Além do Olhar – Capítulo XIII – Parte 1

Além do Olhar – Capítulo XIII – Parte 1

Hospital psiquiátrico: lanon Kandan, 3999, 16 de agosto, 22 horas.

— Danãe?… Danãe, está me ouvindo?

A moça, sentada no chão de um pequeno cubículo envidraçado, iluminado, por luzes externas, levantou lentamente a cabeça dirigindo o olhar em direção do som microfonado. Tinha uma aparência doentia e a palidez de quem, a muito, não recebe o carinho do sol na pele. Olhos negros e alheios, boca carnuda de um rubro sensual, seus traços eram agressivos, como o cabelo longo, emaranhado de cachos pequenos. Vestia o camisolão branco inteiriço com o nome do hospital, e, apesar da imagem decrépita, guardava vestígios de uma beleza faraônica.

Seu olhar permanecia fixo no vidro, visível somente da parte de fora.

— Danãe, pode me ouvir?

Dr. Bael Rent soltou um suspiro exasperado.

— Dafni? É você?

— Como vai, Dr. Rent?

— Muito bem! E você, como tem passado?

— Sua pergunta é dirigida a mim ou a Danãe Volon?

O médico quase vociferou ao responder:

— A ambas!

— Bem, Danãe está repousando em lugar seguro. Quanto a mim gostaria de poder sair dessa coisa, caminhar, ver a luz do sol, sentir o ar e o cheiro das árvores. Vocês ainda têm árvores e sol, não é mesmo?

— Sim! Temos sol e muitas árvores nos parques.

— Por que estou presa, Rent? Eu fiz algo de mal a alguém do seu mundo?

— Liberte Danãe e poderá sair!

— Já lhe expliquei! Danãe não está presa; ao contrário, aprende muitas coisas numa esfera mais evoluída; está livre e fortalecendo-se.

— Vamos, Danãe!… Você não morreu! Fracassou! Chegamos ao seu quarto antes que seu pulso sangrasse sua vida. Olhe você mesma a cicatriz! Vamos, Danãe! Olhe! (…)

A voz do médico soava, num vazio recôndito, palavras ditas a pessoa alguma. Dafni fitava-o com um brilho de desafio, aquele mesmo olhar que o fizera se arrepiar durante cinco anos em que tratava aquela figura exótica.

— Gosto de seu terno Doutor! Azul lhe fica muito bem!

Bael Rent sobressaltou-se diante da afirmação; não por ser essa a primeira vez que a moça se comportava de forma a desestruturar toda sua tese racional; mas a cada nova manifestação de clarividência ou outros fenômenos, para os quais não encontrava explicação, ficava a perguntar-se se o mais seguro seria mandá-la para o crematório. Já o teria feito, há muito tempo, como era costume; os pacientes considerados incuráveis eram cremados, bem como os infratores das leis. Estava sendo pressionado por todos os lados; o computador central convocara uma equipe de psiquiatras, há três anos, quando se esgotara o prazo de tratamento; a equipe atestou perda irreparável. Bael tentou, desesperado, contrapor o laudo, dizendo ser um caso raro; sua refutação não foi aceita pelos quatorze integrantes da equipe médica. Foi computada a execução da pena para o dia seguinte, junto com mais dez pacientes. Bael não compareceu ao hospital naquela sexta; foi bipado às onze horas e trinta minutos, chamado urgente ao Kandon, na ala 5, onde ficava a câmara crematória. Encontrou do lado de fora uma enfermeira pálida e trêmula; Danãe, ao seu lado, sorria. Bael olhava o rosto lúdico da moça, num misto de alegria e temor. Conseguiu, diante das evidências mais dois anos de protelação, dados pelo governo central.

Após o prazo, Danãe seria submetida a uma nova equipe de médicos e seu laudo seria final; o prazo acabava no mês de agosto daquele ano. Bael não via esperanças para Danãe.

Dessa vez iria ser desintegrada e Bael não acreditava que seus poderes psíquicos a livrassem do desintegrador. Além do mais, ela não oferecia nenhuma ajuda ante a equipe examinadora; mostrou-se como uma perfeita idiota, irrecuperável, ao salvar-se do forno de cremação. Os médicos atribuíram o fato a um defeito nas ondas de calor, pois cada humano era posto em um círculo de vidro, em separado, onde recebiam o aquecimento das ondas de menos de milésimos de energia; microondas de tal potência transformavam em pó um corpo humano, em menos de um segundo. Danãe ficou exposta ao calor durante trinta minutos.

Bael interviu pedindo a anulação da pena, conseguindo a protelação de dois anos. Desde então, trabalhava dias inteiros tentando descobrir a proveniência da energia do psiquismo de Danãe, obtendo sempre a mesma resposta.

Afirmava ser ela habitante provisória do corpo de Danãe, chamar-se Dafni, e estar fugindo da avó que desejava devorá-la após ter tomado forma da serpente nascida do ventre de Gaia.

Deus — pensou Bael ― o louco ali devia ser mesmo ele; insistir num caso desses era prova definitiva de insanidade. Acabaria sendo desintegrado junto com a pequena feiticeira, isso sim (…).

Passou as mãos pelos cabelos negros, num gesto cansado. Suspirou profundamente e falou num fio de voz:

— Dafni seu prazo acaba daqui a oito dias; eu nada mais poderei fazer quanto ao seu destino. Você me entende?

— Não se atormente, Bael! Meu destino não é a morte. Sou filha-neta desta. Meu destino é outro; ainda não entendo por que tive que vir a esse mundo. Seu mundo me parece muito frio, desconhecedor dos deuses, do fogo do amor; desprovido de compaixão, penso nele como um recanto de mendigos ou uma cidade de leprosos. Você, porém, parece ter guardado algo de divino em seu coração. Gostaria de saber se existem outros como você. Danãe contou-me a crueldade titânica com que são tratados os seres que fracassam e como suas vidas são regidas por uma máquina. Não crêem na existência de nada que não seja visto pelos seus olhos ou pelos de suas máquinas.

Quem são vocês, Bael? Esse é o futuro de minha raça? Vocês em nada crêem; juntam-se em pares para reproduzir e não para amar. Até seu ato amoroso é vigiado pelas suas máquinas, estimulado por elas. Trancam-me aqui, chamam-me de desequilibrada por dizer ser outra, num corpo que não me pertence. Mas qual é o mal em minha afirmação? Em seu mundo ninguém pertence a sim mesmo; seus seres não têm desejos; se alguém ousar é logo mandado para reabilitar-se ou, então, é tirado abruptamente de seu meio.

Vocês são a geração do medo, da cegueira; são autômatos mortos que andam; suas máquinas são mais temíveis do que as moiras e todos os titãs do ínfero.

Sua raça não é mais de homens. O que são vocês, Bael?

Diante do olhar inquisitivo de Dafni, Rent retirou-se a passos lentos da presença da criatura; sentia em seu olhar um brilho de ser humano, um brilho de deus.

Ao caminhar, pelas alas abertas da saída do hospital, parou por um instante, ouvindo o borbulhar da sinfonia das máquinas que se espalhavam por todo o canto. Ao sair colocou a mão em um canal de reconhecimento; no segundo seguinte, a voz sonora:

— Boa noite, Dr. Bael!

— Boa noite, Esteves! Para casa, por favor!

— Desculpe, senhor! Mas não posso satisfazer seu pedido. São apenas dezoito horas e trinta minutos; deve ir ao centro de computação médica atualizar seus estudos até as vinte e duas e quarenta e cinco.

— Certo, Esteves! Não posso negar, não é?

— Sinto, senhor! Essas são as ordens de seu dia, respondeu o veículo, pondo-se em movimento, em alta velocidade.

Esse era um crime: decidir por si só ir para casa descansar, seu carro dirigido pelo computador central não o obedeceria. Se tentasse ir a pé, seria paralisado pelo microchip implantado que o acusaria de desordem, levando-o à casa de recuperação. Danãe, ou Dafni, tinha razão; eram todos escravos da maravilhosa cibernética.

Enfim, chegou o grande dia. Toda a equipe médica observava a moça dentro do cubículo envidraçado. Bael tinha as mãos frias; na testa um suor temerário; não sabia bem o porquê da preocupação pelo destino daquela exótica desconhecida; havia nela algo de verdadeiro, excêntrico da perspectiva racional, louco para o sistema regido da sociedade atual, e da personalidade ambígua; trazia uma inquietação de dúvida ao espírito do médico que, até então, não conhecia tal sentimento. Suas divagações eram por certo primitivas, convencia-se Bael. Há muito, os homens não questionavam sua forma de viver, acomodados a um sistema de comando; as palavras individualidade, liberdade, caíram no esquecimento. Os mais jovens nem mesmo conheciam tais palavras, visto que aprendiam somente o que lhes era lícito, ou seja, o que a Máquina Central, regedora de todo o sistema computadorizado do mundo, permitia a eles aprenderem, segundo a utilidade da aplicação para o bem andar da sociedade. Poucos eram os revoltosos, geralmente os mais velhos, com resquícios de ensinamentos dos livros, os quais a ninguém era permitido acesso na atualidade.

A Máquina-Mãe trouxera a paz e a tranqüilidade para uma sociedade desfalecida. Ela estabelecia os valores, comportamento e ações de todos os homens.

Após o grande declínio da terceira guerra, os computadores pensantes foram instituídos, visto o ser humano ser incapaz de controlar suas paixões, sua sede insana pelo poder. O mapa-múndi não existia; países em separado foram extintos e a terra era uma só. Controlada por um computador cérebro gigantesco, várias centrais menores foram instaladas em todo o canto do mundo; e a terra, os seres que a habitavam, eram regidos pelos filhos da Máquina-Mãe. As religiões, também, foram extintas; o único deus, conhecido pelos homens, era a Máquina-Cérebro.

O mundo havia mudado radicalmente. As crianças nasciam segundo a necessidade de repovoação do planeta, nenhuma a mais ou a menos; os pais uniam-se para procriação, visto a criança nascida de união natural ser perfeita e não ter custos para manter um laboratório com sêmens congelados, a inseminação artificial não era utilizada; a Máquina-Mãe fizera um estudo pormenorizado da cadeia de DNA dos humanos e os unia conforme a compatibilidade; as crianças nasciam perfeitas e a espécie era conservada. Após o nascimento, a mesma era entregue à estufa de criação, o microchip implantado em seu cérebro para garantir a obediência às leis vigentes. O único contato com a mãe era na hora do nascimento, pois a instituição-família, também, fora abolida.

A criança aprendia, desde cedo, uma profissão; sua função social era enraizada, em seu espírito, à obediência às leis e no respeito pela Máquina-Mãe que a todos mantinha num mundo de paz, sem fome, sem miséria. Assim seguiam os novos autômatos até o fim da jornada, ou seja, o recolhimento à câmara de desintegração que se dava aos quarenta anos, quando o indivíduo, devido ao excesso de trabalho, começa a produzir menos.

O encadeamento era perfeito, a sociedade produtiva, e os homens passivos, nasciam e morriam; ou seja, morriam e morriam.

Bael sobressaltou-se a pergunta da Dra. Jânace, que, há muito, o chamava, sem este ouví-la.

— Dr. Bael! O senhor sente-se bem?

— Oh! Sim! Pode repetir a pergunta por favor?

— Perguntei se podemos começar a interrogar sua paciente.

— Sim! Por favor senhores, estejam à vontade!

A equipe de trinta profissionais, todos da área psiquiátrica, tomaram suas cadeiras ao redor da sala onde Danãe estava. A disposição de cada um havia um microfone; todos traziam em mãos uma prancheta que registrava automaticamente, pergunta e resposta, e a conclusão de cada um. Tal sistema funcionava pelo som, registrando em imagens as palavras, e desvinculando as probabilidades de verdade ou falsidade da resposta do paciente. Bael, também, sentou-se; num suspiro profundo, desejou que Danãe demonstrasse suas habilidades, livrando-se do desintegrador.

Jânace foi a primeira a falar:

— Danãe? Um silêncio prolongado seguiu-se. Ao ouvir a pronunciação de tal nome, Bael estremeceu; certamente Jânace já se dispusera a condenar a moça; ao chamá-la diretamente, nada mais questionariam os outros se Danãe não respondesse, ou pior, se dissesse não ser esse seu nome, pior pensou Bael desesperado. E, se Danãe se dispusesse àquele falatório tão conhecido por ele, respondendo singelamente a Jânace: — meu nome é Dafni, vim do coração da Tessália, fugindo de minha avó, grã-sacerdotisa. Na hora em que ela tomou forma de serpente das entranhas de Gaia, estava prestes a devorar-me; Pluto, meu primo amado, deu-me o talismã das três forças, o qual temo poder de quebrar as forças do tempo, espaço, e vim parar aqui, nessa dimensão, nesse mundo por mim desconhecido. Sou uma viajante; mas, certamente, tenho uma missão nessa terra nova, pois, se assim não o fosse, certamente aqui não estaria; não eu, filha-neta de Hades, o deus da morte. Quanto à Danãe, tomei seu corpo emprestado; na verdade, estou a acender a chama da vida em seu espírito, visto que aquela tentou extinguí-la por si, só.

Em meio a esse turbilhão de pensamentos, Bael olhava Dafni, sentada imóvel, com a cabeleira negra a cobrir-lhe a face, a camisola branca longa, seus pés descalços, as mãos largadas ao lado do corpo, davam-lhe realmente um ar enlouquecido.

Jânace repetiu a pergunta, com exaspero na tonalidade da voz.

— Danãe, estou falando com você. Se é que pode me ouvir, responda. Você é Danãe?

Todos os olhos atentaram na direção do corpo até então imóvel; a cabeleira negra moveu-se suavemente, com o erguer da cabeça. Dafni exibiu um rosto iluminado e agressivo, os lábios rubros entreabriram-se e o som saiu límpido e tranqüilo:

— Há incoerência na sua pergunta. Você me chama pelo nome, e logo após pergunta quem sou eu! Pensava ser eu a doente, em julgamento; vejo, porém, que deveria você ocupar meu recinto.

Dafni falou cada palavra espaçada e salientemente; seu olhar estava voltado diretamente para os olhos de Jânace que, como hipnotizada, esqueceu todo seu treinamento e abaixou o olhar, num gesto de vergonha. Perdeu por completo o controle da situação. Sua prancheta registrou: resposta sana, plenamente aprovada pelos sistemas, decisão sábia; o computador aceitará medida proposta pela interrogada.

Jânace leu várias vezes a sentença, não conseguindo acreditar; fora ela condenada à recuperação. Embasbacada, pronunciou numa voz rouca, quase inaudível:

— Sou o juiz! Não o julgado! Isso não é justo.

Ao revelar sua opinião, leu a resposta na prancheta: a justiça é limitada pela Máquina-Mãe; você é acusada agora, não somente de negligência, mas de traição contra o controle central. Sua pena anterior é retirada; será levada ao desintegrador imediatamente. Jânace deixou escapar um risco de voz acuada, que seria um grito de horror, se não fosse cortado pela paralisação de seu sistema nervoso central, através do microchip acusador. Dafni olhou para Bael que olhava fixamente, boquiaberto, sabendo ser ela a causa do ocorrido. A jovem apresentou nos lábios uma similitude de riso prazeroso e cínico. Bael estremeceu diante do olhar fogoso daquela criatura.

Os demais presentes permaneceram em seus postos, sem demonstração de nenhuma espécie de sentimento; a médica sem consciência, foi retirada do local, por clones humanos e levada à câmara desintegradora.

Uma voz metálica ressoou no recinto silencioso, causando sobressalto nos presentes:

— O interrogatório prossegue. Eis a ordem dada pela central. Os médicos retomaram a postura, e Alônce decidiu instigar a “fera” da gaiola de vidro:

— Como vai, Danãe?

Dafni sorriu, amável, parecia mesmo outra pessoa; sua resposta tranqüila fazia os médicos parecerem idiotas, jogando, ao vento palavras vazias, sem conotação com a realidade.

— Poderia formular novamente a pergunta, por favor! Ela me parece vaga, tendo em vista meu estado carcerário e o julgamento ao qual me presto. Refere-se ao meu estado físico? Mental? Ou a minha pessoa como um todo?

Alônce não se deixou abater; pensava rápido, tentando formular o contra-ataque.

— Peço desculpas pela minha falta de objetividade; reformularei a questão como me pede.

Pensou com a testa levemente franzida e tornou os pensamentos audíveis:

— Como se sente fisicamente?

— Todas as minhas funções orgânicas estão em bom funcionamento. Respondeu seca e objetiva.

— Sua mente? Os pesadelos de uma outra entidade a ocupar seu espaço corporal ainda avivam sua memória?

Bael remexeu-se nervoso em sua cadeira almofadada. Dafni voltou os olhos a ele como a consolá-lo, e respondeu firme ao interrogador:

— Não! O Dr. Bael esclareceu alguns fatos a mim obscuros. No decorrer de minha estada aqui, disse-me que, por ter tentado o suicídio, fato no qual malogrei, então assumir nova personalidade, dando-me por morta; agora, porém, entendo meu infortúnio, encontrando plena capacidade para exercer minhas tarefas no corpo social.

Bael tinha os olhos arregalados e a boca semi-aberta ante o espanto causado pelas palavras de Danãe. Até a noite anterior, nenhum progresso conseguira. A moça continuava veemente em sua história fabulosa; ele tinha por certa a condenação de sua paciente, tendo em vista o computador não se enganar quanto à veracidade das respostas. Olhava, relia cada letra de sua prancheta. Resposta verdadeira. Como!? Nenhum homem conseguira enganar a central até então. Bael sabia, perfeitamente, que Danãe brincava com os presentes e com a própria central, num jogo de esconde-esconde mental. Alônce, porém, parecia satisfeito, e, com um gesto de cabeça, passou a palavra ao companheiro da direita.

O interrogatório prosseguiu por cerca de doze horas ininterruptas. Danãe não vacilou um só instante. Todas as respostas que dera, foram de objetividade estonteante. O computador teve todas as palavras proferidas como verdade absoluta. A equipe reuniu-se e, num voto unânime, absolveram a jovem, dando-lhe seu antigo posto de auditora da torre central.

Bael esperou até a saída de Danãe do hospital no estacionamento. Era seu dia de folga, o único no mês; podia fazer de suas horas o que lhe aprouvesse. Ao fim de duas horas, viu a figura alta e esbelta de Danãe, aproximar-se. Vinha em sua direção como se soubesse que ele a esperava. Sua cabeleira negra e ondulada estava presa em uma rede de tranças, formando, sobre a cabeça, uma coroa negra. Trajava o macacão tradicional dos trabalhadores da torre, de napa teflônica acinzentada, protegendo sua pele da alta radiação de alguns produtos ali fabricados.

Danãe parou na frente de Bael. Exibiu-lhe um riso trapaceiro, despertando no rapaz uma forte emoção não definida.

— demorei muito? – perguntou com ar zombeteiro.

— Não! Quero dizer não sei, pois não a esperava; acabei de sair também e já ia mesmo tomar o rumo de casa.

Danãe não conteve uma gargalhada prazerosa:

— Esse seu aparelhinho aí devia paralisá-lo quando mentisse às pessoas e não somente às máquinas. Bael enrubesceu. Seu sangue fervilhava; sentia uma sensação de ausência; a cabeça enevoada não permitia articular um só pensamento lógico. Olhava para a moça mudo, atônito, sem saber o que fazer.

— Vou com você, para sua casa! Tenho dois dias de folga para ambientação, disse-me a voz do dragão de metal.

— Onde é que arranja essas expressões?

— Que expressões?

— Dragão de metal! Não conheço esse vocábulo!

— É antigo! Da minha terra, onde éramos perseguidos, por vezes, por dragões chamuscantes; mas eram de carne e osso; podiam ser mortos pela flecha de Diana ou mesmo estrangulados por Aquiles. Aqui, no seu mundo, eles são de fios e metal. Bael perguntou muito sério, não como das outras vezes o fizera considerando a resposta de uma desequilibrada mental, mas perguntou, agora, como alguém que acha, em sua questão, o início da vida; e esperou a resposta ansioso.

— Sou Dafni! Venho de um mosteiro do coração da Tessália, do grande meteoro, de Varlaan. Foi, então, que Bael percebeu não haver perguntado nada; seus pensamentos eram caóticos e nada dissera, pois nem mesmo ele sabia de imediato o que ia perguntar. Um tremor percorreu sua espinha; era a sensação de medo, só experimentada por ele uma única vez; quando tinha quinze anos, foi levado ao centro de programação para receber o influxo dos conhecimentos da medicina psiquiátrica recuperativa. Viu-se diante de uma grande máquina, e seu microchip cerebral foi ligado a um cabo direto ao computador de programação. Isso ocorreu há doze anos atrás. Lembrava-se, com nitidez, da sensação definida pela Máquina como medo.

— Vamos! Não vai ficar aí meditando para sempre!

— Para onde?

— Para sua casa! Já disse!

— Não pode! Isto é, não podemos receber visitas sem a autorização prévia da central.

— Sua máquina é pouco esperta. Posso enganá-la com facilidade. Você, também, poderia se conhecesse o poder de seu cérebro.

Bael parou em meio a um protesto entrecortado. Via a moça entrar em seu carro; pasmo, desistiu de argumentar. Entrou em seguida e antes que abrisse a boca para ordenar a locomoção e o destino que o carro deveria seguir, esse arrancou parando em frente ao prédio envidraçado, onde morava. Dafni tomou a dianteira, passou pela porta de entrada sem ser computada, o mesmo ocorreu no elevador e na entrada do cômodo onde morava Bael.

— Pode falar! Suas máquinas estão cegas e mudas.

— Como faz isso?

— Simples! Eu as neutralizo. Crio um campo energético ao meu redor e elas não percebem nossa presença; diminuo nossa energia vital abaixo dos circuitos de captação; crio uma ilusão aos olhos de sua máquina.

— Que tipo de coisa é você? Um humano comum não é capaz dessas artimanhas!

— Sou uma bruxa! Vôo em uma vassoura e assombro os homens há séculos; alimento-me de suas almas. Por isso viajo pelo tempo à procura de novas vítimas. Com o rosto enrugado, uma expressão divertida, Dafni curvou as costas e levantou os braços, mexendo os dedos como uma bruxinha; investiu aos pulinhos contra Bael, derrubando-o no chão e começou a fazer-lhe cócegas. Bael ria. Hilariantes, pareciam dois garotinhos a se divertirem entre gracejos; Bael tentou um protesto:

— Pare! Vamos pareee!!.

— Você está condenado a morrer de tanto rir.

Dafni e Bael rolaram pelo chão a se fazerem cócegas um no outro. Depois de algum tempo pararam exaustos e ofegantes. Cada um atirou-se de um lado no chão; e, com os braços estirados sobre a cabeça, falavam, sem parar, palavras entrecortadas pelo riso e o cansaço. Bael olhava o teto, quando, de repente, apoiou a cabeça no braço esquerdo, ficando de lado; olhou Dafni nos olhos e perguntou com ar ingênuo:

— o que é isso que acabamos de fazer? O que é uma bruxa?

Dafni olhou seus olhos, percebendo o quanto aquele homem crescido nada sabia sobre sentir. Com um ar sério, levou a mão até a cabeça do rapaz, um pouco acima da orelha esquerda, onde fora imputado seu microchip. Percebendo o medo pelo sobressalto que seu gesto causou no rapaz, Dafni sorriu e, com voz amena, acalmou-o como a uma criança ante a uma situação nova que lhe parece perigosa, quando na realidade não é.

— Calma! Só quero ajudá-lo! Prometo que não sentirá dor alguma. Confia em mim! Acha que pode confiar em mim Bael?

— Sim! – respondeu com voz segura, abandonando-se ao toque da moça.

Dafni centrou seu pensamento em Bael. Seus dedos começaram a aquecer, desprendendo energia pura. A ponta de seus dedos adquiriu um brilho esverdeado de início, seguido por uma fumaça tremulante de calor avermelhado. Bael mantinha os olhos fechados; seu corpo aquecia-se; fagulhas de calor percorriam todo seu ser, animado por uma força selvagem do recôndito de seu ser á medida que Dafni liberava maior quantidade de bioenergia. Enquanto Bael, levado pela figura luminescente, adentrava seu íntimo, via, dentro de si, um universo imenso começando a iluminá-lo. Viajava dentro de seu próprio ser. Portas aos milhares dispunham-se enfileiradas e fechadas a sua frente.

Dafni, entrando naquele mundo de milhões de probabilidades, disse ao amigo:

— Vê! Essas são as portas onde se esconde o melhor do seu ser e, também, o pior. Se decidir abrí-las, você será um homem. Encontrará, por detrás delas, prazeres e tristezas; vai desvelar seu lado humano que seu dragão de metal mantém prisioneiro.

— Tenho medo! Nunca vivi a insegurança do não saber o que vem depois. Sei quando nasci; porém só isso. As demais atitudes da minha vida sempre me foram ditadas, planejadas antecipadamente pela Máquina. Até mesmo meu fim já é decidido por ela. Nada me é vedado. Sei exatamente tudo o que vai acontece… A hora, o minuto, o dia.

— Como é tolo! Nada sabe, senão o que uma máquina permite que você saiba. O maior véu é aquele com que voc6e encobre sua angústia. Vive a se esconder de seus anseios, de seus desejos humanos. Veda seu pensar e segue a ordem da criação das suas mãos. Foi você quem criou a máquina. Não deveria ela dar ordens ao seu criador! Nesse século não vejo humanos, mas homens que perambulam nas sombras da morte, com os corpos ardendo no fogo da vida e a alma deitada na fria lápide da não existência.

— Nada podemos fazer! Somos fracos; depois, a Máquina-Mãe nos proporciona ma vida digna e confortável.

— O que você chama de viver, eu chamo morrer. O que seus olhos vêem como digno, a mim parece desprezível. Vocês vivem num mundo perfeito; sem guerra, nem fome, sem assassinato ou qualquer outro tipo de infração às suas leis. Seu mundo não é de homens; foi constituído por uma máquina, para máquinas. Vocês vivem somente para manter seu grande sistema operacional em funcionamento, pois suas máquinas não sabem prover seu sustento próprio; por isso os mantêm; todos não passam de escravos, de seu mundo constituído por limpadores de máquinas. Perderam todo o sentido da humanidade. O erro faz parte da essência humana. O homem aprende com suas falhas, luta, ama, sente. Nesse caminho infindável da vida, cada passo é progresso; se tropeçar e cair, deve levantar e continuar. O homem é homem quando se constrói a cada dia, aproveitando sua felicidade e seus infortúnios; ele sobrevive, apesar da aparente fragilidade. Se, hoje, vocês se levantassem em luta contra o mecanismo que os oprime, mesmo ficando sem tecnologia alguma e a maioria dos adultos morressem, vivendo somente suas crianças, elas descobririam formas de sobreviver; onde a você, hoje, parece inabitável, para um homem que só tem deserto para habitar, ele, através da inteligência e intuição, sobreviveria até construir um oásis com água fresca e potável. Não percebe? Sem erro não existe acerto; sem luta não há vitória. O homem ganha e perde nessa terra; a todo o instante ele cresce no mistério da vida. A elevação suprema só pode ser alcançada pelo homem que conquistar essa perfeição. Seu mundo matou os homens e os substituiu por seres inanimados com forma de homens, mas sem espírito de homem. A morte, do lugar onde venho, é vista pelos não iniciados como o fim; porém eu sou o fruto vivo do que muitos julgam acabado. Sou filha das trevas e da luz, do bem e do mal. Em mim coexistem forças antagônicas, sem as quais eu não viveria.

Na escala da vida, o homem só cresce quando vê sua face de Hades e sua face de Zeus.

— Quero continuar! Abrir as portas.

— Então, segue! Mas terá que contar somente com você. Siga seus sentimentos e deixe aflorar a vida de seus sonhos enterrados.

Bael seguiu pelo corredor iluminado; abriu a primeira porta e avistou um cárcere enorme. Muitos homens e mulheres sob grilhões, presos pelos pés e mãos na parede, estavam seminus, cobertos apenas por um pedaço pequeno de pano branco sobre seu sexo; gemiam e seus olhos expressavam dor; as cabeças levantadas caíam em sincronia perfeita; o ar era bolorento e o c6omodo cheio de teias de aranhas. A poeira, vinda do interior do aposento, enodoava os olhos de Bael. Ofuscando sua visão, forçava de tal forma os olhos que esses se defendiam, liberando um líquido salgado. Bael passou as mãos pelo rosto úmido; levou o dedo até a boca experimentando o gosto daquele líquido nunca antes visto ou sentido. Levantou a cabeça, dirigindo-se a todos os enclausurados:

— Quem são vocês? Por que estão aprisionados de forma tão bárbara?

Unânime foi a resposta:

— Pergunta o carrasco a seus prisioneiros porquê de seus martírios?

— Não entendo!… O que dizem? Jamais cometeria tal barbárie! Riram-se do comentário; não um riso prazeroso, mas amargo e desconcertante.

— Parem! – gritou Bael. O que tenho eu com os seus sofrimentos?

— Somos seus desejos Bael! Você nos aprisionou e, cada vez que gritamos, seus ouvidos foram tapados; com açoites calou nossa voz; e seu medo foi nosso cruel algoz, rasgando nossa carne com chibatadas, a cada gemido audível nosso. Veja esse pequeno tampo que cobre nossos sexos! E branco, pois tem por significado a paz forçada que a nós imputa, a ausência de toda e qualquer reação de sua parte a nossos augúrios. Cobre nosso órgão da vida com pequenos panos brancos, prende-nos de forma cruel para que não planejemos uma fuga. E não nos deixa nem o prazer da contemplação; pois acoberta nosso órgão vital.

Bael tapou os ouvidos num gesto débil; cerrou as pálpebras numa tentativa de dissipar a cena conflituosa. Nada adiantou. Via os seres disformes, conturbados, contorcendo-se a cada minuto, cada músculo, no intento da liberdade; de ouvidos tapados, ouvia o ranger de dentes, dos desejos que nunca puderam ser desejados. Num dado momento, urgiu uma figura encapuzada, semi-humana, pois seus traços não eram definidos; tremulava espectral diante de Bael; sua voz soava como um retumbar de um tambor, num mesmo compasso. Naquele cenário obsoleto, o homem corria de um canto a outro, seguido pelo retumbo; por onde fosse, à sua frente, persistia a imagem; abandonou-se por fim, deixando o corpo deslizar numa queda suave, caindo pesado em seu chão nebuloso.

— Não há fuga possível! – disse o espectro. Teremos agora nosso confronto tão adiado.

— Quem é você? O que espera de mim?

— Não sabe quem sou? Todos os homens me conhecem, embora tentem há muito, ignorar-me; porém nunca fogem ao meu encontro; cedo ou tarde todos se defrontam comigo e são obrigados a desvelar meu rosto.

À medida que falava, sua imagem tornava-se límpida; seu capuz arroxeado caía-lhe aos ombros, deixando à mostra suas faces. Sim, suas faces! A figura era ambígua: um lado de sua face era o de uma bela mulher e o outro de um homem de rosto desfigurado, como se tivesse sofrido queimaduras de ácido forte. A capa caía lentamente, deixando a ver todo o corpo; porém o lado da face de bela mulher possuía um corpo disforme, em estado de deterioração, igual a um cadáver cuja carne apodreceu desprendendo-se dos ossos. O lado da face masculina era dotado de corpo sadio e viril; os dois sexos separavam-se de forma contrastante, como as faces: o de mulher irreparável e o de homem perfeito.

Bael estarrecido, contemplava o ser a sua frente, num misto de confusão e nojo.

— O que você fez a mim? Outros de mim fogem; mas a sua geração me destroça e logo nenhuma de minhas partes será reconhecida.

— Quer dizer que… O homem emudeceu diante da percepção do fato. Aquela criatura era a sua imagem, o retrato de todos os viventes de sua época que, dotados de corpo, não sabiam o que fazer dele, nem tampouco definiam-se como homens. Não havia erro em seu mundo nem angústia, nem questionamentos. Os “homens de seu tempo” faziam o que lhes era dado a fazer; conheciam o que a Máquina-Cérebro achava que deviam conhecer; não tinham liberdade de escolha e qualquer pensamento, fora do sistema, era interceptado e interrompido de imediato. Todos tinham comida, bebida, moradia, e, em tempo determinado, terminavam suas vidas. Era um mundo perfeito, tão perfeito, que de nada servia ao homem enquanto homem. Pois que é um homem sem opção? Sem desejos? Sem intuição? O que é esse amontoado de carne em forma humana? Certamente não é um homem em sua essência pura.

Um ser se faz a cada minuto, a cada descoberta de si ou do mundo, a cada novo passo nesse caminho escuro, quando vence uma barreira.

A cada escorregão, a cada erro, a cada fragmento de angústia, a cada raio ínfimo da luz da felicidade, o homem se faz homem ninguém poderia construir um mundo tão lindo, uma casa tão perfeita quanto aquela feita pelas próprias mãos daquele que a habita. E no prazer da ação, na eterna insatisfação, que o humano segue, passo a passo, o caminho da vida, descobrindo, a cada instante novo, um novo mistério, um segredo desvelado, a amplitude de um minuto. O homem é o único ser que tem consciência de sim mesmo, que projeta, pensa seu projeto, seu ato presente e seu futuro. E a única criatura que tem consciência de sua morte; mas sabe que pode viver uma vida completa em um único segundo.

O mundo é mistério; é descoberta. O homem é mistério; cabe ao sujeito erguer seus véus, olhar para si e o mundo, em sua volta, não como algo à parte, mas como ser integrante desse universo, de inúmeras dimensões e seres. Lutar pelo seu espaço, tomar consciência, posse de si mesmo no mundo.

O homem é a causa da máquina; consequentemente tornar-se seu efeito. Inapto para seguir sua estrada, construir seu destino, abandonou-se nos braços de um cérebro perfeito, aniquilou-se como humano. Bael perguntava-se, porém, se valeria ter novamente posse de sua essência. Saberia ele viver por si, só?

Sempre fora dirigido em todos os seus atos; agora via, diante de si, seu próprio espectro, a imagem deturpada, opaca daquilo que era. Mas, enfim, o que era ele afinal?

Ah! Quanta confusão de certo causava aquele momento interminável de sua existência; de repente imobilizou-se ante a palavra existência: era isso! Até aquele momento não existira realmente, não em sua totalidade de ser, de homem que habita um mundo, que escolhe e transforma o mesmo. Era simples amontoado de substância orgânica, matéria animada, dirigida por uma máquina; nunca optara por nada; até mesmo suas necessidades fisiológicas; eram controladas; tinha uma bolsa incutida em seu intestino que era preenchida e retirada automaticamente todos os dias, às dezenove horas. Isso era tido como normal, pois poupava tempo; e a cidade não necessitava de tantos sistemas de esgoto. Como podia ter vivido assim durante tanto tempo? – perguntava-se aturdido, entre aquela guerra de pensamentos.

— Vivido? Então você pensa mesmo ter vivido?

Olhou ao seu redor, deparando com um a mulher, aparentemente saída das portas do passado, a qual respondia seus pensamentos. Vestia-se como uma hindu: na testa uma medalha de ouro, a cabeça e o corpo cobertos por véus coloridos, deixando transparecer seu corpo nu, amorenado e perfeito.

Sua voz era doce como a beleza de sua face; porém seus olhos negros traziam um profundo sentido de vazio. A medida em que Bael penetrava aquele olhar hipnotizante, sentia o estômago doer; a cabeça girava, dando-lhe uma sensação de total descontrole físico.

— Não se preocupe! — afirmou a senhora ― Todo o primeiro encontro do homem comigo, resume-se basicamente nisso, náusea. Eu sou a angústia; é agora minha vez de ocupar meu lugar, esse trono vazio no altar de sua existência. Ditas tais palavras, apontou com a mão, constituída de seis dedos, para um canto do ambiente nevoado, onde se achava disposta uma cadeira vermelha, almofadada. Seguiu, sem desviar o olhar de Bael, até a mesma; a cada passo dado pela mulher, Bael contorcia-se numa dor alucinante. Ao mesmo tempo tinha a sensação de que todo seu corpo se partia; seus ossos, sua carne, irrompiam para fora; seus braços, dedos, pés, saíam de seus lugares, partindo-se no espaço. Seu corpo desfez-se totalmente; mesmo assim via tudo tendo consciência de que continuava a ser o mesmo.

— Não posso entender! O que tudo isso significa?

— Isso que vê, à frente, é o homem que fizeram de você. Destrua sua carcaça! Faça agora de seus pedaços o homem que quer ser! O mundo é movimento, transformação. Faça de você um novo; o homem não é imutável. Vai! Construa-se novamente! Sinta a dor e o prazer da vida, da liberdade de ser.

Bael caminhou lentamente até seus destroços e começou a trabalhar com afinco; após um tempo sem medida, olhou satisfeita a angústia. Terminei! Veja! Ao apontar para o corpo inerte que acabara de montar, esse desaparecera. Ergueu a fronte inquisitivo para a senhora do trono. Essa, calmamente respondeu sua pergunta calada.

— Acaso, aquele corpo não era seu?

— Sim! Mas…

— Já o veste novamente. Veja seu trabalho e julgue-o! Mostrou um espelho de grande amplitude às suas costas.

Bael hesitou. Logo virou alegremente, tendo em mente haver construído com perfeição, pois nunca falhara em coisa alguma antes. Ao vislumbrar o reflexo do espelho, soltou um grito pavoroso, semelhante ao rugir de um animal ferido, sofrendo às portas da morte. Seus olhos viam realmente? Aquilo não poderia ser ele, não!… A imagem era monstruosa. Seus braços ocupavam o lugar da cabeça, e esta prolongava-se do ventre; sua face, os olhos, eram dispostos de forma dessincrônica, bem como o nariz e a boca; as pernas tinham os pés voltados para os lados. Chorou amargamente, conhecendo o sal das lágrimas pela primeira vez, o insípido gosto da frustração. No auge de seu desespero, a angústia refletiu-se no espelho.

— Chora pelo que vê? Alegre-se! Agora é humano, imperfeito; sentirá, em breve, o gozo dessa imperfeição; caberá a você seguir a cada passo de sua vida o aperfeiçoamento transcendendo seus limites; ou, permanecer como está. Toda a mudança é dolorosa e, no momento mesmo do sofrimento, todos os caminhos de luz se ofuscam diante de nossos olhos. Para ficar onde está, basta fechar os olhos e esquecer-se de que é responsável pela sua liberdade, e, também, pela de seus semelhantes. Como ser no mundo, tem a obrigação de transformá-lo, torná-lo melhor, como também a você. A perfeição humana pode nunca ser alcançada numa só vida; mas o homem, quando se descobre como tal, sabe que existe muito mais que um corpo, que uma vida, mas, o homem quando se descobre como tal, sabe que existe mais de que um corpo, que uma vida, e que, no universo, existem mistérios ainda não penetrados, porém não inalcançáveis. Aos poucos, seu ser perdido, no imenso conflito, começou a libertar-se, tornando-se leve; como uma pluma perdida no céu, levada pelo vento, foi saindo de si, voando para o mundo extrínseco; perdeu-se na imensidão do ar, do céu; nada pensava, só sentia. Naquele instante, nele não havia nenhuma razão; só a delícia do ser carregado pelo vento do mundo, prevalecendo seu lado animal. Foi… Voou, livre.

Bael abriu os olhos, a luz do sol feriu-lhe a retina, fazendo-o fechar e abrir os olhos até habituar-se a ela. Tomou conhecimento de seu cômodo; estava deitado. Ao seu lado Dafni afagava-lhe os cabelos num gesto carinhoso. Tonto ainda, nada dizia. Olhava ao redor numa sensação de êxtase, num sentimento de irrealidade que amortecia todos os seus membros.

— A viagem foi cansativa, não é mesmo?

— Sinto-me diferente; mas não sei bem explicar.

— Vivo! Sente-se vivo! Não é mais controlado. Pode, agora, fazer o que quiser de seu destino.

— Como? O microchip controla meu cérebro. Esqueceu-se disso?

— Não! Você o desativou. Sua força é bem maior que imagina. Pode, agora, ajudar seu povo a libertar-se da Máquina-Cérebro.

— Você não entende o sistema! Ele á complexo demais para ser vencido assim, com tanta facilidade, ainda mais por homens que sempre se submeteram a ele.

— Você o venceu! Libertou-se! O homem constrói a máquina; pode destruí-la. Basta querer.

— A Máquina-Cérebro é movida por fusão nuclear; poucos funcionários trabalham na torre central; são eles totalmente vigiados. Quando entram na torre, recebem as pulseiras de medição; qualquer alteração em seu ritmo cardiovascular, provocada por um pequeno resquício de medo, seria imediatamente captada, mesmo escapando do controle do microchip cerebral. Nunca arranjaria um voluntário que se dispusesse a fornecer-me informações da torre. Seria a única forma de derrotar a Máquina-Cérebro.

Dafni levantou-se, num pulo de gato, da cama. Caminhou saltitante pelo aposento, com um sorriso debochado e um olhar malicioso. Recostou-se num balcão de frente a Bael e disse vagarosamente:

— Eis-me aqui, senhor!

Bael sentou-se na cama com um ar perplexo.

— Você?

— Claro! Quem mais? Danãe uma funcionária da torre. Eu sou Danãe! Esqueceu-se? Porém, não lhe darei informações a respeito do funcionamento da torre; eu a destruirei. Tenho força para fazê-lo, esteja certo.

— É muito arriscado! Se for pega, não terá como se salvar.

— A vida é um risco! Além disso, suas máquinas não têm força suficiente para me deter. Amanhã, será feito!

— Dafni, eu não conheço o funcionamento da Máquina-Mãe. Aliás, ninguém conhece. Ela pode ter um segundo dispositivo de energia. Não se esqueça de que é ela o cérebro que move todo o sistema de vida da terra.

— Também todos os homens, certo?

Certo! Mas…

Dafni interrompeu Bael, com um levantar austero e definitivo das mãos.

— Basta de conjecturas! Vamos aos fatos! Só assim poderemos elaborar um plano de ação. Diga-me! Há quanto tempo a máquina os rege.

— Desde o grande conflito, quando a terra não era uma só; ela era, ainda, dividida em nações, como se dizia, em países. Em meu treinamento, quando fui conectado ao grande cérebro, recebi a informação de que a humanidade caminhava a passos largos para sua total destruição. Havia divisões inúmeras, países diversos, uns ricos que controlavam as demais nações, consideradas subdesenvolvidas. No ano de 1995, desencadeou-se um grande conflito onde eles chamavam de oriente médio; era de lá que provinha energia para os veículos até então movidos pelo petróleo e, também, era utilizado em grande escala para outras fontes vitais para o homem. Houve, então, um grande cerco dos países ricos no golfo pérsico, na tentativa de apaziguar a crise e restabelecer a região petrolífera tomada, por um dos países do oriente. O fato foi que o líder dessa nação era exasperado; atacou como havia prometido a fonte de onde provinha o petróleo, e os demais países massacraram sua gente que morriam gritando pelo nome de seu deus. As nações entraram em conflito; algumas diziam ter sido a sanguinolência desnecessária; outras a defendiam como única maneira de resolução do conflito. Enfim, os países do primeiro mundo digladiavam-se jogando a culpa uns nos outros, pelo massacre. Os do terceiro separavam-se na defesa de um ou de outro lado dos gladiadores. Iniciou-se o grande conflito mundial. Nesse período, a Máquina-Cérebro estava sendo construída num subterrâneo, nas geleiras dos Andes, por um grupo de cientistas, de várias nações. O projeto era mantido em segredo para o resto do mundo, tendo sua continuidade garantida por um documento que, dizia em caso de guerra entre os mesmos, o projeto não sofreria. Como de fato continuou. Talvez até mesmo tenha sido esquecido ante os conflitos vigentes. O laboratório era de total segurança, mesmo contra o perigo nuclear. Graças a isso, a Máquina-Cérebro foi construída e sobreviveu a guerra, que devorou cinco anos da terra, e, com eles, todos os humanos que nela habitavam. A terra estava dizimada; poucos homens sobreviveram; mesmo assim estavam loucos ou muito doentes devido à radiação. A história não é completa, pois a memória do computador foi constituída pelos dados fornecidos pelos cientistas reclusos que haviam perdido um longo contato com o mundo externo. O cientista-chefe da missão, desolado com os acontecimentos, convenceu aos demais que, para salvar a espécie, não bastava construir um computador pensante, mas que tivesse capacidade de controle sobre o homem, visto que esta não o tinha. Teriam que construir uma máquina capaz de reconstruir a terra e a raça humana.

Essa, também, deveria se autoprogramar, ser capaz de coletar informações, ampliar e tomar decisões. Foi, assim, que a grande-mãe surgiu.

— Por Zeus (…)! O que houve com os que a construíram?

— As informações que recebemos é de que vivem dentro da Máquina-Cérebro.

— Como? Impossível! Seres humanos sobreviverem em uma máquina!!

— Seus cérebros foram sugados e seus genes congelados; os dois primeiros seres foram formados pela Máquina-Mãe; desde, então, nossos genes são estudados, e nos juntamos para perpetuar a espécie aos olhos da Máquina, segundo a designação da mesma. A mulher carrega o feto no ventre como nas formas primitivas de acasalamento; mas, ao nascer, é entregue a ala dos novos seres; e a mãe nunca mais o vê.

— Quer dizer que não sabe quem sãos seus pais? – não tem origem, nem história, a não ser dados de uma máquina?

— Sim! Todos assim somos!

— Fabricados? Só sabem o que a fera permite que saibam. São inofensivos a ela. Ainda diziam que o tártaro era o pior que poderia ocorrer a um homem.

— Do que está falando?

— Esqueça! Conte-me sobre! Como seu mundo foi reconstruído tão rapidamente?

— Só o que sei é que a Máquina-Mãe gerou, novamente, o céu e a terra; e nada há neles que não seja impregnada pela sua paz e segurança. Somos seus filhos; ela nos cuida do começo ao fim.

— Pela santa Minerva!! Que demônio é esse? Nem todos os gigantes e titãs do inferno seriam, assim, tão rudes. Em meu tempo, o homem temia aos deuses; podia até mesmo vencê-los, pois eram sua continuação; era uma espécie de natureza divina, força, amor, que estava fora deles, mas ao seu dispor. Embrenhamo-nos em lutas; e os homens uniam-se em amor com os deuses, nascendo homens deuses. Agora são aniquilados e, até seu ato de pura união sexual, dado aos olhos de um demônio perverso que se diverte, usando-os como brinquedos. Quando não serve, ela os desintegra. O homem está a dar seu último suspiro. Logo morrerá se não destruirmos esse demônio. Temos que fazê-lo, Bael! Agora! Não tenho muito tempo nesse corpo. A luz me vem; minha missão é resgatar suas almas para vida e seus corpos para a morte; sou seu passado, o vigor de ter sido do homem que se perdeu na opacidade do tempo, no negro reino desse crudelíssimo ser. Eu sou o passado; você o presente; juntos projetaremos um novo futuro para a humanidade.

Dafni aproximou-se de Bael com os olhos chamejantes, segurou-lhe as mãos, transmitindo-lhe energia cósmica, a força dos deuses, a esperança dos homens. Passado e presente fundiram-se numa junção de forças incontroláveis, que máquina alguma poderia jamais produzir, pois era o mistério do homem, a sensibilidade, o amor, a força maior de todos os cosmos, de todas as criaturas.

Ao separarem-se, o destino do homem já estava com o seio da luta pela vida.

Dafni estava no interior das instalações que abrigavam o sistema central. Na torre de energia assumira seu posto no controle da pureza dos átomos de hidrogênio. Tudo corria normalmente; todas as máquinas da torre a tinham como Danãe, facilitando-lhe em tudo as ações.

Dafni conectou-se a todos os sistemas tomando forma de energia pura, confundindo-se nos cabos de ligação com a energia dos átomos despendidos.

Sugava todas as informações da Máquina-Cérebro, sem que essa se apercebesse.

Descobriu que seu sistema de defesa, ao contrário do que pensara Bael, era fraco, quase inexistente, devido ao controle exercido sobre os humanos; achava dispendioso proteger-se contra os mesmos, achando-os incapazes de qualquer ato de resistência. Sua maior defesa era o medo do homem; esse sim a protegia mais que qualquer outro sistema ou campo magnético.

Abismada, ia passo a passo descobrindo as artimanhas do monstro de fios. Procurou descobrir o que ia dentro daquele cérebro maldito; quanto mais chegava ao centro de informações, mais energia era sugada de seu corpo. Dafni ergueu a cabeça concentrando-se, procurando a energia do sol, da terra, dos ventos, para mantê-la viva. Seu ser tornou-se luz esverdeada à medida que a natureza lhe emprestava partículas de sua energia imensa. Finalmente adentrou diretamente no centro de informações. Via, à clara luz, toda a humanidade em fila, dentro da enormidade daquela prisão escura. A Máquina dispunha de informações de todos os homens; era como se esses estivessem aprisionados dentro dela. Procurou informar-se do verdadeiro passado da raça humana; para tanto empreendeu uma viagem alucinante, voltando ao início da memória da mesma. Lia informações que, em partes, contradiziam às dadas por Bael.

A criação dos dois primeiros espécimes não fora feita em laboratório. Os cientistas do projeto já tinham, alguns deles, filhos; todos viviam no túnel, mantidos pela Máquina que ainda não funcionava em toda sua potência.

Eram famílias formando pequena comunidade; alimentavam-se de comida desidratada que havia em grande quantidade; porém, para manter a subsistência de todos, a ração era controlada, dada em porções pequenas. As crianças, em fase de crescimento, tinham direito a uma porção maior que os adultos, já formados. Dafni transformou-se mais uma vez, tomando quase que forma visível para adentrar por completo àquele mundo e perscrutá-lo de forma mais fácil. Andava então livremente entre os homens e mulheres, sem ser vista. A vida era intensa; todos tinham seus afazeres. Era uma pequena cidade. Ao continuar suas explorações pelos caminhos metálicos daqueles corredores sombrios, Dafni percebeu alguns homens escavando; vestiam-se de trapos; pareciam de idade avançada. Escavam por quê? – indagava a investigadora, cada vez mais intrigada com tamanha dissonância.

Observou, atenta ao seu redor, percebendo ser o espaço pequeno para tantas pessoas; certificou-se da veracidade de seu juízo, com medo de qualquer conclusão precipitada. Leu, então, a mente de um dos trabalhadores. Então, era isso? – concluiu seu pensamento primeiro, a seguir confirmado pela mente do homem: pretendiam construir uma cidade, com espaço adequado para todos.

Dafni mais intrigada que antes, voltou as costas aos escavadores e continuou sua exploração. Viu muitas crianças correndo pelos corredores: meninas brincavam com bonecas sentadas a um canto; meninos disputavam jogos e brigavam ao perderem em um canto oposto. Andando um pouco mais, viu, repentinamente, vários compartimentos que pareciam ser a casa de cada família. Muitas mulheres estavam grávidas; algumas prestes a dar a luz. Homens, vestidos diferentemente dos demais, trabalhavam sobre pranchas de cálculos; alguns projetavam a cidade, outros trabalhavam na complementação do cérebro do computador que, ainda, era dependente de programas humanos. Sua inteligência artificial funcionava precariamente e muitos cientistas tentavam descobrir onde haviam errado em seus cálculos.

Em uma ala, de mais de mil metros quadrados, funcionava uma biblioteca com grande acervo. Jovens, entre dezesseis a dezoito anos, devoravam obras literárias que falavam de um mundo bem diferente do que eles conheciam.

Um mundo, com sol, ar, água, árvores, romances. Alguns suspiravam após os versos de uma página lida. Voavam nas asas da imaginação, até aquele mundo de sonhos coloridos, cheio de alegres coisas que faltavam ao seu mundo sem arco-íris. Havia, também, uma escola, onde aprendiam sobre seu mundo, assistiam a filmes explicativos e mesmo a romances. Seu líder não era o cientista chefe, como Bael dissera a Dafni, mas um padre que procurava aconselhar, acolhendo cada um na medida de suas necessidades. Em sua capela, lia sempre um grande livro que impressionou particularmente Dafni fazendo-a centrar suas energias em suas páginas e, no fim de poucos segundos, havia decorado seu contexto. Estava confusa e ao mesmo tempo deslumbrada. O que acabara de ler parecia mais estarrecedor do que todo aquele mundo de máquinas, do que tudo que vira até então. O livro falava de um só deus, infinito, onipotente, que criara o céu e a terra e tudo o que neles há. Não falava de Zeus ou de Cronos. Quem seria esse deus tão poderoso e desconhecido a ela? Dizia ser ele o alfa e o ômega, e o princípio, o meio e o fim. Procurava, em vão, em sua mente, algum nome específico. Então, subitamente, surgiu em sua mente. “eu sou aquilo que sou”.

Dafni pareceu cambalear. Então não conhecia seu passado; não era ela descendente direta dos deuses. Da mesma forma que a primeira resposta, surgiu a segunda: luz e trevas, morte e vida. Um deus sacrificara seu próprio filho chamado cristo, pelos homens; esse venceu a morte. Venceu a morte? Dafni nada mais entendia. Nenhum oráculo previra aquilo. Estava ela, há milhões de anos de sua era, ouvindo falar de um cristo ressurgido de um só deus, num mundo onde a contradição era total. No fundo de sua angústia, ouviu, sem dar muita atenção ao conselho do sacerdote, a uma jovem de alma confusa que o procurara.

— Meu filho, dizia este. Não queira entender pelas vias da razão os mistérios da fé. Deus manifesta-se, de muitas maneiras diferentes, aos seus filhos. Nunca nos abandonará! Esteja certo! Porém, os caminhos de deus são muitas vezes incompreensíveis aos olhos dos homens, em sua situação atual. Porém, não esqueça que a escalada até o monte da perfeição e árdua. Deus não negará sua ajuda; mas prevalece seu livre arbítrio. Portanto, cabe a você galgar ou não os degraus da perfeição. Não se esqueça! São muitas as formas que deus pode assumir para revelar seus mistérios aos seus filhos; porém, as palavras do criador estão corretas, embora não inteligíveis, talvez, nesse momento à sua alma. Todas as criaturas são obras do altíssimo; dele fazem parte em sua perfeição. Todos temos uma tarefa a cumprir. O bem triunfará sobre o mal, esteja certo. O que parecerá trevas, será luz, e os caminhos do homem serão novamente abertos.

Dafni sobressaltou-se com as palavras, numa súbita apreensão dos conceitos.

Não importava quem era esse deus. Ela estava ali e sua missão era ajudar aos homens a retornarem ao seu estado de humanidade; no presente momento, não se importava se eram verdadeiros ou falsos os ensinamentos do tal livro. Somente enxergava claramente seu destino. Assim acelerou seu passo na história daquela civilização. Via tudo em imagens rápidas; transformações de anos davam-se em minutos aos seus olhos. O túnel tornou-se imenso, a cidade foi construída e povoada, prédios imensos, e a Máquina-Cérebro foi finalmente concluída, pronta para funcionar em toda sua potência. Perscrutava cada homem ou mulher que a rodeava, aprendia sua genética, funções sociais, credos, medos. Aos poucos tornou-se conhecedora dos homens, de seus medos, e, com isso, jogou, criando um sistema igualitário de governo para homens universalizados. Porém, seu sistema falhou, pois esquecera-se das diferenças individuais dos homens, das suas emoções, dos seus desejos sexuais animalescos. Por mais que tentasse, não conseguia abarcar um conjunto de conceitos lógicos para reger os homens. As revoltas aumentavam dia-a-dia; cada tentativa da Máquina, de controle, gerava uma nova desgraça. Porém, minuto a minuto seus sistemas enriqueciam, estudando a forma grotesca do comportamento humano, até que um dia encontrou a fórmula certa.

Destruiria os líderes, os rebeldes, os velhos, deixando viver somente os jovens e as crianças; porém, implantaria, em seus cérebros, microchips para controlar suas emoções, mais diretas. Terminaria a cidade implantando um sistema de energia vital humana, sistema esse que usaria em seu proveito. Em seus terminais e meios de transportes, em sua morada, tudo enfim corresponderia ao seu comando. Começou a arquitetar seus planos minuciosamente; seu maior colaborador seria certamente o novo chefe de pesquisas Nordon, jovem de vinte e cinco anos, brilhante e audacioso, sedento de poder; ele seria sua arma mais valiosa. Começou imediatamente a pôr em funcionamento seu plano.

Todos já se haviam recolhido às suas casas; eram duas e meia da manhã; a cidade subterrânea dormia tranqüila, sem saber que seu silencioso sono seria em breve interrompido pelos gritos incessantes de pavor, que, mais uma vez, lhes cairia sobre os ombros cansados.

 

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