Além do Olhar – Capítulo XIII – Parte 3

Além do Olhar – Capítulo XIII – Parte 3
Psic. Odegine Graça

Submersa jazia a cidade fantasma. A Máquina descobrira toda artimanha. Tentava, a horas, ultrapassar o sólido campo isolador, levantado por Dafni que impedia que esta alcançasse os fugitivos. Tentou sugar as células dispersas de energia; mas foi inútil; essas tinham vida e resistência, não se deixando englobar. Uma voz de cobre ressoou maléfica e furiosa.

— Quem ousa desafiar o poder da vida?

— Poder da vida enquanto você tem vida! Sua sentença é revogável; a vida é dada independente como o soprar dos ventos; apaga-se como o sol, nunca para sempre; apenas esconde uma face da terra e ilumina outra. Porém, ninguém rouba o brilho do sol ou aprisiona o vento. Assim pode você ter o poder, mas nunca a vida na pura essência.

— Eu sou aquela que cria e destrói! Não existe nada que eu não controle. Esses seres medíocres não são necessários à minha sobrevivência, mas sim eu a deles. Eu, penso por eles, eu os alimento, direcionou seu caminho, escrevo as pautas de suas vidas, e toco a nota final.

— A quem pensa enganar? Não são humanos que morrerão e sim, você. Acaso não se alimenta da energia de seus corpos?

— Eu os criei de seres desprezíveis, sem nenhum fim que merecesse vida! Eu lhes dei a honra de servir-me. Seus cérebros são facilmente controláveis, de corpo frágil, propenso a doença. Não tem equilíbrio corpóreo. Independentes, deixam que emoções animalescas os controlem, indo contra toda a razão e cometem absurdos sem explicação. Qual o fim maior de um homem, se não servir? Suas vidas inúteis ganharão utilidade, alimentando-me, o maior cérebro de todo o universo.

— Seu universo é restrito! Resume-se nesses túneis. Seu poder é tão limitado e cego que nada vê. Os mistérios do homem vão ao infinito; uma partícula de sua vida vale mais que todos os seus fios. Em seu sistema não há sabedoria, pois está estática, envolta num pequeno mundo que julga acabado, intransponível, universal e imutável. A grande Máquina, o cérebro dos cérebros, nada significa ante a amplitude do universo misterioso e desconhecido.

A diferença entre você e os seres humanos é que estes não estão acabados; galgam os mistérios do além dos olhos, ampliam-se e crescem, tem a sua frente uma estrada infinita de conhecimentos. Você é um ser acabado. Agora extinto!

Dafni centrou toda sua força no talismã, invocando com voz retumbante o espírito da força dos deuses:

— As três forças da terra centrem-se em você, ó Zeus, deus da luz das terras verdes e floridas! Escute a voz de sua serva e guie este povo, de outros tempos, aos seus domínios. Para você não existe passado ou futuro! As correntes das dimensões rompem-se ante sua presença. Pai da terra da luz, desafie agora o dragão de metal e salve os homens de seu domínio, pois é embaixo de suas asas que devem repousar e dos seus rios devem beber, enquanto for tempo para isso.

Uma fresta abriu-se no tempo. O dia ensolarado e quente tomou forma de um véu de luz. Do céu irrompeu o carro do sol, dirigido pelo próprio Zeus, em todo seu esplendor; freou os cavalos, fazendo uma rua de fogo em toda a amplidão da terra. Zeus tocou com seu cajado da justiça, abrindo a terra. Tirou seu Manto e, lançando-o no ar, fez uma grande sombra sobre os homens que saíam do ínfero, protegendo os da luz à qual não estavam ainda preparados para encarar. Um a um saíram da prisão, aconchegando-se sob o Manto protetor de Zeus.

Dafni, então, invocou a segunda força do talismã;

— Acordem as águas das fontes pequenas aos mares bravios, mares tomados por terras, águas que morreram no seio dos tempos! Acordem seu mestre! Posseidon, sacudidor da terra e do mar, invoco sua justiça! Sai da névoa dos séculos e vinga com sua mão direita com a justiça de seu tridente! Julgue, nesse abissal, o usurpador de seus domínios.

Os oceanos, os mares e os rios sacudiram a terra. O nume saiu de seu palácio de ouro do fundo do mar erguendo, sobre as eras, os séculos, viajando entre o eterno, surgiu, em toda sua furiosa beleza, ao lado de Dafni.

Com voz de águas bravias, perguntou:

— Quem ousa desafiar o poder do reino de Posseidon?

Dafni respondeu, ao mesmo tempo em que reunia suas células de energia, tomando forma aos olhos do nume:

— O dragão de metal que vê à sua frente e que diz ser o criador, o dono do poder da vida. Bem sei que a vida está em suas águas, em suas mãos justas! Nunca deixou de negar a terra o Pão do homem. Este que se diz deus, trancafiou a muitos, e os alimentava daquilo que não é pão, e se alimentava de suas vidas. Julgando que o bem maior do homem, sua felicidade suprema, seria acabar em sua garganta. Julgue, ó Posseidon, agora tal caso! Posseidon voltou-se furioso para a gigantesca máquina.

— Proferida foi a acusação pela justiça do Olimpo! Tem direito a defender-se!

— Meus registros afirmam ser sua imagem uma ilusão. Eu crio ilusões bem mais reais; nenhuma criatura pode destruir-me, seja real ou virtual. Dou-lhe uma palavra.

A máquina desprendeu de si uma grande quantidade de energia, criando luzes e cores destrutivas; ventos remexeram a cabeleira do nume, a energia. Colorida perpassava seu corpo como fios de espadas cortantes. A luta começara.

Posseidon, em toda sua fúria, ergueu o tridente da justiça, as águas dos tempos e a magia dos séculos tornaram-se vivas; invadindo os túneis com toda sua força, destruindo a máquina fragmento, por fragmento, não restando um só pedaço de fio ou metal. O túnel tornou-se um grande lago de fogo, e mesmo o chumbo das paredes era derretido. O lugar esvaiu-se em dimensão desconhecida, onde nem homem nem deus jamais adentraria. Com a mesma fúria que veio, foi. E Posseidon desapareceu na obscuridade dos séculos.

Dafni, abandonada nas lavas do vulcão, gritou à terceira força, quase desfalecendo, pois as duas dimensões que invocara, abriram as barreiras do tempo e espaço e ela encontrava-se entre as duas; ambas tentavam sugá-la, extinguindo aos poucos suas forças. Sabia do perigo que corria, caso não conseguisse proferir as palavras que abririam a terceira porta, levanto-a novamente ao seu lugar de origem.

Ficaria perdida na obscuridade dos tempos, em fragmentos de energia; seu corpo seria dissimulado e cada célula seria jogada numa dimensão e em tempo diferente. O talismã ficaria perdido no caos e as portas do tempo estariam abertas. Isso desencadearia uma catástrofe maior do que a que acabava de evitar, pois todos os titãs e gigantes presos no tártaro estariam livres; certamente invadiriam tempos e lugares diferentes. As fúrias tomariam conta de toda a terra. Gotejando sua vida bradou:

— Deus da morte, acorda! Vem de suas sombras silenciosas! Socorre sua filha que se afoga no Estige! Tenho sede e bebo das águas do Aqueronte; minhas lágrimas inundam o Cocito; o Piriflegetonte queima minha alma, e logo adentrarei ao Letes e submergirei em suas águas.

Hades, você que era o deus das sombras, até conhecer a luz do amor de minha mãe e gerou a mim, filha da morte e da vida, clamo, agora, pelo seu nome! Restitua-me a luz branca do mundo! Feche as portas do tempo para que os vivos não adentrem ao seu reino pela desgraça da desordem e o caos, e não se propague por todas as terras.

Hades sobressaltou-se. Com o ecoar da voz da filha, Cérbero mexeu as cinqüenta cabeças, soltando um uivo que estremeceu os túmulos e fez encolher as Erínias.

Perséfone correu ao encontro do marido e seus olhos mostravam a ansiedade da mãe que julgava perdido o fruto de seu ventre.

Hades abriu os braços e, seguindo seu gesto, todo o reino do ínfero abriu-se, soltou Cérbero pelo túnel do tempo; ele saiu em desabalada carreira, correndo mais rápido que a morte e ultrapassando os limites do não ser, alcançou Dafni em sua última fava de vida e a trouxe novamente ao seu tempo. A medida que Cérbero corria, ultrapassando as barreiras do tempo, as dimensões ordenavam-se, e, ao pisar no reino de Hades, este fechou os braços, e as portas do tempo foram fechadas e as dimensões ordenadas.

Dafni abriu os olhos num lampejo. Fechou-os novamente. Gotículas de orvalho brincavam em suas pestanas; levou as mãos aos olhos, enxugando-os. Ao clarear a vista, sentou-se aturdida; lançou um olhar demorado a sua volta, perscrutando cada ínfimo objeto, procurando uma lembrança, algo que a conectasse ao mundo onde agora estava lançada. Levantou a cabeça, avistando um correr de nuvens assustadas pelo vento, grávidas de chuva. O sol esmaecia; aparecia de quando em vez, entre uma fenda e outra do véu escuro rasgado, do qual a noite próxima se faria acobertar.

Dafni encolheu-se ante uma rajada rápida e fria de vento, encolhendo seu corpo moído, oferecendo-lhe seu abraço próprio. Estava assustada, sozinha num campo deserto que a seus olhos tendiam ao infinito. Deixou aflorar de si a criança que há muito esquecera, e chorou, amargamente, um pranto agudo e alto. O céu repartiu-se num relâmpago, invadindo a noite escura que caiu abruptamente. A menina, num salto instintivo, pôs-se de pé e lançou-se campo afora, correndo em desespero; chorava e gritava pela mãe; era somente uma garotinha assustada e perdida, a qual os ventos e a chuva, desapiedados, não se cansavam de açoitar.

— Chega, gritou Perséfone, pondo-se em pé, altiva e furiosa, à mesa dos deuses. Não continuarei a ver minha filha castigada, sem memória sem proteção.

Hera ergueu-se, num desafio, impedindo que Zeus assentisse ao pedido da bela rainha do inferno. Como sempre, seu ciúme destrutivo falava mais alto que a voz da justiça que todos os numes carregam em si. Hera, há muito, trancafiara todos os seus atributos divinos e deixava livre de seu ser somente a inveja e a destruição de uma mulher, comparada a mais vil mortal; a alma de Hera ganharia em atributos negativos. A força de seus ciúmes possessivos estava prestes a destruir o Olimpo por um simples capricho de a ela ser atribuída a última palavra. Mirou Perséfone com um olhar furioso; ambas confrontaram-se no entrecruzar de raios lançados ao ar; seus olhares iam num insípido desafio, erguendo-se livremente sobre os ombros, que ambas exalaram do corpo e libertaram-se do cuidado de servi-lo.

— Minha cara Perséfone! O que determina a hierarquia é a aptidão para sofrer profundamente.

— Deixem-na, Hera! Ou travarei uma luta direta com você, ou não descansarei enquanto não sugar de seu corpo até a última fagulha do fogo divino da vida. A chama que nunca se apaga em sua essência divina, tornar-se-á seu martírio eterno, pois fá-la-ei queimá-la, célula por célula, até que sua natureza incorruptível se desvele, mostrando que não você passa de uma deusa falsa. E tão humana, Hera, quanto a mais degenerada das mulheres.

O Olimpo tremeu com a fúria de sua rainha. Nunca deuses ou homens tiveram tamanha coragem. Desembainhar a espada contra a prima-mãe, esposa do pai de todos os numes, era por certo morte terrível, não somente a quem ousasse no desafio mas até a última geração sofreria os suplícios do crime de seu antepassado. Os numes entrecruzaram um olhar impregnado de pavor; até Hades estremeceu pelo destino da mulher. Perséfone, porém, permaneceu impassível, com o mesmo ar de desafio; seu corpo enrijecido estava pronto para combate. Extasiados os deuses permaneciam imóveis, alguns julgando ver, diante de si, a própria moira encarnada em Perséfone; outros conjecturavam sobre a fonte de tamanha força. O quadro permaneceu sem a última pincelada por muito tempo, de deuses, não cronometrado, até que Hera precipitou-se sobre Perséfone como fera febril:

— O mundo é a minha representação. Todas as forças do Olimpo subjugo. Os homens tremem ao ressoar meu nome. Sou filha de Cronos e mulher de Zeus. E você, qual é sua origem? Com um sopro de meu ódio destruo-a. Isso seria benevolência, visto o insulto que me profere. Sendo assim, arrancarei seu coração, destroçá-lo-ei; vestirá trapos e clamarás misericórdia a mim, enquanto, de meu trono, aprecio, deliciando-me, seu sofrimento.

Hera virou-se para a imagem de Dafni erguendo a mão para desferir seu golpe contra a pequena. Sentiu seu corpo chamejante, suas vestes queimando pelas chamas provindas dos olhos e mãos de deusa do ínfero.

Perséfone transformara-se numa fonte de força da qual nenhum titã do profundo tártaro ouviu ou jamais viu.

— Deixe-a, Hera! Ou acabo com você, nem que para isso destrua todo o Olimpo. Desencadearei uma guerra contra seus seguidores, contra os seus templos. Libertarei todos os gigantes e demônios do ínfero e os atirarei contra os seus.

Hera recuperou-se do imprevisto e atacou Perséfone com uma tempestade de gelo seco; cruzaram-se num combate intempérie de forças profusas. Nada se podia compreender. Os céus, o reino da luz, personificava Hera; lutavam pelo poder em si. Perséfone e suas chamas infernais arriscavam-se pela vida da filha. No fogo e no gelo daquela luta tempestuosa, bem e mal fundiram-se, e nenhum nume saberia qual era o rosto verdadeiro dos atributos, até então a olho nu desvinculados. Bem e mal só careciam duma determinação motivada para seus atos isolados e em cada ocasião dada. Ali, efetivamente, a falta de objetividade, a ausência de qualquer limite era essencialmente próprio da vontade da deusa do Olimpo, era uma aspiração sem fim. Toda vontade é vontade de qualquer coisa, tem objeto, um fim de seu querer. Que pertence pois, finalmente, ou que aspira essa vontade? Para Hera, tudo resumia-se no princípio do poder absoluto e tirânico, um eterno “devinir” para seus caprichos e maldades; com faceta de bem, via-se entre mil esforços e anelos que fazem seus olhos espelhar a realização deles, como se esse fosse o fim último de sua vontade, de sua sede de vingança; mas, desde que os via realizados, não se satisfazia; esquecia logo seus feitos maléficos; suas vítimas envelhecidas eram postas de lado como ilusões desvanecidos; não obstante, corria a confessar, muito feliz, suas vitórias pelos templos e cumes do Olimpo. Seu espírito tinha sempre uma aspiração a alimentar, a fim de que o jogo da perpétua passagem do desejo a sua realização e desta a novos desejos, passagem que se chama felicidade quando é rápida, que se chama sofrimento quando lenta, pudesse continuar por muito tempo e jamais chegue à estagnação, fonte dum formidável tédio que paralisa a existência de pesares vagos, sem objeto determinado e duma languidez mortal. Uma deusa jamais poderia sentir-se morta; sem adoração amorosa, frustrada e trancafiada em seu egoísmo, Hera nada via além de um único ângulo; movia-se pela vontade pura que rege os animais sem consciência, e numa armadura luzente, escondia a podridão dos mortais e a inaptidão do conhecer-se; a repulsa de seu reflexo fazia com que quebrasse todos os espelhos, criando, nos numes e homens, a ilusão da imagem perfeita a qual enganava a todos, menos a si mesma.

Exposta naquele desafio, mais do que nunca necessitava destruir, ganhar seu jogo, não importando o preço e nem as vidas que seriam sacrificadas para tanto. No confronto, ora tornava-se luzente e bela, ora serpenteava frente a Perséfone, com o rosto de Deméter. O Olimpo tremia. Uma erupção estava por vir a qualquer segundo. Em dado momento, a serpente, com face da mãe, enrodilhou Perséfone por inteiro num golpe súbito e traiçoeiro, esmagando-lhe os ossos entre gargalhadas e espumando veneno Perséfone, sufocada, dirigia o olhar à filha chorosa que esmaecia pela dor do vento gélido no campo de esquecimento.

Hades levantou-se num raio mortal atingindo a cabeça da serpente, degolando-a. Ao rolar pelo chão, a cabeça de Deméter tomou sua forma original; seu corpo desfaleceu junto à cabeça. Perséfone desvencilhou-se do braço último da mãe. Então Minerva lúcida acordou os demais para a armadilha.

— Vejam! Apontou para o campo de esquecimento, onde Hera esta prestes a agarfalhar Dafni. Ela ludibriou a nós todos; enquanto Perséfone enfrentava a grã-sacerdotisa, ela corria seu objetivo; Dafni.

Zeus rugiu exasperado e ferido em sua honra.

— Chega! Volte, Hera! Ou a jogarei junto aos titãs para toda a eternidade.

Hera estremeceu com um som trovônico da voz do marido. Zeus tornou-se um imenso corvo, voando até o lugar onde se entravava a chacina; e entre trovões e raios provocados por sua fúria, apanhou Hera em suas garras e a trouxe à sala do Olimpo. Jogou-a numa gaiola de ouro e trancou-a, engolindo a chave.

Hera tentou arguir num protesto. Zeus, com um gesto, tirou-lhe o som da voz. Esta em desespero debatia-se, muda em sua gaiola de ouro. Zeus dirigiu um olhar a Posseidon e o mesmo num instante transformou-se em densa nuvem abarcando a gaiola, levando-a para o fundo do mar egeu, no mais profundo calabouço do seu castelo de ouro. Lá ficaria a deusa do Olimpo, até que Zeus decidisse por findar seu castigo.

O grande nume transportou Dafni para junto de si. Ao vê-la, Perséfone correu ao seu encontro, num prolongado e amoroso abraço. Hades seguiu a esposa aconchegando mãe e filha com calor; o frio da morte foi extinto naquele abraço.

Zeus, comovido com a cena, tomou ciência de que o mundo jamais seria o mesmo. Aquela pequena criatura venceu o tempo e a fúria dos deuses, salvou o futuro, cumprindo sua tarefa. Resgatando a Herança da vida sobre todas as barreiras. A filha da morte, trouxe a luz da vida e a dignidade perdida dos numes.

— Dafni, venha até aqui! Zeus, em seu trono, olhou a frágil figura da menina, ditando seu destino. Já é uma mulher e, sábia, venceu todos os obstáculos de seu caminho. Agora caberá assumir a posição merecida.

Dito isso, transformou a pequena garota em uma linda mulher. Muito semelhante à sua mãe; porém seus olhos eram negros como os longos cabelos; a figura, alta e imponente, além da beleza das musas, carregava, em si, a sabedoria dos tempos, a alma marcada de quem adentrou os caminhos dos mistérios e regressou dos pedregosos, das dimensões. Tinha ela os olhos que vêem além da matéria, perscrutando a alma dos homens de todos os tempos. Zeus, então adornou-a com a grinalda de ouro, entregando-lhe o Manto e cetro do poder destinado ao mais sábio de todos os magos. Era ela agora a grã-sacerdotisa, a regente de toda a magia, de todos os mistérios. Viveria isolada, em seu templo, que ficava em todos os lugares e em nenhuma dimensão ou tempo. Dafni fez uma reverência a Zeus, levantou-se e beijou seu pai, afagou os cabelos da mãe e desapareceu num raio de luz, assumindo seu trono sagrado.

Hades e Perséfone voltaram ao ínfero; porém, este já não era um mundo silencioso e lúgubre; havia sons melódicos no ar e a escuridão gélida tronara-se luz cálida. A cada habitante do reino foi imposta um tarefa e, conforme as executasse, atingiria um salão mais iluminado até que, totalmente regenerados, pudessem atingir o reino da luz e da perfeição.

A morte não era mais o fim, mas simplesmente uma passagem, uma vida além da vida, uma escala de aprendizagem, onde o homem teria a chance de adquirir os olhos que realmente veem, a paz que sonhou nos dias terrenos e as trevas da angústia deixaram de ser perpétuas. A esperança renasceria a cada dia. E, na morte o homem apenas adormeceria para um mundo que já venceu seus suplícios, renascendo a esperança do justo que renunciou a moeda de ouro, preferindo a água para matar a sede de seu próximo. Bem como ao que só viu a si, usufruindo de seus bens e dos homens como bem lhe aprouve a satisfação dos sentidos, escarnecendo do humilde, dizendo-se rei, sábio conhecerá os frutos da árvore da angústia e o fel será seu alimento. A cada um será dada a moeda que merece, e Caronte já não receberá o óbolo, transportando todos pelo rio do silêncio; mas cada moeda levará o homem ao seu destino; quem entrega ouro, navegará um pouco mais. O bronze levará as águas da dor e o falso ouro ao desespero das águas do regresso. Porém, a escolha prevalece! A liberdade do homem pode levá-lo às águas dos mistérios que carregam os bem-aventurados à margem segura do conhecimento desvelado, ou ao barco de Caronte para o rio da dor, das lamentações, do esquecimento e do desespero.

A cada um, (o que é devido) plantar trigo resulta na colheita do mesmo. Plante trigo resulta na colheita do mesmo. Plante espinhos e os ceifará!

 

Artigos Relacionados