usasse suas asas, para levá-lo em espírito até Dafni. Chegando até sua filha, levou-a até a clareira do sacrifício, o templo de todos os deuses, mandando, através das três forças centradas no triângulo desenhado na terra, o sangue de sua filha. Assim o alertaria da mentira das parcas, pois Tânatos jamais retira alguém do reino da luz pela força; ele vai sempre na hora certa e carrega, nos braços naturalmente e momento certo, os passantes de um reino para outro. Hermes, subitamente, largou os ombros de Hades e gritou energicamente:

– Acorda, Tânatos! Rápido antes que as moiras concluam seu trabalho.

Um vagido irrompeu da garganta do deus da noite, inundando o silêncio caótico dos jardins de Tânatos; a criança, adormecida sobre uma cripta fulgorosa, acordou de imediato com o grito rompante do senhor do sono eterno.

– O que deseja de seu servo?

– Uma resposta. Tu és a personificação da morte natural, teu pai Érobo deu a chave da vida de Dafni, minha filha. Responde-me, tu a chamas para junto de ti?

– Tu mesmo já respondeste. Sou o que faz adormecer os mortais com meu canto; embalo-os como bebês até chegarem a ti; e só o faço em hora própria. Por que então abreviaria o tempo de tua filha?

– Se assim o é, foste enganado! Descuidaste de tua tarefa e tuas irmãs cortarão o fio da vida de uma mortal entregue aos teus cuidados. Olha e vê com teus próprios olhos de lince. E minha filha subindo na embarcação do velho barqueiro. Acaso és um ciclope para deixar que as parcas o enganem com tamanha facilidade?

Tânatos sentiu o açoite violento das palavras de Hades. E as fúrias, suas irmãs, vieram incitar-lhe o ódio, zombando de sua imbecilidade ingênua. Foi quando clamou seu pai, fora de controle, pela imperdoável falha.

– Érobo, meu pai! Ouve a voz de Tânatos teu filho?

– O que desejas? A que infortúnios estás exposto para despertar todo o reino das sombras, através da ira de nosso mestre?

– Pai! Deste-me o poder e só a mim para trazer a mortal Dafni. As moiras, enciumadas, tramaram contra mim. Abreviaram o tempo da pequena e a trouxeram para o ínfero, sem meus braços, mas nos braços da violência, da morte precoce. Está ela prestes a atravessar a fronteira da não-vida.

– Tens o poder sobre tuas irmãs, que por mim foi dado. Mostra agora a força que a ti foi dada! Conduz a menina de volta a seu corpo. Dá tua voz de comando a Caronte! Vá pessoalmente ao reino da luz!

– Pai, não me é permitido ultrapassar a fronteira! Isso causaria uma guerra entre Zeus e Hades e minhas irmã bem sabem que somente ultrapasso as barreiras da não vida quando sou requisitado para mostrar o caminho dos que devem chegar até seu último destino. Estou de mãos atadas.

Érobo pensava e, num longo espaço entre a impaciência e a prudência, mantinha-se numa ponte sem ultrapassar definitivamente nem para o lado da primeira nem da última. Meditando, silenciosamente ergueu a cabeça para o filho desesperado:

– Pede a Hermes que o ajude! E segura tuas irmãs para que não os atrapalhe no caminho de volta.

Sem perda de tempo, Tânatos eufórico e, ao mesmo tempo furioso, chamou Hermes que de imediato, aceitou a incumbência. Com a ajuda do pai trancou as três irmãs em seu tear, que gritavam protestando e amaldiçoando-o ao mesmo tempo e em coro, prometiam vingança futura.

Enquanto isso, Hermes ensinava o caminho para voltar à vida, enriquecendo o espírito de Dafni com sublimes e maravilhosas esperanças, sabendo serem os sonhos e a esperança, os maiores regentes da vida, o mover de toda a vontade de continuar pelos caminhos pedregosos, sabendo sempre que, por mais difícil que seja a trilha do destino, sempre se pode ver o sol brilhar, o verde das árvores, e ouvir o mavioso canto de um pássaro quando descansamos da jornada. Quando se tem esperança, nem todos os titãs do inferno podem nos fazer desistir do caminho da vida, de seguir e completar nossa missão, transformando assim o mundo, dando um fragmento de nossa contribuição para sua melhora. Assim atingiram o reino da luz, voltando à floresta. Pluto no farfalhar das folhas sente o calor da vida, o calor da Dafni. A menina retorna a seu corpo; porém continuava em estado letárgico. A alma de Pluto regozijava-se e seu corpo também voltava à vida. Hermes contemplava com admiração o pequeno, tão grande em sua coragem e sabedoria. Aproximou-se do garoto com carinho e lhe entregou um bastão:

– E um presente, disse com voz amável. Esse é o caduceu, bastão do equilíbrio; revela os muitos segredos do homem. Com ele poderá aperfeiçoar sua arte de ver além das aparências; poderá entrever os dois aspectos do homem. A aparência, que lhe é vedada hoje, e a essência da qual já tem resquícios de conhecimento. Saberá definir as duas formas do amor; o sacrifício e o desejo, a alma e a carne; e os dois princípios da vida, o masculino e o feminino. Através dele, passou-lhe minha arte divinatória, que consiste na leitura do futuro observando o movimento das nuvens e o vôo das aves. Também possuirá com ele a arte da magia. O bastão será a luz que lhe falta aos olhos. Verá o mundo externo como os demais mortais; porém. Através de sua percepção acurada poderá captar imagens pelo calor, você fortalecerá o poder do caduceu. Seu destino está definido, ao menos que o refute pela sua vontade.

Pluto apanhou o cajado agradecendo o nume. Voltou-se para Dafni tocando sua testa ferida. Centrou toda sua força captando toda a energia de seu ser. Restaurou a fronte da menina, sem deixar sinal de fratura. O esforço foi-lhe por demais; seu corpo frágil não tinha mais calor e só havia nele um leve crepitar de chama da vida. Hermes, então, voltou-se para Morfeu que ali permanecia calado, e pediu que levasse o menino de volta ao castelo, de volta ao seu corpo físico; permaneceria semimorto por duas luas até readquirir o calor do fogo sagrado.

Hermes, por sua vez, levou Dafni até o mosteiro do grande meteoro.

Astreu viu tudo; mas logo caiu no esquecimento, pois o vulgo não poderia penetrar as barreiras divinas. Voltou ao castelo com a ilusão de uma viagem normal e tranqüila; Hermes apiedou-se do homem que a tudo contemplara e nada vira. Então, o nume voou até o coração da Tessália, alcançou o grande meteoro entrando em varlaam com a menina inconsciente nos braços. Entregou-a ao aconchego de manto, a sacerdotisa mãe, nada precisando explicar à filha de Tirésia, célebre adivinho, rio das lágrimas, cujas águas tinham o dom de fazer profecias. Retirou-se num vôo sincronizado e magnânimo, porém seu coração apertava num misto de desconfiança e medo, sem ter razão visível para isso.

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