Além do Olhar – Capítulo IV

Além do Olhar – Capítulo IV

Psic. Odegine Graça

Os olhos são as janelas do corpo; através deles conhecemos o universo material visível. Existem, porém universos em que a luz do olho humano não pode penetrar.

Esse universo complexo, invisível a olho nu, envolve muitos outros universos, onde nem sempre o homem é convidado a entrar. Em uma gota de água existem vidas, diferentes da nossa, e que ignora, como nós, a existência de outros cosmos, de outras vidas. Vivem em seu micro universo, isoladas. Vivemos na terra, ocupamos um lugar no espaço; mas só um lugar. Separados pelo espaço e pelo tempo, estamos presos em uma dimensão. Muitos existem em seu mundo; porém seus olhos não os podem ver. O corpo é a prisão da alma; a matéria, a limitação do conhecimento. O homem é um ser natural, uma mediação entre o conhecimento e o desconhecido. Ele é homem animal e deus racional. Onde esta o limite? O desconhecido conhece o homem. Cabe ao homem tentar conhecer os mistérios que o cercam.

Qual é o preço da ousadia do homem que arrisca adentrar no obscuro universo, no desconhecido? Sair da animalidade, tomar consciência de si e dos mistérios do mundo, é abandonar a inocência dos animais, é tomar conhecimento de quem e do que é, e do que se deve ser, é desempenhar seu papel frente ao mundo em que se vive. Quando não se tem consciência, a defesa pode ser a falta da luz da verdade; porém, ao ser iniciado nos mistérios do mundo, o homem passa a ser culpado pelo seu conhecimento, responsável pelos seus atos, sem ter mais asas da ignorância a protegê-lo. O conflito, o desespero, a mendicância vêm ao homem que, conhecendo seu papel no universo, não o desempenha pelo medo da arbitrariedade dos outros, teme o ridículo de ser diferente, e tendo a espada da verdade nas mãos não a usa, pois prefere seguir o mesmo passo dos animais, e negando sua essência, morre ainda tendo vida nos poros.

– A ignorância, talvez, seja a melhor amiga dos homens, a cegueira sua fiel comparsa. Cego, ignorante, frágil, segue o homem seus dias, suas noites, sem perceber a diferença de um ou outro. Não sou responsável pelo que fizeram ao mundo. Dizem, quando vim a ele, o encontrei feito, acabado. O que pode um único homem fazer frente a uma multidão, senão seguí-la?

Os céus demonstravam insatisfação. Muitos dias e noites velara o rosto azul, com o manto negro e turbulento. Chovia torrencialmente há duas luas; os ventos açoitavam as árvores e os homens, com fúria titânica.

Dafni estava na janela da torre observando os raios a rasgarem o véu escuro daquela noite-dia. Pluto, a seu lado, estava inquieto; seus sentidos, sua energia era aguçada pela energia furiosa que a natureza despendia. Pluto via o mundo através ondas de energéticas; e sua deficiência física tornava-o capaz de sentir e ver coisas que os homens perfeitos não viam. Dafni compreendia sua excitação, e, no forte vínculo que havia entre suas almas, seu sofrimento era agonia a alma de Dafni, na mesma proporção.

Dafni tornou-se aos olhos carnais de Pluto; ouvia sons por ele e os passava numa comunicação perfeita, forte, feita do silêncio da boca e do escuro dos olhos; suas almas conjuntas luziam o mundo externo e interno, constituindo fenômenos que a ambos assustava. Ninguém participava de seu mundo, de sua linguagem; sabiam que assim continuaria a ser, pois o dialeto que falavam, era o do amor; e, nesse campo de flores e sol, somente os dois caminhavam, sós, seguros pela presença um do outro.

Tudo havia mudado desde que Deméter recebera a fortuna dada por Hades. Moravam agora no alto da colina de Trulles. Deméter comprara uma antiga fortaleza pertencente ao Duque de Queens que, há muito, tinha mudado para as terras baixas, deixando o castelo ao abandono do tempo. Até então, ninguém em Trulles possuía ouro suficiente para comprá-lo; os nobres da proximidade tinham verdadeiro horror da pequena aldeia. Assim Deméter adquiriu a propriedade com ouro, pagando por ele apenas um quinto do seu valor, deixando o duque satisfeito pelo negócio, visto o mesmo não haver recebido, até aquela data, proposta alguma pelo castelo, já abandonado, há dez anos. Deméter levantou suas ruínas, tornando-o um lugar bonito, agradável para se morar, comprou também todas as terras do duque e seu título por duzentas safiras todas as terras do duque e seu título por duzentas safiras e vinte diamantes, convencendo o nobre falido com o brilho de suas pedras valiosas. Era agora a mulher mais poderosa de Trulles. Dona de quase todas as searas, decidia a vida de todo o povo da aldeia; sendo severa em seus julgamentos, instituía leis de vida e morte dentro de seus domínios.

O castelo estava abarrotado de empregados pagos e servos permanentes. Cânace divertia-se em perambular entre essas pobres criaturas o dia todo, dando ordens abusivas só pelo prazer de matar o tempo. Para animar o dia monótono, chegava à cozinha pedindo que preparassem frango acompanhado de batatas para o almoço, que era servido rigorosamente às onze horas. Então decidia-se por outra iguaria de difícil preparo, dando novas ordens minutos antes da refeição. Se o chefe de cozinha dissesse ser impossível o preparo de nova refeição em tão pouco tempo, mandava açoitá-lo por julgar desafiada; se o mesmo fazia sua vontade servindo a refeição tardiamente, mandava que o jogassem no porão do palácio por dois dias, sem comida e sem bebida. Certa vez, enamorada do jardineiro, mandou que a esse subisse aos seus aposentos ao entardecer, dizendo precisar instruí-lo melhor a respeito do cuidado do plantio das flores da estação que logo vinha. O rapaz, desconfiado das verdadeiras intenções da moça, decidiu, temeroso, consultar Deméter antes de cumprir as ordens da jovem. Disse a Deméter, com grande arte nas palavras, que se julgava indigno de subir aos aposentos de Cânace, sendo ele um simples servo e ela sua senhora, bela e casta. Deméter dispensou o rapaz, tranqüilizando-o quanto ao seu destino, desobrigando-o da tarefa imposta pela caprichosa Cânace; mandou-o voltar para seu quarto na ala dos servos, pois percebeu, com clareza, as intenções da filha. Mandou uma de suas amas chamá-la, impondo, em voz firme e clara, que desejava a presença imediata da filha. Cânace desceu imediatamente com a ordem que recebera, chegando resfolegante à presença de sua algoz. Recebeu dura admoestação pelo ato indigno de uma moça de sua posição, ao que ela fez ar de arrependida, alegando ter sido enfeitiçada pelo belo rapaz. Deméter, ante as lamúrias da filha, dela apiedou-se e deu-lhe o servo de presente. Cânace agradeceu, efusivamente, à mãe. Mandou chamar o “pobre moço” aos seus aposentos que obedeceu à nova ordem, pois já havia sido informado do seu destino.

Ao chegar, encontrou a pesada porta semi-aberta, fazendo-o hesitar. Foi quando ouviu uma voz vinda de dentro dos aposentos:

– Entre! Tranque a porta!

Foi feito. Trancou a porta com a chave de ferro. Adentrou ao quarto. O ar tinha cheiro forte de jasmim; as velas tremulavam em suas chamas o vermelho do tapete e das cortinas. No centro do quarto havia uma enorme cama de carvalho lustroso, coberta de véus rubros, atado nas quatro pontas da cama; os lençóis, que a cobriram, eram de pura seda, cor de “carmim”. O aposento era rodeado inteiramente por balcões de carvalho, com detalhes talhados à mão. Sobre eles pousavam vários castiçais de ouro, guardiões calados a segurar suas tochas, iluminando aquele pequeno mundo, de ar impregnado pelo desejo dos dois corpos, separados por curto espaço de tempo, sufocados pelo prazer antecipado por suas idéias, suando o desejo não satisfeito pela carne, mas já vivido pela alma; em cantos opostos, seus corpos fremiam impossibilitados por um passo, temendo acabar a magia daquele ambiente rescendendo a jasmim e temendo esvaiar-se pelas frestas aquela luz bruxuleantes das velas de seu coração quando seus corpos se tocassem.

Em passos lentos, Cânace surgiu dos fundos, parando do lado esquerdo da cama; no rosto guardava aquela empáfia tão conhecida. Vestia uma camisola fina de seda branca transparente. Seus cabelos soltos caíam nos ombros em cachos fogosos como o desejo que consumia seu corpo; seus olhos brilhavam denunciando, nos amplexos daquela mulher, o ardor de Afrodite. Cânace percorreu com os olhos, o rapaz parado à sua frente, deliciando-se ante a beleza apolínea: moreno, músculos salientes, cabelos negros encaracolados, olhos negros com sensualidade animalesca mesclada de uma ternura só encontrada no olhar das crianças. Um vento intruso remexeu a cabeleira negra de Hefaístos, fazendo seus cachos esvoaçarem ao léu, caindo obediente nos ombros de onde tinham saído. Hefaístos, cheio de desejo, olhava a mulher ruiva como chamas de uma fogueira e seu corpo inflamava-se mais e mais; caminhou com jeito de animal indomável, devido a sua altura e físico atlético graças ao trabalho pesado. Lenta e leve, caminhou rumo a sua presa.

Cânace tirou o roupão fino jogando atrás de si. Tinha sobre seu corpo somente a camisola longa, extremamente transparente, com um generoso decote, presa por duas fitas no ombro. O tecido fino deixava à amostra cada traço do seu corpo: seios firmes e pontiagudos demonstravam o desejo de seu sexo. As linhas sinuosas do seu corpo eram, totalmente, reveladas por segundos, quando as luzes dos castiçais brincavam de esconde-esconde, aumentando e abaixando suas chamas.

Cânace perguntou numa voz rouca:

– Qual é seu nome de batismo, servo?

– Hefaístos, respondeu uma voz forte, impregnada pela dor da espera.

– Tire sua túnica! Quero vê-lo antes de possuí-lo. Hefaístos desamarrou o laço do ombro esquerdo, deixando cair a túnica de algodão grosso de trabalhador. Cânace percorria, com olhos de tocha, cada músculo, cada minúscula partícula do corpo daquele homem, esquecendo, na plenitude do momento, mandar ar aos pulmões. Suas pernas bem torneadas caminhavam num ritmo lento; os pêlos que cobriam seu corpo, rescendiam o suor de seu desejo. Cânace levou as mãos até o laço da camisola e o desfez lentamente, deixando cair o lado direito; desvelando, por completo, seus seio alvo de aura rósea. Quando estava prestes a desvencilhar-se do outro laço, Hefaístos, como um relâmpago, estava a sua frente; segurou-lhe a cintura com as mãos fortes, apertou-a impetuosamente contra seu sexo rijo, aproximando seu rosto e deixando sua respiração confundir-se à de Cânace; num ímpeto de desejo furioso, Hefaístos desceu os lábios até o seio da moça, para subir lentamente até seus lábios cálidos; beijou-a demoradamente com paixão. De súbito separou seu corpo do dela; olhou a moça semi-despida, suas mãos buscaram-lhe o decote rasgando-lhe a camisola ponta a ponta, num gesto único e preciso. Vindo, à luz, aquele belo corpo, nua por completo Cânace não tinha na face aquela expressão de zombaria; estava abandonada nos braços de um servo, que, agora ela estava a servir. Enfim, ao deparar com a jovem totalmente desarmada, Hefaístos agarrou-a com ardor furioso, unindo seu corpo ao dela; suas bocas e mãos, travavam uma guerra de paixão. Cânace devorava a carne de Hefaístos, procurando seus lábios, sedenta. Embriagados pelo êxtase, amaram-se por todo o tempo, em todo o aposento; e à noite se fez pouca diante de tanto desejo.

O dia chegou iluminando dois animais cansados, no chão de um aposento luxuoso. E o sol apareceu quente. A partir daquela noite, Hefaístos passou a ocupar um dos quartos acima de Cânace. Era ele o primeiro a habitar a cúpula dos servos-concubinos. Cânace não podia desposá-lo por tratar-se de um servo-residente. Porém, sendo ela nobre, tinha o direito de possuir até doze servos-concubinos em seu quarto cúpula. Estes vinham aos aposentos de sua senhora quando ela os requisitava. De resto passavam a vida no ócio ou entretendo-se em afazeres domésticos; alguns talhavam objetos em madeira, outros divertiam-se em domar cavalos. Hefaístos, por sua vez, tornou-se ferreiro do palácio.

Cânace o amava, porém tinha o dever de escolher um nobre como marido. E outros onze concubinos para que um único homem não tivesse exclusividade sobre seu corpo. Assim acontecia porque as mulheres nobres eram vistas como senhoras supremas da vida e da morte; seu poder aumentava quando estavam ligadas ao cultivo da terra. As sementes eram por suas mãos abençoadas para nascerem viçosas; assim como também os campos eram arados e cultivados pelas mulheres, pois carregavam o fruto da vida, o princípio de tudo em seus ventres. Portanto, um campo arado pelas mãos de uma mulher, quando lançadas as sementes, certamente viriam bons frutos.

As senhoras da terra no primeiro dia de plantio, andavam com os pés descalços pelos campos semeados, transmitindo força vital à semente, embaixo de seus pés. Quando grávidas, tocavam em todo trigo estocado nos celeiros, para que sempre ali estivesse; como seu ventre abrigava a vida, os celeiros também abrigavam a planta da vida. Porém, tais regalias eram exclusivas das mulheres que tinham título de nobreza. As demais só podiam ter um marido, sendo proibidas de coabitarem com outros homens.

Mélia, ao ver Cânace adquirir seu primeiro concubino, passava seus dias atrás da mãe reclamando a compra de mais servos; alegava que os da casa ou eram mancos ou gagos, e insistia em ir pessoalmente ao mercado comprar os próximos servos residentes. Não satisfeita, Despona exigiu da mãe, que muito riu, um servo concubino.

– Minha filha, não acha melhor completar seis anos antes? Provavelmente seu gosto por homens, até lá, haverá mudado muito.

Os dias passavam tranqüilos. Todos estavam envolvidos em um tipo diferente de afazeres. Tiro e Neleu, divertiam-se na sala do segundo andar do palácio postados à janela que dava para o pátio, onde instituíram campeonato de cuspe. Ganharia quem acertasse maior número de cabeças. Passavam dias inteiros a cuspinhar nas vítimas que andavam pelo pátio. Alcione, achou uma cutia e resolveu adotá-la, fez-lhe roupas de lã e até um rabo de pele de carneiro; insistia ela em dizer que haviam cortado o rabo do pequeno mamífero roedor. Toossa, aprendia a montar; escolhia animais arredios; por isso toda noite ficava com o traseiro de molho dentro de uma bacia com água quente e ervas anestésicas, preparada ao entardecer para suavizar-lhe os ardores. Celeno e Bentesicime aprendiam a tecer com Deméter. Participavam do trabalho com jeito sério de damas fiadeiras.

Pluto e Dafni eram um só. Tornaram-se almas gêmeas; comiam e dormiam juntos. Deméter, a princípio, preocupou-se com o estranho laço entre as duas crianças; com o tempo aprendeu a encarar o fato com absoluta normalidade; achou mesmo bom Pluto ter encontrado companheira tão fiel, pois assim não se agastava atrás do menino, com medo de que esse se ferisse ou ficasse preso em algum cômodo do palácio sem poder ser socorrido caso algum perigo o ameaçasse.

Tinha muitos afazeres como castelã; preocupava-se com todo o povo que cuidava de suas searas. Sua aparência, também, levava boa parte de seu tempo, pois ao tornar-se Duquesa de Queens, não podia apresentar-se ao povo como uma camponesa gasta pelo trabalho. Mandou vir de Zeans, cidade vizinha, mulheres especialistas para cuidar de sua beleza. Era agora outra mulher; tomava banho de leite de cabra para melhorar a pele e seus cabelos ganharam nova vida com o banho de ervas e óleo. Trajava vestido de seda e acobertava-se com pele de ovelha; seus mantos eram de cores variadas; tinha mantos para ficar em casa, feitos de pele de ovelha comum, brancos ou amarelados; mas, para ir ao povoado receber homenagens, usava os mais raros, marrons ou avermelhados.

Quando vinham visitá-la ou pedir que julgasse uma causa de injustiça nos campos, cobria-se com seu mais raro manto, feito da lã das ovelhas karakul. Era de pêlo brilhante, cinzento ou preto. Se o acusado era condenado, Deméter trocava o manto cinzento pelo preto e, em seguida, pronunciava a sentença, geralmente, muito severa.

Rejuvenescera graças aos muitos tratamentos de beleza; seu físico, antes curvo e diminuindo sua altura tornou-se ereto pelos exercícios de postura. Agora tinha novamente o vigor quase total de sua juventude: esguia, cabelos avermelhados, olhos azuis um tanto pérfidos, porém belos, mãos grandes e dedos longos, somente seu rosto e pescoço mostravam nuanças de sua idade. As filhas em tudo assemelhavam-se à mãe; a única exceção era Perséfone. Teria ela herdado as características físicas do pai? Até o momento Dafni sempre intrigada, não obtivera nenhuma resposta à pergunta. O nome do avô era tão vedado quanto sua imagem. Nem seu nome ela sabia; ninguém tocava em assunto que trouxesse, de alguma maneira, lembranças relacionadas ao avô. O nome de sua mãe e de seu avô eram envoltos em profundo mistério. Seus nomes eram proibidos; preferiam ouvir o clamor dos infernos ao nome de ambos.

Dafni seguia as regras. Ao menos por enquanto.

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