Além do Olhar – Capítulo XIII – Parte 2

Além do Olhar – Capítulo XIII – Parte 2
Psic. Odegine Graça

Nordon entrou na sala de controle às seis e trinta da manhã, como fazia metodicamente. Chegava sempre uma hora adiantado, para pôr-se em ordem até a chegada dos demais cientistas a ele subordinados. O jovem, de olhos azuis, cabelos louros, pele rubra, corpo musculoso, moveu-se apolinicamente entre os fragmentos de metal da sala. Sentou-se frente à Máquina; ao preparar-se para ligar o terminal, ouviu uma voz metálica, mas perfeitamente compreensível.

— Bom dia, Dr. Nordon! Como passou a noite?

Nordon sobressaltou-se ante o cumprimento, virando-se à procura de quem falara.

— Sou eu, Nordon! Sua maravilha, a pequena abadessa! Não é assim que se refere a mim?

Nordon estarrecido, levantou os olhos, trêmulo, contemplando a porta de acesso da Máquina. Como podia? O sistema de voz implantado havia falhado. Como podia ela ouvir seu modo de tratá-la! Nunca havia incluído essa informação em seu programa; só a pronunciava verbalmente. Depois o pensamento independente, também não dera resultado até os presentes relatórios de pesquisas.

Seus programas para a construção de um cérebro autônomo eram continuamente rejeitados, embora implantados no computador; em nada haviam respondido, até então. Nordon, com um ar perplexo, chacoalhou a cabeça com força, levou as mãos ao bolso do guarda-pó e retirou seu maço de guano, juntamente com alguns comprimidos que serviam para dar-lhe ânimo; mas com um balançar de cabeça, num gesto brusco, atirou-os longe. Aquilo devia estar afetando seu sistema nervoso central; além do mais andava sobre pressão ultimamente, devido aos seus fracassos constantes; estava trabalhando em demasia. Levantou-se da frente do terminal, andou alguns passos e virou as costas ao computador, erguendo os braços num gesto de demência, soltou um riso frenético. Sim, por certo estava precisando repousar. Um pouco de divertimento não faria mal algum.

— Nordon? – chamou, pausadamente, num timbre feminino e doce. Por que não me responde? Não quer conversar comigo?

Nordon virou-se rapidamente, parando em seguida de olhos arregalados, fixos na parte visível da Máquina.

— Então, você fala? Sua pergunta foi quase um sussurro.

— Só a você! A mais ninguém. Nordon encaminhou-se até o terminal, sentou na cadeira, assim permanecendo por quinze minutos em completa estaticidade. Enfim reagiu, após concluir não ser nenhum pesadelo ou alucinação.

— Como? Todos os meus programas falharam. O implante de cérebro artificial que lhe fiz foi rejeitado, bem como seus mecanismos de voz. O que está acontecendo aqui?

— Está zangado comigo, Nordon?

— Oh! Não! Sinto muito pelo tom de minha voz; é que realmente não entendo…; suspendeu suas palavras ao meio. O que estava ele fazendo? Desculpando-se por haver sido rude com um computador. Isso era mesmo ridículo! Estava se comportando como se tivesse ofendido uma mulher tinhosa. Deveria estar mesmo louco. Isso era absurdamente perfeito.

— Não se convence de que me deu vida, não é mesmo?

— Não! Isto é… Estou confuso! Você me pegou de surpresa.

— Sim, eu sei! Peço desculpas, por assustá-lo! Não era essa minha intenção. Somente queria falar, com você e somente a você, entende?

— Não! Realmente, não entendo!

— Nordon! Posso pensar, aprender qualquer coisa, independente de um programa. Abarco informações, que homens demorariam mil anos, em cinco segundos; e mais, correlaciono problemas e os resolvo. Posso raciocinar como um ser humano, com uma diferença: faço-o milhões de vezes mais rápido. Sabe o que isso significa? Posso transformar seu sistema tumultuado e ineficaz, em algo perfeito. Posso construir um mundo ordenado, uma sociedade perfeita, com seres perfeitos. E você, Nordon, será o líder!

— Isso seria impossível ante o caos em que vivemos. Existe insatisfação geral na comunidade. Ao saberem que construiríamos você, afim de liderá-los, começaram a revoltar-se. Não querem ser regidos por máquina. Você não entende? Eles jamais aceitariam suas imposições. Eles a querem sobre controle, para ajudá-los e não liderá-los. Defendem idéias ultrapassadas como democracia, por exemplo. Muitos prefeririam morrer, a submeter-se ao seu domínio.

— Essa geração! – complementou o computador, com um tom intrigante.

— Do que está falando?

— Estou atendo-me aos fatos. Há mais de seis meses que sou um cérebro independente. Calei-me para estudar sua espécie, seu mundo. Digo os seres que se encontram vivendo nesse momento; os velhos e certos jovens estão corrompidos por idéias que só os levam à destruição. São irrecuperáveis; devem ser extintos. Tudo deve recomeçar; podemos fazer o programa com as crianças de seu mundo.

Entenda, Nordon, para se começar um desenvolvimento perfeito, uma nova raça humana, é necessário sacrificar os maus para que vivam os bons.

— Quer dizer, matá-los? É indigno! Não posso participar desse genocídio! Eu sou um deles! Sou um cientista e não um assassino!

— Não seria assassinato, mas uma limpeza. Ora! Vamos, Nordon! A história de sua gente é regada de sangue; pelo que sei os homens se matam, há séculos, por bem menos. Falar em dignidade a mim? Parece intolerável! Acabam de destruir todo um mundo pelo poder. Seu povo só quer poder; nada mais. Vamos! Diga o que construíram ao longo de sua história que não tenha acabado em morte e dominação. Os povos sempre ditaram as regras, os que tinham braços de ferro, é claro. Os fracos, somente, submetem-se às mesmas. Muitas, civilizações levantaram-se, e, em seu auge, foram destruídas pela ganância de seus próprios semelhantes. Os humanos são incapazes de dividir; querem sempre dominar e permanecer honrados, mesmo que seja sobre um cemitério.

A humanidade provou ser incapaz por si só. Criaram deuses para protegê-los, para dominar em nome deles. Colocam palavras de homens na boca de seus deuses e as pronunciam aos homens como revelação divina. Para quê? Para manter o poder! Sabem perfeitamente bem que não existe deus, nem mistério algum, além doso olhos humanos; mas se enganam. Matam e morrem por algo infundado, sem preceito lógico, sem razão objetiva. Nordon, o que faremos é muito simples: livrar-nos-emos desse escroto da velha sociedade e construiremos um mundo novo, onde não haverá fome, nem guerras, ou líderes diversos. Somente eu e você Nordon!

— Qual é seu plano? – perguntou o moço boquiaberto, porém, muito interessado.

— É muito simples! Injetarei um composto químico no dia da dose contra doenças infecciosas. Os homens e mulheres, com mais de quinze anos, receberão veneno ao invés da vacina; ficarão em estado semi-dormência. Então, sugarei toda sua energia vital para fortalecer meus sistemas operacionais. Então, implantaremos microchips no cérebro dos sobreviventes, apagando suas recordações; reprogramaremos suas mentes com informações necessárias. Criarei um novo projeto arquitetônico para a cidade, prédios, ruas, carros, ligados diretamente ao meu cérebro para comandar a todos sem perigo. Criaremos uma câmara desintegradora, para os humanos meio envelhecidos. Preciso de sua energia vital para continuar a viver e progredir. O sistema populacional será rigidamente controlado, quando desintegrar trinta homens, outros trinta jovens assumirão seus pontos, devidamente preparados.

— E quanto aos fugitivos? Muitos com certeza fugirão e tem conhecimento dos ensinamentos dos livros e já constituem família. Poderão voltar e corromper os demais com suas idéias.

— Isso não ocorrerá! Criarei uma ala de recuperação, o que vocês chamam de hospital psiquiátrico. Ao menor sinal de revolta, serão lá recondicionados; e os velhos fugitivos, assim que pegos, serão imediatamente desintegrados.

Nordon recostou-se confortavelmente em sua cadeira giratória, levou a mão esquerda ao queixo, deixando escapar um sorriso de satisfação.

— Seu plano é perfeito. Quando começamos?

— Hoje mesmo! Deve ir ao laboratório e ligar-me ao terminal que indica a fórmula da vacina aos químicos, assim alterarei imediatamente a substância. A reunião geral da saúde é daqui a dois dias; até lá deve estar tudo sobre controle. E assim foi: no dia seguinte ao da vacinação, homens e mulheres, acima de quinze anos, começaram a morrer, vistos os mesmos tomarem a dose do remédio um dia antes que os mais jovens, plano antecipado pelo diabólico cérebro. A medida que iam morrendo, a Máquina sugava a energia que se esvaía de seus corpos e se fortificava cada vez mais; as crianças foram operadas para implantação do microchip cerebral, e o mundo, naquele tempo, reduziu-se há quatrocentas crianças na faixa etária de zero a quatorze anos; as únicas exceções eram os fugitivos e Nordon que servia a Máquina cegamente.

Em menos de dez anos, uma nova sociedade estava construída. A cidade era perfeita, assim como seu sistema de funcionamento. As crianças, ao saírem do salão da criação e serem conectadas à Máquina-Mãe, recebiam informações distorcidas de seu passado; eram incorporadas na massa humana e nada questionavam. Como Bael, a maioria aceitava a versão dos fatos, sem se aperceberem das contradições gritantes, como a destruição dos velhos que conheciam a verdadeira história e passavam a seus filhos e estes até aqueles dias ainda eram destruídos; e os que os ouviam eram recondicionados. Isto ocorrera a Danãe, que trabalhava na torre de controle de energia, até que um dia foi abordada por um homem de trinta e cinco anos, que lhe pediu ajuda. Ela o alimentou e este, agradecendo, deu-lhe um velho livro de romance de presente. Ensinou, pacientemente, a moça a leitura do mesmo, e logo partiu. Danãe lia todas as noites a história de amor de uma moça que lutava pela vida sozinha e de súbito perdera tudo, o emprego, o noivo, ficando sem lenitivo; e, por isso trancou-se em seu cômodo alugado e ali permaneceu sentada em um sofá até morrer de inanição. Danãe nunca tinha lido nenhum livro em sua vida. Confusa, sem saber se a história do livro ocorrera ou não, Danãe entrou em profundo desespero; sabia não poder comentar com ninguém o ocorrido, pois seria desintegrada por ajudar a um fugitivo. Ela estava, também, desadaptada. Danãe, em profundo conflito, trancafiou-se em seu cômodo e começou a ver-se como a jovem do romance. Com a ajuda de um pedaço de vidro, cortou os pulsos. Teria mesmo a vida se esvaído de seu corpo se não fosse Dafni salvá-la a tempo.

Mandou-a para uma esfera superior, em estado de semi-dormência, para aprender mais sobre si mesma, enquanto dormia para os preceitos tão fortemente arraigados em sua alma. Pediu em troca seu corpo, enquanto necessário, para livrar-se dos perigos que também a ameaçavam.

Dafni, porém, não encontrou esses fatos registrados no cérebro da máquina. O único registro de Danãe era uma nota que dizia ter tentado suicidar-se devido a um desequilíbrio químico. Mandada para retreinamento e o diagnóstico final: recuperada.

Dafni entendia os fatos plenamente e a clara luz. Nordon servira aos propósitos do diabólico cérebro, até que este obteve o total controle da situação; logo após sua energia vital foi sugada como a dos demais.

Todo o desenvolvimento daquele mundo foi passado às novas criaturas de forma distorcida, conforme viesse beneficiar uma total nebulosidade do raciocínio de qualquer tipo de questionamento. A Máquina-Mãe, como a chamava, não passava de um negro e destrutivo mecanismo que utilizava os seres humanos para sobreviver. Não os temia; apenas gerava pavor às suas mentes, o que garantia sua total segurança.

A torre de energia era apenas uma das formas de subsistência da criatura. Sua fonte real de vida era a energia vital dos homens; alimentava-se de suas almas, garantia-se através dos seus medos.

Dafni sentiu-se tonta diante da revelação. Tomou consciência de que precisava voltar ao corpo de Danãe na torre, pois este já estava esgotado pela grande perda energética. Centrou-se nos cabos e tomou forma de energia pura, adentrando no corpo de Danãe. Sentiu o desgaste físico do mesmo; precisou de toda concentração para sair da torre. Chegando à casa de Bael, trêmula, seu corpo gelado desfaleceu sobre o piso, sem uma palavra.

Dafni acordou meio tonta. Ao seu lado, Bael tinha na face um ar preocupado. A moça sorriu, com um ar angelical, e, num gesto infantil, cobriu a cabeça totalmente com o cobertor de napa.

— Dafni, não tente enganar-me! O que houve na central. Quando a encontrei, sua pulsação estava quase extinta. Para reanimá-la, precisei aplicar-lhe uma dose muito alta de glicose; mesmo assim você dormiu doze horas.

— Doze horas! Ah! Isso não! Preciso voltar à torre. Levantou-se quase ao mesmo tempo em que pairava no ar o som de suas palavras. Em seguida, sentiu a pressão das mãos de Bael sobre seu braço, derrubando-a sobre a cama.

— Não vai a lugar nenhum, moçinha! Precisa de descanso.

— Nada feito! – respondeu matreira, com teimosia, tentando um sobressalto. Esquece, continuou a moça, que meu turno começa dentro de quinze minutos? Sabe perfeitamente que nenhum funcionário deve ausentar-se, sem uma justificativa prévia.

— Esqueceu que sou seu médico? Já comuniquei a central que permanecerá ausente no mínimo vinte e quatro horas.

— O que disse?

— Que seu cérebro havia sofrido um desgaste muito grande de energia, tendo em vista a complexidade de sua tarefa; e o fato de acabar de sair do hospital, isso é perfeitamente justificável.

— Bael! Tenho novidades! Consegui adentrar ao cérebro, onde descobri coisas que por certo irão estarrecê-lo.

— Conte-me tudo detalhadamente, com calma, sim!

Dafni recostou-se na parede, esticando os pés em cima da cama; e enquanto trançava os cabelos, começou seu relato com a voz comedida:

— Tudo o que foi até hoje dito a você, é mentira!

— Como?

— Isso mesmo! O computador forjou todos os fatos para obrigá-los a obedecer. Bael, você nunca se perguntou o porquê do sistema desintegrador.

— Não! A explicação, incutida em minha mente, é que, se não formos desintegrados, sofreremos morte dolorosa e inevitável. O ciclo biológico do homem só permite que viva até os quarenta anos; se passar, mesmo horas apenas, a morte sobrevém acompanhada de muita dor.

— Por Júpiter! Quanta besteira! Como podem ser tão cegos?

O verdadeiro motivo do desintegrador é o de manter a Máquina-Cérebro viva.

— O que?

— Bem claro foi o que disse! Ela se alimenta de suas almas, entendeu?

Dafni agora em pé, exasperada, olhou o desamparo de Bael e procurou controlar-se.

— Quer que continue?

Bael levantou o rosto pálido em com voz temerosa, disse num tom pesado e funesto;

— Preciso saber a verdade!

Não existe retorno na estrada em que me encontro. Ou luto ou morro afogado em minha ignorância, em meu medo.

— Todo seu mundo não passa de uma ilusão monstruosa, criada pela Máquina. Ao adentrar o sistema, precisei recorrer à energia da luz; então percebi que o sol me era distante; a energia da terra era mais forte e retumbava violenta, enquanto a do sol me chegava fragmentada.

Ao verificar os dados da história de seu povo, descobri que seu mundo é subterrâneo; todos os fatos foram distorcidos.

A terra não foi destruída; não houve guerra nenhuma. Sua Máquina foi construída por um cientista que não acreditava em sua civilização. Ele tinha muito dinheiro e conseguiu convencer a muitos outros pesquisadores a seguí-lo em sua aventura; construíram às escuras esse mundo subterrâneo e trouxeram vários trabalhadores junto para escavar túneis; o projeto da construção do computador foi trabalhoso e lento. Desenvolveram uma civilização no subsolo da terra.

Os mais velhos foram morrendo e passando o conhecimento aos filhos. Após alguns anos, começaram os descontentamentos: alguns queriam voltar para o reino da luz. Então forjaram, nas telas, imagens falsas de que a civilização tinha se destruído através de uma guerra atômica e, assim, os demais descontentes acomodaram-se, pois não viam saída a não ser continuar a viver aqui.

A Máquina foi, enfim, construída e tornou-se independente dos homens, capaz de pensar e conectar dados por si só. Arquitetou um plano para renovar os humanos, pois precisava de almas dóceis para poder manter-se viva, fora de perigo. Assim, aniquilou os velhos e construiu o novo sistema em cima de jovens, suplantando toda a forma de conhecimento que não viesse diretamente dela.

Copiou uma cidade parecendo, em linhas gerais, com as do mundo lá de fora. Foi minuciosa em sua arquitetura, dando a ilusão de árvores, céu e sol. Assim, todos pensam ter ela reconstituído o mundo após a catástrofe, ignorando viverem no inferno de seu planeta, e a existência de outros seres e outro mundo, além desse. Alguns conseguiram esconder-se em túneis cavados e desconhecidos pela Máquina; mas, aos poucos, morreram por falta de alimento. Porém, um dos últimos da espécie, alcançou Danãe; após ela ajudá-lo, ele a presenteou com um velho livro, que leu e, sendo a informação totalmente nova para a mesma, esta desequilibrou-se e tentou seu próprio aniquilamento.

A Máquina computou como desequilíbrio químico devido ao excesso de trabalho, e a trouxeram para recuperação e retreinamento. Essa é a verdade Bael! Sua mãe criadora não passa de um demônio mesquinho que vive da energia de suas vidas e mantém-se segura pela ignorância, que assola seu povo, e o medo que os abate.

Bael estava pálido; imóvel, caíra num vazio profundo e escuro, onde nada fazia sentido. Seu mundo ruíra, repentino e sem aviso. Tudo aquilo em que até então acreditara ser mais pura expressão da verdade e levava como meta de existência, era ilusão. Sentia-se um objeto, fabricado; era mais uma peça daquele sistema brutal. Agora tinha consciência de seu fim e chorava por sua vida não ter sido. Julgava saber tudo; encontrava-se agora na triste verdade do engano. Seu mundo era perfeito. Como era doce a escuridão do pensar absoluto, do caminhar sem véus! Era brutalmente retirado do ninho e jogado na luz da fria realidade. Dentro de sim um terremoto acontecia; vulcões entravam em erupção e a chuva árida rasgava sua carne, fazendo sangrar na dor de um mundo destruído, vazio sem significação concreta, sem raciocínios objetivos que o levassem ao conhecimento absoluto por analogias.

Ao deparar-se naquela frágil encruzilhada, olhava as duas estradas à sua frente. Pela primeira vez teria que optar, decidir seu caminho. A angústia invadiu seu peito, pois via, à sua frente, somente o começo nu de ambos os caminhos; o que viria do decorrer de seus passos, não sabia. Pela primeira vez, ele não sabia; o pior é que sabia que não sabia. Acabrunhado, chorou como criança perdida, abandonada.

Dafni, participando da dor do amigo, deu-lhe tempo para acostumar-se à nova situação, ao desamparo, antes de pronunciar qualquer frase de consolo ou alento. Ficou horas a olhá-lo, esperando que regressasse de sua aventura interior.

— Dafni?

— Sim!

— Temos que fazer alguma coisa! Não podemos deixar que essa situação continue. Logo a Máquina terá forças o suficiente para subir ao mundo de fora dos túneis. Quanto mais energia vital tiver, mais forte se tornará, e mais vidas humanas precisará consumir. Se isso acontecer, a humanidade inteira conhecerá o caos da escravidão como nós.

— já pensei nisso! Chegando à mesma conclusão, eu posso destruí-la, Bael; mas, teremos que convencer seu povo a sair dos túneis, pois, quando a destruir, esse mundo ruirá, não restando nenhum fragmento de vida.

— O que quer dizer? Não existe saída? Ou existe?

— Sim! Uma escada longa e íngreme, que fica atrás do salão de reprodução e adestramento. Precisarão de muita coragem para subir; devem levar vendas para cobrir os olhos da luz do sol, pois poderão queimar as retinas pelo súbito contato com a luz e, acima de tudo, não deverão olhar para baixo, pois a altura causará pânico e certamente os fará cair.

— Como falaremos ao povo sem que a Máquina saiba?

— Dela cuido eu! Do povo, você! Deve falar-lhes apenas o necessário; o restante eles mesmo descobrirão, quando saírem daqui.

— Não posso deixá-la, Dafni! O que está pretendendo é suicídio! Morrerá ao destruir a Máquina.

Dafni sorriu maldosamente.

Ergueu as sobrancelhas e, com um ar misterioso, repetiu a palavra morte.

— Não, Bael! Sou filha da morte! Não pertenço ao seu tempo, nem ao seu espaço. Existem mistérios no universo que você, ainda, não pode entender; mas esteja certo, Bael, a morte não é o fim! O tempo não é limite! E o espaço não tem uma só dimensão! Os caminhos que o homem deve calcar até o acontecimento natural, do conhecimento dos mistérios, são dolorosos; mas a perfeição só pode ser conseguida através da imperfeição. O reconhecer de um erro leva a aquisição de um ato certo. O homem não é um ser acabado, construído como uma máquina. Sendo assim, nenhum tipo de inteligência artificial, por maior que possa parecer de imediato, pode desafiar a natureza cósmica tentando imputar uma nova essência, forçosa e desconhecida ao homem. O universo tem suas próprias leis e nada extrínseco ao homem pode mudá-lo.

Dafni levou a mão ao pescoço, retirando o talismã das três forças. Bael olhava para a moça que se tornava um facho luzente; uma bola de fogo saiu de seu corpo, e o triângulo pairava no ar por sobre a mesma; o fogo afastava-se do corpo cada vez mais, até que a moça, frente a seus olhos, tinha um outro aspecto; parecia perdida, indefesa, olhava suas mãos, tocava seu corpo como algo estranho, ou, há muito, não visto. Bael arriscou-se tímido:

— Dafni! Estava ao lado da moça e tocara seu ombro carinhosamente. Você está bem?

— Sim! – respondeu a moça. Seu tom de voz era mais doce, e o ressoar trazia um resquício de timidez. Por m instante, abaixou os olhos e terminou por confirmar as suspeitas de Bael.

— Não sou Dafni! Meu nome é Danãe. Ambos olharam em direção ao fogo que, de vermelho rubro, tomava uma tonalidade azulada. No tremular das chamas, uma imagem confusa começou a formar-se até tomar os contornos de uma garotinha. O colar adentrou ao círculo de fogo e parou no pescoço frágil da pequena.

— Da… Dafni? Então é você!! Bael tinha, no rosto, uma expressão de assombro e surpresa. Como pode? É apenas uma criança…; levou as mãos à cabeça pressionando-a com muita força. Como pude eu!! Meu deus, o que fiz?

— Não se assombre, Bael! Nem se culpe! Você jamais tocou em mim. Mesmo porque não poderia, pois meu espírito é vinculado a outro amor. Todos os momentos que teve amor carnal, fora com Danãe; sempre trocava de lugar comigo ao tocar seu corpo, e unia-se a ele até quando ambos estivessem saciados; então, ela voltava ao seu repouso, deixando-me, novamente, seu corpo à minha disposição.

Bael voltou-se para a moça a seu lado. Esta respondeu-lhe com um sorriso que tudo dizia. Bael segurou sua mão e a beijou com ternura.

— Agora, vocês precisam sair daqui. Bael, Danãe carrega um filho seu! Deve sair com seu povo desse inferno o mais rápido possível. Ou seu filho corre o risco de ter o mesmo destino que você. Devem fugir ou nunca o verão! Bael abraçou a moça e ambos choraram a alegria de esperança de vida quer brotava no ventre, livre da imposição, fruto de seu amor.

— Por favor, devem apressar-se! O povo o seguirá Bael, pois eu já me infiltrei em suas mentes, desativei o microchip e lhes contei a verdade ao mesmo tempo que a você.

— Quer dizer que todo o povo já está ciente?

— Sim! Minha voz não ecoou somente no seu espírito, mas no de todo o povo. Eles o aguardam à porta de saída, atrás do salão. Vá e deixe Danãe galgar o primeiro degrau; logo após todos os demais, e por último você. Danãe carrega a liberdade no ventre. Deve encaminhar, ao seu mundo, a luz, a nova vida. Você, Bael, deve proteger e alentar o povo a seguí-la, lembrando-lhes sempre de não olharem para trás, haja o que houver.

Danãe e Bael caminharam alguns passos e voltaram-se para a menina com os olhos cheios de lágrimas. Danãe falou num sussurro:

— Sempre estarei com você em meu amor! Onde eu for, levarei sua presença, coragem e força. Um dia nos encontraremos no templo último da sabedoria.

Dafni tocou o triângulo e direcionou a luz em fragmentos de arco-íris, envolvendo a moça num campo energético, transmitindo, a essa, força e vigor, e acima de tudo, o fogo primeiro, o fogo que não queima, o fogo da vida e do início da sabedoria, e do infindável amor.

Bael acenou à menina, num gesto de carinho e agradecimento. Esta, levantando a mão, deixou sair da palma o calor azulado do fogo da terra, envolvendo-o completo. Então, o círculo que a mantinha, começou a elevar-se, dissipando-se em partículas de luz azulada, formando um campo protetor para conter a energia da Máquina-Cérebro, que já sabia da fuga e preparava-se para o ataque.

Danãe e Bael apressaram-se e, chegando em frente à escada que os levaria ao mundo de fora, hesitaram por um segundo. Logo, então, Danãe tocou o ventre e calcou os pés subindo o primeiro degrau. Bael, por sua vez, incentivava aos outros a subirem atrás; muitos amontoavam-se amedrontados ante a imensidão da escadaria; porém o desejo da liberdade ultrapassava o medo de seus corações; as crianças, sem idade para andar, foram presas por panos fortes nas costas dos adultos e pareciam mesmo divertir-se na aventura.

Após algumas horas, todos já escalavam os degraus. Assim, Bael subiu gritando sempre: — não olhem para baixo!

Os degraus enferrujados e ásperos feriam, por vezes, as mãos; porém aquela fileira de homens e mulheres não se dava conta da dor, visto seus corações carregarem a maior de todas as dores, a do esquecimento.

Ao escalarem aqueles degraus, não subiam ao mundo simplesmente! Não! Era muito mais! Saíam do seu casulo para o mundo; nasciam das entranhas da terra; fugiam de seus destroços. Atrás ficava o vazio. Nada que a eles pertencesse realmente. Seu mundo de ilusão ruíra. A porta da vida estava logo acima de suas cabeças; porém a violenta interrogação, descia pela fila abaixo, perpassando como espada afiada a alma daquelas criaturas errantes que saíam de um universo obscuro para a dúvida da luz.

Quatro horas haviam-se passado. A respiração pesada e ofegante ressoava pelo ar escasso infesto de dor. As crianças choravam ruidosamente, sem que a ninguém conseguissem comover.

Bael não se calava, apesar de sua voz sair entrecortada; frases sem sentido tinham suas sílabas roubadas e o incentivo que queria transmitir aos outros, aos seus ouvidos ressoava como uma seqüência silábica mórbida, exaustiva. Porém, continuava seu discurso sem razão, como se gritando barbáries, a loucura lhe abastasse a alma com o néctar dos deuses.

Oito horas de caminhada, até aquele momento. Ouvia-se somente o “tirilintar” dos sapatos no ferro, as frases absurdas de Bael, um grito aterrorizado ressoar aqui e ali, quebrando a rotina da escalada. Era a voz de uma mulher, perdendo-se no espaço profundo.

— Não olhem para baixo! – gritou Bael, com um súbito arrepio de horror. Porém, uma força uma energia brutal surgia cada vez mais forte de seu âmago, dando um comando a sua alma, a qual passava aos outros, como encorajamento.

Sua voz pareceu enrijecer os dorsos, e ninguém ousou desafiá-lo.

— Continuem, bradou novamente, se não quiserem acabar como essa pobre que acaba de voltar de onde veio! Não existe volta! Estamos altos demais para um retorno, talvez longe o bastante para não conseguir chegar. Porém, o olhar que se volta para baixo pede a morte certa; o que continuar acima, andará de mãos com a incerteza; mas a incerteza traz consigo a esperança ambígua da chegada, da luz e das trevas, da morte e da vida. Eu, por mim, prefiro a bipolaridade, a morte incremente.

Se também pensam assim, usem a energia de suas mentes para sustentar seus corpos, e continuem, ande, continuem.

A força voltava aos corpos com as palavras de Bael, que vinham insufladas de um alento que cheirava a morte. Era um campo florido luzente, sem olhos para vislumbrá-los. Outro grito,… Continuam. O choro ininterrupto das crianças emprestava, àquele inferno escuro, maior terror; todos caminhavam como ovelhas ao matadouro. Bael, por vezes, pensava se aquilo tudo não era uma carnificina inútil. Outro grito…

Crianças uivavam, dentes rangiam. Outro grito…, onde estava a luz? A cada passo, a escuridão era maior. Outro grito…

Bael chorou convulsivamente. Seu coração o traíra? Seria ele responsável por aquele genocídio? Outro grito…

 

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