Além do Olhar – Capítulo II

Além do Olhar – Capítulo II
Terapeuta e Consteladora Odegine Graça

Dafni, calada em sua poltrona almofadada, tinha o olhar distante, e os pensamentos tão rápidos quanto o passar da paisagem verde pelos seus olhos. Dirigia-se a Trulles, cidade onde sua mãe nascera. Não sabia o porquê do calafrio, quando pensava em seu destino próximo. Estava a poucos quilômetros de sua futura morada; e quanto mais se aproximava da sua vó, maior era o medo que sentia daquela estranha, em cujas mãos seria entregue.

Dafni tinha apenas dois anos, mas era muito desenvolvida para sua idade. Sua mãe sempre deixara claro que logo seriam obrigadas a separar-se; porém nunca lhe dissera o motivo. Além do temor desconhecido, importunava-lhe o fato de sua avó viúva, e com onze filhos para sustentar, a quisesse como mais um fardo. Pelo que sabia, Deméter trabalhava na terra de outros para conseguir o sustento dos filhos. Arava desde os primeiros raios do sol, parando quando, há muito, já se fazia escuro. Muitas vezes a chuva era sua companheira, varrendo-lhe o corpo franzino e esquecido.

No mesmo instante, muito próximo dali, uma mulher ardia sobre a inclemência do sol, que naquele dia parecia mais impiedoso, pois trazia consigo uma brisa suave, tão suave, que era incapaz de refrescar em sua leveza, insuficiente mesmo para quem estava sentado à sombra, quanto mais a “carpinar” violentamente como fazia Deméter.

Sem prestar atenção ao apelo suado da carne, trabalhava com afinco para esquecer do mundo que a circundava e, há muito não era bondoso com ela.

Deméter levantou a cabeça, retirou o chapéu de palha de grandes abas, destinada a protegê-la um pouco da ferocidade cáustica do sol. A seguir passou as mãos sujas da terra preta pela testa, numa tentativa de secar o suor grudento e salgado que escorria abundantemente pelo rosto, ofuscando-lhe a vista. Logo, porém, desistiu da inútil tarefa, recolocando o chapéu na cabeça, atando-lhe o nó duplamente ao pescoço. Já estava com a enxada em punho, pronta para abaixar-se novamente, quando seus olhos mostraram-lhe, ao longe, duas mulheres andando a passos lentos pelo campo, adentrando já a parte carpinada. Fez um esforço para melhor ver, mas o sol ardente levantava o calor do pântano aterrado para o plantio, envolvendo o ar num leve véu e confundindo as imagens quando vistas de longe.

Deméter, parada, notava a aproximação cada vez mais rápida de ambas. A mulher crescida trajava um longo e fino vestido de algodão tingido, cor de âmbar, cabelos acobertados por um lindo chapéu de palha fino, com fitas coloridas, com sapatos de couro resistente, porém de feitio artesanal e muito fino. Segurava pela mão a mulher-metade, vestida com igual requinte. Deméter pensou, a princípio, tratar-se de uma das damas do condado próximo, visitando os campos em companhia da filha. Isto era habitual naquelas donas que, nada tendo a fazer, ocupavam-se em observar os aldeões, com superioridade enojante.

As duas vinham em sua direção. O que haveria elas de querer? Pensava mal humorada a velha carpinadeira.

– Bom dia, disse, com voz pausada, a mulher feita.

Deméter, sem responder, continuou parada; olhava fixamente aquele rosto. Não, não poderia ser, pensava aturdida. Aquele rosto, a voz, seria? Arrancada do presente, lembrou-se, aos poucos, daquela presença familiar. Não havia dúvida: era, com certeza, Perséfone, sua filha. Quando saíra de casa, era apenas uma garotinha de dezesseis anos; era alta, porém muito magra. Seu rosto apresentava belos traços por certo; entretanto, a mulher parada a sua frente era somente uma suave lembrança da pequena, sua filha.

Perséfone tornara-se uma mulher de beleza singular. Alta, esguia, olhos de um violeta inebriante, pele alva, mãos finas e dedos longos como os de um artista. Apesar do chapéu, podia-se estar que os cabelos negros continuavam longos, pois estavam presos em grossas tranças, erguidas por fios dourados na parte de trás da cabeça.

– Mãe, não me reconhece?

Deméter saiu de seu devaneio sem demonstrar, em seus traços, algum vestígio de surpresa. Respondeu filha com voz natural, como se a visse todos os dias e sua presença não causasse surpresa alguma.

– Sim, claro! Uma mãe jamais se esquece da filha, mesmo após dez anos sem pôr os olhos nela.

Perséfone, em um impulso, abraçou a mãe, achando serem suas palavras uma demonstração de saudade carinhosa. Deméter permanecia imóvel diante da manifestação espontânea de afeto da filha. Falou num tom impessoal, frio.

– Estou com o corpo suado, malcheiroso, tenho terra nas mãos e minhas vestes estão impregnadas de suor. Certamente vou sujá-la se persistir em me agarrar. Perséfone afastou-se esmorecida. A mãe nada tinha mudado; continuava odiando-a com a mesma fúria do dia em que fora expulsa de casa. Ela, porém, tinha mudado, e muito, nesses dez anos para se deixar abater pela cena da mãe. Nessa década de solidão, o autocontrole havia-o desenvolvido muito bem, e sabia dominar seus sentimentos com a destreza de um domador de cavalos selvagens. Diante de uma ameaça, estava longe de ser a garotinha assustada a ser dominada por todos, ou motivo de chacota e satisfação dos prazeres sádicos dos pais. Imediatamente, ao ouvir tocar seu sino de defesa, tomou posição ereta, dirigiu um olhar cortês à mãe, dando-lhe uma resposta magnânima, impregnada de sarcasmo sutil.

– Com certeza, precipitei-me no gesto, há pouco.

Fez ligeira mesura com a cabeça como uma rainha: — queira perdoar-me!

Afastou-se de imediato, voltando às costas para a mulher, que se dizia sua mãe. Voltou para junto de Dafni, a menina permanecia imóvel, de olhos baixos fixados na terra preta, cuja imaginação, fincavam seus pés nela como se tivessem criado raízes. A garota miúda, cabelos pretos muito ralos, olhos negros, demonstrava uma timidez férvida, refletindo em seu rosto, o brilho triste de um adulto que sofreu muito na sua jornada longa pelos caminhos inócuos da vida. Em nada se parecia com a figura régia que lhe dera vida.

Suas mãos pequenas cruzavam-se no ar, formando uma concha, dentro da qual tentava reter todo o medo que sentia no momento. Isso sempre funcionava; agora, porém, estava devorada pelo pavor. Absorta em seus pensamentos, sobressaltou ao ouvir a doce voz da mãe, agachada a seu lado, olhando-a com um carinho denunciador da hora da separação.

Perséfone nunca foi rude com a filha, mesmo nos momentos em que merecia. Procurava educá-la com amor. Carinhosa, estava sempre pronta há aproveitar cada minuto, que podia, junto da pequena. Isto dera a Dafni a sensação de perda. Naquele exato momento entendeu seus sentimentos. O olhar da mãe estava enodoado pela dor; seu coração ouvia o choro da alma de Perséfone. Então, procurou dentro de si toda a força possível, buscando parecer forte o suficiente para amenizar o sofrimento da mãe.

– Querida, venha! Conheça sua avó! Seja boazinha e cumprimente como a mamãe ensinou! Por favor, meu anjo! Dafni, obediente, caminhou até a desconhecida, apontada como sua avó.

Elevou os olhos e, descruzando as mãos, fez uma reverência breve com a cabeça dobrando levemente os joelhos.

– Como vai, senhora? Digo sinceramente estar honrada em conhecê-la, parente.

Deméter soltou um riso estrondoso, deixando a menina imediatamente confusa. Dafni levou as mãos instintivamente ao ouvido, tentando abafar aquele gargalhar medonho. Seu primeiro impulso foi correr, ir para os braços da mãe, pedir que não a deixasse nas mãos daquela mulher horrível, mas, não o fez. Havia nela uma força maior que a impelia a encarar a mulher que representava seu futuro. Esse era o seu destino. Sempre soube ter que enfrentá-lo. Não poderia fugir de si mesma para sempre, disso tinha consciência. Era inexplicável essa atitude tão madura em uma garota de dois anos; porém Dafni nunca fora uma criança comum; a gratuidade dos atos infantis ela jamais conheceria, pois carregava em si a marca da sabedoria, dos que nascem no tempo, mas não vivem segundo suas regras.

Apesar de pouca idade, seus valores estavam bem definidos. Sob a capa de aparente fragilidade, escondia-se uma força inumana, pronta a irromper com toda a fúria daquele corpo pequeno.

– Vejo que tem maneiras de trato como as de uma dama, comentou sarcástica a avó.

– Meu nome é Dafni, senhora.

– Ora, vejam! É insolente também. Vejo que nega sua mãe só no físico, mas a afirma em sua bestial arrogância.

– Sinto muito, continuou impassível a menina! Trazia, porém, nos olhos um brilho de desafio, que Deméter conhecia muito bem. E, com voz amável, acrescentou:

– Minha intenção não era parecer desagradável.

– Ora, vamos, pirralha! Guarde suas ”rendas”, pois aqui elas de nada servirão. Havia, na voz de Deméter, uma nota dissonante tão intensa de ódio contra o sangue que Dafni carregava nas veias, e que tão bem o defendia.

– Certamente o farei, respondeu seca a menina, fazendo, em seguida, a reverência para retirar-se junto à mãe.

Deméter enfurecida dirigiu um olhar feroz a Perséfone, que se mantivera impassível até aquele momento ante a discussão, dando a entender ser a filha perfeitamente capaz de cuidar-se. Ou antes, pensou Deméter, poderia estar a avisá-la do perigo que a menina representava, acaso fosse sua intenção maltratá-la.

– Como pode uma criança de dois anos falar com tal desenvoltura desafiando abertamente uma anciã como eu? O que foi que me trouxe Perséfone? E com voz um tanto trêmula, acrescentou quase para si mesma: – um pequeno demônio?

– Entrego-lhe minha única filha, fruto amado de meu ventre, meu sangue, minha vida como exigiu. Minha mãe… Perséfone falava como nunca Dafni lembrava tê-la ouvido: sua voz ressoava como o choro de um animal que vaga pela floresta, há muito ferido, sem encontrar lugar para repousar, pois onde quer que se deite, seus ferimentos o incomodarão, preferindo perambular noite e dia, gritando sua dor a todos que a habitam, lembrando que eles também podem a qualquer minuto serem atingidos, e que todos morrem, quando não pela lança, pela natureza. Dafni aturdida não entendia a conversa das mulheres, mas sentia um arrepio percorrer a espinha, porque a atmosfera se impregnara de ódio. Qual o motivo de ter que ser ela entregue a sua avó?

A mãe a alertara de que haveriam de separar-se muito em breve. E, quando perguntava o motivo, recebia uma resposta vaga, vestida nos farrapos da mentira. Até o velho da batina luzente, responsável pela sua educação, nunca lhe dissera a verdade sobre isso, embora sobre as demais coisas fizesse sempre questão de esclarecer, fossem suas perguntas banais ou embaraçosas. Porém, ao perguntar-lhe sobre seu destino, este respondia com um sorriso obscuro.

– Em seu devido tempo a verdade virá a desempenhar seu papel. Você verá pequena!

Seria um consolo aquele sorriso? Algo, porém, dentro de sua alma, fazia-a crer mesmo, sem entender, sentia energia fluir dentro de si, embora desconhecida a origem e como utilizá-la. Um dia, um dia saberia usá-la. Esta era a única certeza de que tinha para o momento.

A voz da avó chegou aos ouvidos como o vibrar de um instrumento desafinado, arranhado por um amador sem qualquer talento musical. Esforçou-se para entender o que dizia; sua cabeça era um emaranhado de idéias confusas ensurdecendo seu pensar. Deméter berrava em exaspero de velha cansada. Ou seria rugido demoníaco que, num repente, num rebento, surgia rasgando a carcaça aparente frágil que a envolvia, dando seu espaço corpóreo.

– Ensurdeceu a espertinha?

– Desculpe, distraí-me, contemplando seu belo campo. Realmente, é muito habilidosa, mulher que soterra, sem ajuda, um pântano e faz dele um campo fértil; é, sem dúvida, digna da graça dos deuses.

– Como sabe que soterrei sozinha o pântano?

– Está aqui só. Tem muita rapidez no manuseio da enxada, além do que seu arado tem lugar somente para uma pessoa, do seu porte físico para puxá-lo agilmente. Seu campo é plantado em linha reta, somente quem trabalha sozinho o faz, e seus pés trazem marcas de mordidas de gentes, esses animais só vivem no pântano, atacando somente quando sentem a terra misturada ao Sertri que os sufoca, tirando suas vidas; e o Sertri é dado por lei somente a quem trabalha sozinho em terras alugadas.

– Como aprendeu tanto a respeito do cultivo dos pântanos? E a existência do Sertri só é conhecida por poucos. É segredo dos alquimistas de Trulles. Como pode saber?

– O senhor Peleu, foi meu mestre; é ele alquimista pai.

– Entendo. Tenho um pequeno demônio, com certeza. Pronunciou a palavra num som gélido. Inaudível, um presságio abrasava sua mente em pensamento ventoso.

Perséfone ouviu o pensamento da mãe, com um aviso; lançou um olhar faiscante, impregnado de ameaças que somente as duas entendiam. Ao fazer dos sons, propagava-se pelo espaço um retumbar de pavor, perpassando Deméter como um fio cortante de uma lança afiada, que sentiu a dor do golpe invisível. Deméter quase soçobrou ante o inesperado poder da filha.

– Mãe, falou com fingida doçura, seu algoz. Viajamos muitas milhas, o sol é escaldante. Leve-nos até sua casa para tomar um pouco de água fresca, descansar à sombra o corpo exausto.

Deméter, estarrecida, não ousou um único protesto, nem mesmo um pensamento desafiador; estava entre o medo e a surpresa, decidindo manter-se sobre as asas da prudência. Sim, o desconhecido estabelecia a linha divisória do terreno firme onde os pés calcam seguros e o pântano lodoso onde se deve conhecer cada palmo da terra antes de pesá-la sem o risco de soterrar-se para sempre, num poço fundo, sem a menor aparência do perigo. Tentou manter a calma. Com um gesto estudado, limpou as mãos no avental e, ao mesmo tempo falava com voz mansa.

– Sim por certo que as convidarei! Jamais neguei água a ninguém. Aviso que o caminho é longo, terão que andar muito até o descanso.

– Não será necessário! Teremos um carro fechado logo no começo do plantio. Venha! Logo estaremos em sua casa.

Andavam as três lado a lado, refletindo, por um instante, sobre destinos tão diferentes, tão iguais, inseparáveis, ironicamente inseparáveis.

Ao avistar a carruagem, Deméter deixou escapar um pequeno suspiro de espanto; seus olhos percorreram a enorme abóbada negra, com janelas enfeitadas de cortinas claras, dois pares de cavalo puro-sangue, tão negros que suas belas e bem cuidadas crinas reluziam ao sol majestosamente. Um homem alto, elegantemente trajado, com um chicote de cabos de ouro e uma escrita que pareceu à Deméter os símbolos usados pelos santos sacerdotes da região do grande rio bondoso. O homem, em pé parecia uma estátua de mármore, ereto à espera de ordens para mover-se. Foi, então, que Deméter despertou para seu estado lastimável. Suas roupas contrastavam brutalmente com todo aquele luxo. Onde Perséfone arranjara ouro para tanta pompa. Prostituta não era, seus modos eram finos como os da aristocracia; parecia esposa de um nobre. Deméter pensava, perdendo-se cada vez mais em seu labirinto de idéias, indo da mais suntuosa a mais miserável das conjecturas. Perséfone não poderia ter-se casado dignamente, principalmente com um nobre. A hipótese era inverossímil. Nenhum nobre jamais se casaria com uma moça sem saber todo seu passado, sem imiscuir-se em todos os recôndidos de sua vida e da vida de seus familiares. E, embora não encontrando mácula em sua escolhida, era-lhe ainda requerido o título da nobreza, ainda que ele fosse comprado de um nobre falido. O ouro, certamente, ofuscava as marcas do plebeu; porém não a retiravam jamais. Perséfone arrancou a mãe de seus pensamentos, como se os visse e não gostasse nada do que seus olhos presenciavam.

– Vamos! Entre, mãe!

O cocheiro abrira a porta da carruagem oferecendo a mão para ajudá-la. Sem tempo para pensar decidiu entrar. Sentou-se no banco da esquerda, ficando de frente para a filha e a neta. Sentiu o frescor do vento soprando pelas janelas assim que o carro se pôs a mover velozmente; no acento macio, suas mãos repousavam sobre o tecido fino e liso que o acobertava. Era seda por certo. Mas de que tipo? Não parecia em nada com as feitas pelo bicho caseiro da seda. Eram macias, porém resistentes como só havia um tipo de tecido; era mais resistente que um fio de aço para agüentar o peso de qualquer pessoa que se sentasse naquele banco, lanoso e colorido. Deméter reconheceu ser a seda fabricada pela Araneus Díade. Perplexa pela descoberta pensou nunca ter visto ninguém, naquelas terras, vestir-se com tal tecido, pelo alto custo e sua difícil obtenção. E ali estava ela, sentada em bancos acobertados pelo rico artefato. Já era demais. Onde conseguira a filha tudo isso? Deméter olhava inquisitiva Perséfone, que permanecia inflexível ante a curiosidade mórbida da mãe. Foi, então, que Deméter decidiu investir em voz alta contra aquela que a exasperara até então.

– Casou-se? – inquiriu com um sarcasmo que detonou a fúria de Perséfone.

– Sim! Respondeu num monossílabo carregado de ostensiva raiva.

– Com quem? – continuava a outra fingindo não perceber o dissabor de suas interrogações.

– Com um senhor de terras muito distantes.

– Deve ser ele muito rico. Fez uma pausa como para deixar às claras o que realmente pensava a respeito da integridade moral da filha. Para proporcionar tanto conforto assim sua esposa, é, sem dúvida, muito generosa; vê-se logo que lhe emprestou o melhor carro para a viagem.

– Este carro me pertence. Não é, também, o melhor dos que possuo; porém é de grande utilidade em viagens longas.

– Qual é o nome desse senhor tão próspero, e que tipo de negócios o ocupam?

– Hades.

– O que é ele, afinal?

– Senhor absoluto do lugar onde vivemos.

– Esse lugar não tem nome?

– Fobos! Fica no sul. Ao pronunciar tal nome, um trepidar rápido e violento abalou a carruagem. Deméter sentiu um arrepio pelo corpo, uma sensação de enrijecimento retesou seu músculo. Foi, então, que percebeu sua falta de perspicácia. Tentou amenizar seu medo, dando a sua voz um som amável, mas pouco convincente.

– Tem razão! Não sei onde fica tal lugar. Diga-me como um nobre de tal estirpe, cuidando de um feudo, certamente grande pelas suas posses, casou-se com uma estrangeira e, sem questionamentos, aceitou-a sem título, sem família e sem dote?

– Engana-se mãe! Meu senhor e cônjuge não cuida de feudo algum, ele é o rei de Fobos. Casou-se comigo por amor. Ninguém, em seu reino e nem nos arredores, ousaria contestá-lo. Sua vontade reina suprema sobre a de todos.

– O que me diz? E rainha? E a menina é filha de seu marido.

Perséfone sobressaltou-se ante a pergunta. Seus olhos tinham um brilho frio e ameaçador.

– Por certo que sim! Por quem me toma? Deméter tremeu diante da fúria da filha; seu sangue gelara e o coração batia acelerado querendo saltar-lhe do peito. Sem se dar conta, articulou um pedido de desculpas, no qual deixou transparecer todo seu medo. Os olhos de Perséfone voltaram ao azul límpido, perdendo o tom fogo-gélido adquirido ante a ofensa da mãe; aquele to azulado pacífico era uma brutal cortina que cobria as duas tochas há pouco prestes a queima Deméter, numa forma desconexa e fogo morto. Deméter não conhecia aquela mulher. Certamente não havia ela dado ao mundo aquela criatura.

– Sinto, Perséfone! Minha intenção não era ofendê-la. Creia-me! E que sendo filha de um rei a menina, como consentiu em entregá-la?

– Nunca escondi nada de meu marido. Sabia ela desde o princípio a dívida que tinha. Estou aqui a pagá-la com seu total consentimento.

Deméter abriu a boca. E, antes mesmo de articular um único som, a carruagem parou, vindo o cocheiro oferecer-lhe ajuda para descer.

Desceu do carro, muda e, ao mesmo tempo, agradecida pelas palavras que foram cortadas na garganta. Por vezes, o tempo salva vidas sem dizer o porquê.

– Dafni.

– Sim, mamãe?

– Não esqueceu nada sobre o que conversamos, não é amor?

– Não, mamãe! Não se preocupe e diga a o papai que já sou moça crescida. Abraçou a mãe. A seguir deu a mão, como uma verdadeira dama, para descer da carruagem.

– Senhora vai descer agora?

– Ah! Sim! Já estou indo. Obrigada, Cérbero! Aguarde-me aqui! Voltarei em breve.

– Sim, senhora!

A casa parecia exatamente igual ao dia em que Perséfone a deixara: um amontoado de tijolos de barro cozido, superpostos de forma que não necessitassem de outro tipo de massa para fixá-los além do barro com o qual eram construídos. A casa era alta, e tinha formato arredondado como a maioria na aldeia; dividia-se em dois andares em seu interior e a parte de cima era reservada para dormir. As camas eram também feitas de tijolo, uma ao lado da outra. Em cima das mesmas havia palha seca envolta por tecido feito de algodão cru, servindo de colchão. Os travesseiros e cobertas eram de pena, acobertados pelo mesmo tecido. Chegava-se à parte de cima, subindo uma escada feita de madeira. O chão da casa era de terra batida, caiada com barro branco, e dando-lhe um aspecto fresco e limpo. Quase todos os objetos da casa eram feitos de barro: o fogão, o balcão que ia de uma extremidade à outra da casa, começando na ponta do grande forno de barro do lado esquerdo no canto e acabando na parede; seu interior era aberto, servindo assim para guardar os utensílios domésticos, tanto na parte externa em cima quanto na parte interna. Tudo era cuidadosamente coberto de barro branco todos os dias: os pratos, os copos, até os jarros que serviam para guardar água. As panelas e a chapa do fogão eram de ferro. No centro da casa, estava uma mesa feita de carvalho e dois bancos inteiriços, sem encosto, que acompanhavam longitudinalmente a mesa, na qual eram servidas as refeições. Na entrada uma esteira feita de palha, tecida à mão, servia de tapete. Do lado esquerdo da escada que dava para os quartos, no fim do balcão, prendia-se uma rede de algodão cru, servindo de assento para as visitas ou lugar de descanso para Deméter. Naquele momento, balançava solitária, esquecida naquele canto sem luz. A casa só tinha uma janela que ficava em frente à mesa das refeições. Tanto a porta quanto as janelas eram fechadas somente à noite, pois era grande o trabalho para erguer as trancas amarradas com cipó, usadas como fechaduras; eram elas escoradas por um tronco grosso, que ficava semi-deitado qual guerreiro a guardar os sonhos dos moradores, garantindo, com a força de seus braços, o afastamento de qualquer intruso. Perséfone olhava atentamente a casa na qual vivera durante anos de sua vida e, em cada utensílio, achava uma estória, cada tijolo um minuto de sua vida. Ali estava seu passado e ali ficaria seu futuro.

– Entre, Perséfone! Foi você quem insistiu em vir até aqui; agora parece mesmo espantada. Será a humildade de minha casa o motivo de seu arrefecimento?

– Ora, mãe! Você, por vezes, parece esquecer que aqui nasci e vivi anos de minha vida. Com um ar inquisitivo, Perséfone voltou os olhos ao interior da casa e suas palavras traziam, em seu bojo, uma sombra de dúvida.

– Não foi mesmo isso, Deméter? Era a primeira vez em toda a sua vida que chamava a mãe pelo nome; e, ao fazê-lo, tinha no olhar aquela ferocidade que tanto assustava Deméter por não conhecer o que viria após terem cessado as faíscas de seu ódio. Deméter apressou-se em acrescentar palavras para induzirem Perséfone a outras fontes de pensamento, desviando-o de seu primeiro intuito inquisitivo.

– Agora você é uma rainha. Acostumada à riqueza, ao luxo, esse lugar deve ferir seu senso estético. E a pequena? Pobre princesa! De um castelo a um casebre de aldeã. Gargalhou prazerosa em sua afirmação eivada de maldade. Regozijava-se por sua audácia perspicaz, quando a pirralha se precipitou para dentro de casa, e com voz gentil, solenemente satisfeita declarou:

– Garanto, vovó, que estou imensamente satisfeita. A beleza não está na casa, mas na forma como ela é vista e por quem é vista. Meus olhos afirmam ser agradável o que revela seu ambiente… O sórdido gargalhar de Deméter morreu por completo. Seu rosto tinha agora uma expressão “truculenta”, bem desfavorável. Virou as costas indo até o balcão apanhar um jarro com água fresca. Perséfone entrou, sentando-se no banco da mesa de refeições, do lado oposto da janela de costas para a mesa. Foi imitada em todos os passos pela filha. Tirou o chapéu, e ajudou a Dafni livrar-se do dela; colocou ambos na mesa atrás de si. Nas mãos segurava um lenço preto de seda que remexia uma atitude nervosa. Dafni percebeu o suor da fronte da mãe, sobrepôs a pequena mão sobre as de Perséfone e sorriu largamente, um sorriso confiante com um fulgor maléfico, que não tirava o brilho e o encanto daquela boca pequena e misteriosa. Dafni pareceu, nesse momento, um espectro saído das sombras do passado, vindo de muito longe para consolar Perséfone. Era a própria imagem de Hades estampada naquele sorriso repentino e benéfico, ao qual Perséfone retribuiu agradecida.

Deméter voltou trazendo consigo um jarro de barro cheio de água fresca, colocou sobre a mesa e voltou ao armário para pegar canecas, também de barro, e um pão sem cortar, serviu, igualmente, amoras colhidas no dia.

– Obrigada mamãe! Levarei um pouco de água e uma fatia de pão a Cérbero; sei que deve estar faminto. Logo que o alimente, mandarei que traga a bagagem de Dafni, pois pretendo voltar antes do escurecer.

– Como quiser!

Perséfone cortou uma grossa fatia de pão, encheu um copo grande de água e pôs-se porta afora.

– Cérbero, trouxe comida e água! Mata sua fome e depois descarregue os baús e as coisas de Dafni.

Cérbero fez afirmação com a cabeça, ao mesmo tempo em que devorava o pão e bebia afoito sua água. Perséfone riu, dando-lhe uma advertência.

Contenha-se Cérbero! Você usa uma cabeça e está ereto sobre dois pés! Use suas mãos como um humano.

– Num gesto humilhado, Cérbero encolheu-se instintivamente, baixado os olhos de forma encabulada e triste. Perséfone, por sua vez, afagou-lhe a cabeça, levantando-a.

Não se entristeça comigo, Cérbero! Só estava tentando lembrar a forma como deve se portar nesse mundo. Devemos ter todo o cuidado, pois qualquer gafe pode nos prejudicar seriamente. Eu estou amedrontada; gostaria que Hades estivesse aqui para lembrar-me de certas coisas.

Cérbero sorriu ao ouvir o nome amado e respondeu com sinceridade:

– Onde sua sombra estiver, a de meu senhor também estará. Perséfone cabisbaixa, quase a ponto de se entregar ao pranto, procurava a todo o custo conter-se. Cérbero colocou a mão em seu ombro para consolá-la.

– Não se preocupe senhora! Logo estaremos em casa.

– Vejo que Dafni se comporta com mais iniciativa que eu.

– Os mistérios estão em seu sangue; logo ele saberá o que fazer. Assim deve ser.

– Por certo nossos destinos diferem. Aqui deixamos de andar na mesma estrada. De certa maneira sinto que passo meu fardo para seus ombros.

– Senhora! Nada pode ser feito! Agora deve voltar e cumprir sua tarefa. Sua mãe já está a desconfiar de sua demora.

– Vê! Ainda preciso que sinta o que devia eu sentir.

– Logo estará preparada. Agora vá!

Perséfone, obediente adentrou a casa com ar tranqüilo. Desvencilhou-se de insinuações de Deméter, ignorando o cinismo das palavras lançadas ao vento, aqui e acolá, na única intenção de ferí-la ainda mais.

Cérbero surgiu na porta, carregando dois grandes baús. Foi, então, que Dafni se deu conta que a mãe estava prestes a partir.

– Cérbero, deixe os baús enfileirados junto ao balcão. O servo obediente trouxe um a um os baús, enfileirando-os como lhe foi ordenado; ao todo dez grandes baús de carvalho, com fechadura de ouro maciço.

– Mãe!! Essas são as vestimentas de Dafni. Perséfone apontou para um pequeno e humilde baú nas mãos de Cérbero.

– Onde posso deixá-las?

– Deixa ao lado da mesa!! Depois arranjo outro lugar. Deméter não disfarçou nem um instante sua curiosidade, com olhar abismado de boca semi-aberta, esperava, com ar embasbacado, uma explicação.

– Mãe! Isso lhe pertence. Perséfone tinha nas mãos um pequeno baú, similar aos grandes; entregou à mãe que segurou com mãos trêmulas o pequeno tesouro, fitando-o imóvel e aturdida. Dafni falou alegremente:

– Este não tem cadeado. Abra-o, vovó. Deméter, sob o efeito hipnótico da surpresa, não contestou a menina; ao contrário, seguiu fielmente sua voz. Soltou um grito diante do brilho ofuscante saído da caixa.

– Por Zeus…, são moedas cunhadas a ouro. Num gesto rápido pôs o baú sobre a mesa, pegou uma das moedas mordendo para ter certeza de que não eram falsas. Dava saltos de felicidade, para de repente tornar a si. Dirigiu seu olhar primeiro a Dafni, depois a Perséfone.

Perséfone respondeu a pergunta muda de Deméter:

– Sim, mamãe, é todo seu! Não pertencem a Dafni, bem como os baús são presentes de meu marido que manda seus respeitos, oferecendo humildemente seus préstimos. Aqui estão as dez chaves. Abre-os somente quando já tiver partido. Esse foi o desejo de meu senhor.

Deméter segurava as pequenas chaves de ouro como quem não acredita na própria sorte. Guardou-as no bolso de seu avental, demonstrando com seu gesto ter acedido ao desejo da filha. Por um milésimo de tempo, uma dúvida assolou sua alma. Como coube tanta coisa em uma só carruagem? – perguntou em voz alta, com o risco de acordar, ao som de suas palavras, daquele sonho confuso. Correu porta afora, sem esperar resposta. Viu outra carruagem aberta; puxada por doze puros-sangues; tinha quase doze metros de comprimento.

– Onde estava? – perguntou-se a si mesma. A resposta de Perséfone foi ouvida atrás de si:

– Aqui mesmo!

– Como?

– O primeiro lugar ao qual viemos, foi este. Deixamos então o carro de carga atrás da casa para surpreendê-la.

Deméter convenceu-se da veracidade das palavras da filha, voltou para dentro da casa, sentando-se pensativa na escada de madeira.

– Com essas moedas de ouro poderei comprar minhas próprias terras.

Perséfone calou-se a respeito do comentário da mãe, passando imediatamente a outro assunto.

– Mãe! Meu marido manda que lhe faça um pedido.

– Faça-o!

– Gostaria que Dafni fosse educada pelos sábios das grandes montanhas.

– Como? Ninguém sobe o rochedo sem o conhecimento prévio dos monges.

– Leve-a quando caírem os primeiros flocos de neve de Janus. Estarão a esperá-la.

– Por que eu o faria?

– Dafni corre grande perigo se não for iniciada. Não somente ela. Bem sabe! Não terá gasto nenhum, pois meu marido arcou com todas as despesas. Ao levá-la, basta arranhar a rocha com um pedaço de metal três vezes e descerão o cesto para levantá-la até o templo.

– Como terei certeza que a devolverão a mim?

– Todo o primeiro dia de Janus, deve esperá-la ao pé da colina. Ela descerá como sinal, que continua a ser sua propriedade.

Deméter calou-se. Perséfone sabia, pelo seu olhar, que o pedido tinha sido aceito. Não por bondade, mas sim pelo medo do que poderia acontecer no futuro se Dafni não fosse iniciada a tempo. Deméter já tinha uma recordação desagradável a esse respeito com Perséfone. Não correria o mesmo risco, assim pensava a filha. Como para quebrar a gravidade de suas lembranças, Perséfone perguntou a mãe onde estavam os irmãos. Deméter sobressaltou-se raivosa.

– Como ousa referir-se a meus filhos como seus irmãos? Esqueceu as leis? O sangue deles foi purificado. Nenhum laço os une. Somente eu continuei amaldiçoada; meu sangue corre por suas veias, nada pode mudar isso. De meus filhos, nem a sombra jamais verá; essa é a lei.

– Perdoa-me, fui insensata. Um silêncio mortal tomou conta do ambiente. Por minutos intermináveis, o grito do ódio da mãe sobrepunha-se à humilhação calada da filha. Forças opostas digladiavam-se no ar; nem olhos nem sons poderiam manifestar a fúria das sombras do passado, intrépidas levantam-se de suas tumbas num clamor de vingança.

O que é o tempo? Uma sucessão de ações? Um movimento posterior tornaria nulo a anterior? Se o fossem, não o era naquele reino; o passado nunca era menos importante que o presente. Por uma lei estranha, regendo aquele universo, o presente não delimitava o futuro, mas o passado. Os atos congelados não impediam o movimento da vida; porém saíam como fantasmas vivos a cobrar um futuro, um corpo, uma vingança. O primeiro brado de vida seria o mesmo da morte. Naquele mundo, a vida girava em círculos; o fim era sempre o começo. Por mais que se andasse, voltava-se sempre ao lugar de origem e mesmo em seu último suspiro, a vida cobraria todos os erros cometidos. Era impossível fugir desse retorno sem o pagamento exigido pela vida ou pela morte.

Perséfone livrou-se do devaneio que a envolvera. Falou com voz suave que pareceu retumbar pelas colinas de seu passado enevoado pela dor, chegando ao presente não menos doloroso que delimitava o futuro, sem entretanto cortar o cordão das imagens do passado.

– Devo ir. Já se faz tarde. Dafni, venha até aqui!

– Dê-me um beijo! Mãe e filha trocaram um abraço caloroso, seus lábios permaneceram fechados. Olharam-se com alegria, uma estranha felicidade que não cabia no momento.

– Adeus, mamãe! Ficarei muito bem, leve-me sempre em seu coração. Lembre-se onde eu estiver, estará comigo.

Perséfone levantou-se, colocou a mão esquerda sobre o peito, segurando o lenço preto junto do coração.

O mesmo fez Dafni. Ambas trocaram os lenços em um estranho ritual.

Perséfone voltou o olhar para a mãe.

– Adeus! Acredito ser esta a última vez que nos vemos.

– Sim. Adeus! Diga a seu marido que farei o que me pediu!

– Agradeço em seu nome. Virou as costas e saiu sem olhar para trás. Ouviu-se o galopar rápido dos cavalos. Um silêncio tumular adentrou a casa. Um vento gelado com cheiro de hortênsia invadiu o interior da casa durante uma fração infinitesimal de segundos. Deméter encolheu-se como quem leva uma forte chibatada.

Dafni sorria como quem recebe um último afago da pessoa amada. Não tinha idéia do que fazia ali; porém sabia que logo descobriria e encontraria, de certo, forças para enfrentar seu destino e mudá-lo se preciso. Lembrou-se do velho da batina, que certa vez a levara a passear em um bosque próximo ao castelo e resolvera voltar sem concluir o passeio. Ela havia protestado com veemência, e o velho, paciente, apontou a céu carregado de nuvens negras. Vê, disse ele, em sua empolgação pelo passeio esqueceu as precauções necessárias. Quando saímos, o sol brilhava e agora prepara-se para descarregar grande quantidade de água sobre nós. Se seguíssemos teríamos que atravessar a ponte, e, ao voltar, o rio estaria transbordando como sempre acontece. Teríamos que passar a noite no bosque o que não seria nada agradável. Nunca se esqueça pequena, de observar o céu, o tempo, o clima, a chuva e a vida. Vêm e vão muito rápidos. Por descuido de poucos minutos poderá valer-lhe uma existência de reparos. No dia nada entendera; porém agora entendia, com clareza, as palavras do velho.

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