Além do Olhar – Capítulo XII

Além do Olhar – Capítulo XII
Psic. Odegine Graça

No grande pico da Tessália, cercado de brancas nuvens, arejado por tépidas brisas, estava à terra dos deuses. Hera, esposa-prima de Zeus, até a pouco divertia-se contemplando a luta de Perséfone, vista em seu cristal abrangedor do espaço e tempo. O objeto divertia a deusa, mostrando os acontecimentos funestos dos mortais e deuses. A diversão acabou quando Perséfone venceu; mas aparição de Palas, essa realmente enfureceu Hera. Como ousava ela dar o néctar dos deuses a uma mortal, iniciá-la nos mistérios, enfim dar a chama sagrada da vida eterna sem a aprovação dela ou de Zeus.

Levada pela inveja ciumenta, sua companheira, foi até Zeus tentando convencê-lo do perigo de Hades desposar Perséfone. Enquanto falava, mostrava em seu cristal a nova imortal trilhando o caminho de seu encontro final.

— Veja a filha de sua cabeça! Deu a chama da imortalidade a ela; não satisfeita a encaminha para os braços de seu irmão.

— O que há de errado no ato de Palas? Ela tem autonomia para dar a poção da imortalidade a quem merecer.

— Não entende, Zeus? Palas tenta unir Hades e uma mulher do reino da luz. Se assim o fizer, gerarão filhos mais fortes que os seus, pois habitarão esses na terra da luz e no reino das sombras e os limites serão derrubados. Você enfraquecido!

Zeus sentiu-se defraudado. O pai dos deuses, com o secreto temor de que as trevas e a luz coabitassem gerando herdeiros amados na terra, o homem não seria mais assolado pelo medo da morte, mas a veria como uma continuação, como um caminho para um conhecimento mais profundo dos mistérios trilhando o caminho da imortalidade. O homem não temeria tanto os habitantes do Olimpo. Talvez chegassem mesmo a esquecê-los, procurando força maior.

— O que sugere, Hera?

— Perséfone deve sangue à mãe. Pela vida de seu pai dará seu primeiro fruto; sendo assim, o primogênito de Hades será mortal, pois é dado por um mortal, pelo sangue que sua mulher derramou.

—Impedirei, então, que o ventre da rainha do inferno gere, morrendo seu fruto como qualquer outro mortal.

— Não, essa não é a melhor solução! A atitude mais coerente, meu senhor, é não deixar visível sua intenção contra Hades e seu filho. Seu irmão é forte; pode mandar os gigantes e titãs do tártaro, em guerra contra você. Teria pouca chance de vitória.

— Posso contar com a força de ares.

— Não tenha tanta certeza! Sabe que o deus da guerra aprecia a batalha em sua pureza. Para ares quanto mais tempo durar uma peleja, mais divertida se torna.

— Sim, é provável que lutasse a meu lado, aliado também a Hades, divertindo-se no confronto.

— Por certo! Deixe Hades e Perséfone juntarem seus destinos e então, cobre a dívida; porém para que você não pereça cruel aos olhos de seus numes, dê ao primogênito de seu irmão o direito de lutar pela imortalidade, iniciando-se nos mistérios divinos. Se conseguir, perdoará a dívida da mãe. Antes imponha a condição de que Perséfone viva no inferno seis luas e seis luas no reino da luz, seu filho deve nascer no reino da luz, como mortal comum. Até que volte com o fogo da vida eterna, Perséfone não gerará.

— Nenhum mortal, jamais adentrou no reino dos mistérios, e conseguiu sair ileso. Fugir da não das Palas, por vezes nem um semideus consegue.

— Mande anunciar o oráculo, antes à mulher, depois a Hades. Sendo assim não terão tempo para perceber a verdade da sua ação.

— A criança entregue pela vida de outro, não sobreviverá até o entardecer do Olimpo.

Veja, meu senhor! Perséfone entra no Lácio e Hades a vislumbra através da cortina escura da imagem.

— Parece mesmo enamorado.

—Preparar-se-á, garanto, para um imediata viagem ao Lácio.

— Se Perséfone não o amar?

— Palas jamais erra, senhor! Se deu a poção da imortalidade indicando à moça o caminho neutro, prudente e sábia, com seu poder clarividente, já previu a união dos corpos.

— Esqueço, por vezes, que ela saiu de uma rachadura de minha cabeça. Fez-se por si só; consegue bloquear-me, pois conhece toda minha cabeça, onde foi gerada. Algumas horas intermináveis, o temor toma conta de meu coração; a força de Palas aperta meu coração, pois o enche de medo.

— Tem a mim, meu marido; sou rainha de todos. Ela não nasceu de meu ventre; sobre mim, não tem força.

Os olhos de Hera eram, por vezes, os de Zeus; Hera, perspicaz e imprudente, ciumenta e possessiva, só via, em toda situação, uma forma de reter Zeus a seu lado. Seus desejos, infortúnios de mulher esquecida, bloqueavam a visão longeva de deusa, dando-lhe uma visão humana, demasiadamente humana, para que pudesse superar a sabedoria resplandecente de Palas.

Como deusa, caminhava pelos jardins de Lácio. Todos os numes perguntavam quem era tão luzente figura, símbolo da beleza pura. Competiria igualmente com Afrodite.

Perséfone era indiferente a todos os elogios. Andava com realeza, desprezando seus súditos admiradores.

Apolo, o deus belo, divindade boa e justa, deus dos campos, divindade iluminante, era deus da luz com o sol; fez-lhe a corte, encantado. Descansava de sua viagem ao país do povo sagrado. O país era longínquo, terra dos hiperbóreos, ao norte de toda a terra conhecida. Em toda sua majestade, apresentou-se aos olhos da jovem deusa; essa, porém, ignorou seu pedido para um passeio pela fonte do jardim de pedra do toque. Apolo sentiu-se injuriado, tendo em vista até mesmo Vênus, tê-lo amado com paixão imensurável.

Defraudado, retirou-se de sua presença. Hades, que a muito chegara, observava Perséfone, com amor e medo. Havia rejeitado a muitos numes: Pã com sua graça, ares com sua arrogância viril, Apolo em sua majestosa beleza. Dionísio, e sua bebida alegre foi, igualmente, rejeitado. O que a mantinha assim tão fria ante seus admiradores? Não era arrogante, nem cruel como Hera; nem tão pouco fez voto a Héstia. Então, por que não se entregava aos prazeres do amor como os demais numes?

Hades perdia-se em meditação, procurando uma resposta que o levasse ao coração de sua amada. Seguia cada passo de Perséfone. Tornara-se sua sombra, admirava sua beleza veladamente sem mostrar-se como os outros pretendentes faziam, tinha vergonha de sua aparência. Certo dia, porém, escorregou no limo da floresta de pedra por onde a moça passeava, e foi escorregando pelas pedras até os pés de Perséfone. Seu rosto ficou junto ao solo e não fez nenhuma menção de levantá-lo.

— Você está bem? – perguntou Perséfone, num misto de pena e divertimento.

— Sim, respondeu com voz bronze, sem levantar a face. Escondia-se amedrontado. Perséfone ajoelhou-se para ajudá-lo a levantar; porém esse negava o toque das mãos da moça; temia levantar a fronte e encará-la.

-O que teme? Não me aborreci com o incidente! Não se preocupe que eu não o machucarei. Disse as últimas palavras entremeadas por um risinho divertido, porém não sarcástico.

— Não sou digno de ser contemplado por seus olhos. Sou desfigurado, horrendo; nenhuma deusa suporta minha imagem. Agrido o senso estético de todos, sejam deuses ou mortais.

— Por certo, não sou como nenhuma dessas criaturas. Os deuses que aqui encontrei, todos parecem a meus olhos incapazes de amar realmente; entregam-se a todo instante aos prazeres da fonte de Vênus; saciados, logo procuram outro par. Quanto a mim, não quero ser objeto, para que nenhum deus, voltado somente para sua beleza e próprio prazer, se vanglorie. São todos amantes de si mesmo.

Hades, impressionado com o modo com que Perséfone via os fulgurosos numes, que a todos fascinavam, levantou, num gesto entusiasta, a fronte, sem mesmo notar que o fazia. O rosto cadavérico e seus olhos negros ficaram desvelados; seus olhos exprimiam uma tristeza profunda e seu rosto não tinha expressão definida. Levantou seu corpo grande, um tanto desproporcional nas formas. Como um menino desajeitado, limpou a túnica com gestos desconcertantes.

Perséfone riu divertida de seus modos, desajeitado e tímido.

— Veja! Você ri agora de minha figura! Todos o fazem quando não gritam de pavor.

— Que absurdo! Rio porque o acho bonito! Embora bem desajeitado. Primeiro cai a meus pés, depois levanta-se de um só pulo, quase caindo novamente, e, pior, segura-se nas orlas de minhas vestes e retira um pedaço delas. Você é mesmo tímido. Como se chama?

— Hades! – respondeu o nume com o esboço de um sorriso.

— Meu nome é Perséfone. Quer acompanhar-me? Estava a passear.

— Seria uma honra. Antes, porém, devo preveni-la. Sou o deus do tártaro profundo: rei das sombras; não sou gentil, nem belo, sou mesmo bem desagradável.

— Quanto a agradar-me, não se preocupe! Sua presença me é amável. Você é o deus dos mortos?

— Sim! Isso a intimida?

— Não temo mais a morte! Estive prestes a conhecê-lo, quando ainda era mortal. Só não o fiz, porque me faltou o óbolo. E seu barqueiro é intransigente; não abriu mão da moedinha.

Perséfone concluíra a frase entre uma gargalhada alegre. Hades, sem perceber, também sorriu. O reino dos deuses e mortais tremeu. O deus da morte sorria à vida. Caminhavam luz e trevas, lado a lado; coexistiam; o mundo jamais seria o mesmo. Caminharam longamente. E foi Perséfone quem o convidou para sentar-se a seu lado no banquete. Na noite que se seguiu todos olhavam admirados Hades na companhia da deusa que a todos recusara. Os numes comentava, sua falta de gosto, dizendo não poder ser deusa, pois não possuía a noção do belo.

Apolo retirou-se da ceia, partindo nas asas de seus cisnes brancos. Porém, Perséfone e Hades viviam um para o outro, ignorando, naquele momento, a presença de qualquer ser ao seu redor. O banquete findou e ambos continuaram a beber do cálice dionisíaco, ficando sós no salão. Perséfone, ao dar pela falta dos outros numes, brincou sorridente:

— Deixaram-nos, pois se viam inoportunos.

— Como você é bela! Sua presença me faz esquecer de quem sou e chego a ter ilusões.

— O deus da morte não pode amar como os demais?

— Seria eu afortunado se dispensasse um olhar único a minha pessoa; se sua luz viesse a meus olhos, conheceria a felicidade que a mim sempre foi negada.

Perséfone tomou uma expressão séria; seu olhar penetrou o de Hades.

— Como? Não percebe? Meu coração conheceu a felicidade somente quando a luz de meus olhos revelaram sua imagem. Sempre temi pelo que diziam de você. Agora vejo que você é incompreendido. Temem os que não o conhecem. E fonte inesgotável de bondade e conhecimento. Amo-o não por um minuto; mas quero ser sua para sempre, se o seu coração me quiser.

Hades não acreditava em seus ouvidos; sentia o coração queimar pela chama do amor; entregou-se, sem palavras, aos braços da deusa amada, num instante não se percebia mais distinção entre a morte e a vida; entrelaçados, a vida entregava-se à morte. Na fusão ardente do amor, vida e morte tornaram-se um; e a morte morreu em sua ferocidade. Naquela noite, o amor de Perséfone e Hades gerou Dafni.

Dafni acordou num solavanco; deitada, em uma mesa de pedra alta em meio às chamas de tochas, jazia no centro da sala principal do mosteiro da Varlaan.

Em imagens trepidantes pela luz do fogo, via espectros que aos poucos foi reconhecendo quando abaixaram o capuz do hábito de estopa, um após o outro, como se a descoberta da cabeça, também, fizesse parte do ritual.

Manto, a grã-sacerdotisa, aproximou-se da mesa-inicial; em suas mãos uma pedra vermelha ardia em brasa.

— Pegue! – ordenou bruscamente. Dafni, ainda zonza, sem definição acertada de presença corpórea, sentou e apanhou a pedra; seus olhos não desgrudavam dos de Manto, e a mão magérrima da menina ardia sobre o calor da pedra; nem um som saiu de sua boca, nem uma única lágrima de dor. Seus olhos de abutre desafiavam os da águia, Manto. Num instante de dor arrepiante, cerrou os punhos, obrigando as mãos a pressionar com maior força a pedra do calor, e, num gesto brusco, bloqueou seus pensamentos, expulsando Manto de sua mente. A sacerdotisa se estarreceu ante a força adquirida pela pequena, e, não sabendo como agir, cedeu, num tremular de medo, as pálpebras.

Dafni levou a mão cerrada até bem próximo do rosto de Manto, e, quando bem próxima da face esquerda, abriu as mãos encostando a pedra-fogo junto à face da sacerdotisa. Ante o espanto das demais pitonisas, continuou a pressão dolorosa, até o grito pavoroso da dor sair, finalmente, da garganta de sua vítima, irrompendo audacioso pelos corredores necrófilos do mosteiro.

— Retire seu véu, farsante! Vejo seu rosto desnudo. Não engana mais meus olhos e nem minha alma. Desista pois o malogro é o seu fim, bem como do seu plano imundo!

Manto caiu sobre o chão, encarquilhada; seu corpo, aos poucos, partia-se, rompendo o invólucro da mentirosa aparência. Ao terminar a quebra do carvalho, uma outra mulher permanecia em posição fetal jogada no solo.

Métis olhou a apavorada Pamona; Astréia e Câmenas não despregavam os olhos da figura ruiva desconhecida. Aos poucos Deméter espichou o corpo sobre o solo; com um ar malévolo no rosto, levantou-se encarando a menina, em todo seu esplendor demoníaco.

— Desvela meu rosto! Mas para que lhe adianta tal saber? Você está em meu domínio! Sou a grã-sacerdotisa, a mãe poderosa, e ninguém escapa a minha fúria. Seu sangue pelo de meu marido, é lei. Nenhuma força pode impedir a continuação do ritual.

— Pode enganar aos deuses; mas não a você mesma! Foi você a assassina de seu marido, e não minha mão, a parricida; esta só serviu como instrumento a seus propósitos maléficos; não é, grande mãe?

— Imputa a culpa de sua mãe a uma inocente?

— E mesmo pérfida! Sua alma corrompida não vê fronteiras para abrandar sua sede de poder.

— Acaso seus olhos não testemunharam o feito, daquela que a gerou? Pode pôr em dúvida sua própria consciência? Os fatos foram revelados ante seus olhos; como pode ignorá-los ou questionar sua veracidade?

— Queria, por certo, tornar-me cega; mas o inverso ocorreu, desvelou-se à minha visão. Sua magia mostrou-se ineficiente; na escuridão dos meus olhos carnais, entrevi aberta a porta sem os véus de sua feitiçaria enganosa. Disse a minha mãe que jamais obteria o perdão da grã-sacerdotisa e que os poderes da grande mãe apossaram-se dela; há tempos incontáveis, é a grande mãe poderosa, e, não podendo sujar as mãos de sangue, usou Perséfone como seu instrumento, para o fim desejado.

— Insana! E o que pensa? Como poderia velar-me aos olhos dos deuses? Tal procedimento é indigno da grã-sacerdotisa. Jamais o faria sem a punição devida. Negue sua afirmação antes que a aniquile por completo.

— Por que se amedronta, deusa augusta das searas? Teme que os deuses me ouçam e a levem ao tribunal?

— Ninguém usa tal expressão sem a devida punição. Não sobrará uma única célula viva de seu ser, por castigo a sua petulância.

— Não se precipite Deméter! Como vê, meu poder é superior ao seu, pois tenho o que a você foi dado, de forma enganosa, por certo, mas a você pertence.

— Não pode!… Nunca somente um ser possui o centro de minha força e eu o…

— Matei! Não era isso que ia dizer?

— Mente! E certo! Usa a artimanha para intimidar-me, pois não há de conseguir seu intento.

— Mentira? Quem melhor para adequar-se a essa sequaz companheira, senão você Deméter? Vestiu o Manto de mortal; usurpou o corpo de um camponesa para fugir da ira de Hera, quando seduzia Zeus às suas costas. Enganou Iáson, seu amado marido, quando este a reconheceu no campo. Prometeu gerar seu fruto, sadio, um deus bom. Ao pedir o talismã da vida, deu a entender que se despiria do corpo carnal. Engendrar o filho de Iáson no seu fulgor divino, para isso ofereceu a vida de seu verdadeiro marido a Hera, tentando assim abrandar sua fúria; pensou que dessa maneira obteria seu perdão, porque carregava no ventre semente divina. Iáson dispersou-se no nimbo; indignadamente ofuscou os olhos da deusa do Olimpo com a fumaça da vida, para continuar em seu disfarce terreno, pois os mortais eram, então, alvo fácil de suas artimanhas. Viveria com o poder do talismã, simultaneamente à vida de morta, desfrutando da dimensão divina, coberta pela névoa do esquecimento, poder do qual este é provido.

Gerava do sêmen de Meleagro, até conseguir um meio para livrar-se dele, sem que ninguém despertasse contra seu disfarce. Não houve melhor momento que a puberdade de sua filha ilegítima. Tendo em vista o fato de ter matado a pequena recém-nascida, junto com o espírito da mãe. A mulher da qual tomou o corpo. Não podia explicar a morte da pequena a Meléagro; então, mais uma vez recorreu a seus ardis. Sabendo, antes da sua fuga de Hera, que Hades se unira em amor com a filha do Cocito e esta gerara uma filha, que deveria descer as águas frias do medo, junto de si, sem nunca conhecer a luz, ou o calor, você propôs uma troca: o cadáver da mortal pela filha de Hades. A ninfa menta, agradecida por sua bondade, aceitou de bom grado, jurando jamais revelar a verdade, visto que Zeus não suportaria a geração de Hades a invadir o reino da luz. Tudo ocorreu conforme seus planos; Cocito e Zeus acreditaram ser a pequena filha do deus das sombras, e nada mais justo que residir no ínfero, junto ao pai. Preservou, então, minha mãe, filha verdadeira de meu pai, como morta; sabia que Meléagro jamais a amaria, pois, sendo uma filha do inferno, mesmo sem saber, seu coração a odiava. Uma mortal não sustentaria sua força; diluiria seu corpo, e não poderia usar a filha legítima, pois o amor impediria o ritual assassino.

Então, você esperou pacientemente até o dia em que Perséfone, sob o véu da ignorância, deixou-se possuir por sua força, executando seu plano. Não contava você, porém, com o fato de minha mãe, mesmo sem conhecer sua essência divina, vencer as Erínias e as moiras, sobrevivendo ao destino que havia você imposto a ela. Palas, contemplando, com os olhos sagrados da sabedoria, a luta heróica, concedeu a visão da real essência de imortal de minha mãe; porém, prudentemente, ocultou a seus olhos a imagem de seu pai. Assim, minha mãe uniu-se a meu pai, como esposa, gerando-me. Com isso, porém, você não contava; sou o eco das suas injustiças, Deméter, a mim deve prestar contas.

— Como pode você provar a veracidade de suas palavras? Não passam de sons vazios, sem significação. Se houvesse mesmo eu enganado aos deuses, como saberia a verdade? Eu permiti que adentrasse aos mistérios, e só desvelei o que me aprouve a seus olhos. Nem, mesmo Hera acreditaria em tamanhas falsetas

—Esqueceu-se de Pluto?

—O que tem meu filho? É cego, surdo e mudo! O que poderia revelar a você?

— Você mostra a sua maldade, privando Pluto do mundo externo! Pensou poder controlá-lo a seu prazer. Enganou-se! Suas artimanhas a ele são visíveis; ele vê além da luz, ouve os sons profundos da alma e comunica-se quando deseja, com quem deseja. Nunca adentrou em sua mente como pensava. Ele lhe mostrava o que você queria ver; a mim, sua verdadeira faceta. Provarei a inocência de minha mãe diante dos deuses, num júri constituído dos numes de maior poder que habita o Olimpo. E por certo, Deméter, você será jogada no tártaro profundo, sob os aguilhões de sua justiça. O mundo das sombras será desfeito, as almas libertas do ínfero, e meu pai gerará muitos filhos de minha mãe. E os homens não mais o temerão; mas hão de vê-lo como um deus agradável que lhes oferece sabedoria; e seu reino não será moradia, mas somente lugar de descanso para a continuação da viagem, até que todos os homens bebam do cálice da sabedoria divina.

— Nunca! Jamais sairá de meus domínios. Deméter acendeu os olhos em duas chamas, seu corpo ganhou altura, e, aos poucos transmutou-se em uma serpente enorme, de duas cabeças com os olhos em chama e a língua serpenteava escorrendo veneno da boca. As pitonisas presentes foram, instantaneamente, transformadas em pedra; e a montanha do grande meteoro caiu no reino do esquecimento; naquele fragmento perdido de vida no tempo, nenhuma divindade teve acesso a ela; no momento da batalha, aquele pedaço de terra desapareceu na mais profunda escuridão caótica.

Deméter irrompeu para o lado de Dafni abaixando as duas cabeças de serpente, prontas para devorá-la. Abriu a boca e reteve-se confusa diante da imagem de Pluto; ele estava sobre a mesa tomando o lugar de Dafni. Quando ela tomava sua forma, Deméter voltava a atacar, retendo-se, porém, diante do tremular da imagem do filho na menina. A luta seguiu por doze luas do tempo, contado fora de Varlaan, até que Deméter arrefeceu por instantes. Foi nesse fragmento de fraqueza que Pluto passou o talismã das três forças a Dafni, pendurando-o em seu pescoço.

— Vá! Fuja! É a única maneira. Dafni tentou protestar; mas Pluto deteve-a; rasgou a cortina do tempo e espaço, jogando-a em um longo caminho, silencioso. Seu corpo rompia sobre luzes do arco-íris, seus caminhos eram nuvens alaranjadas permeadas de neons azul-fluorescentes. Levitava como pluma, em um céu de pôr-do-sol; seu corpo já não tinha peso, não tinha forma; seu ser era, agora, partículas de energia, penetrando um mundo desconhecido; uma felicidade, jamais sentida antes, tomou-lhe o ser disperso; voava livre, totalmente livre, pelo espaço infinito; seu ser não encontrava barreiras, e ela vivia a eternidade daquele universo incomensurável, que se desvelava, a cada instante, numa fusão, completa e irreversível com seu ser.

Viajava em barreiras; todo o universo lhe pertencia. Ao menos, até a sua próxima parada. Dentro daquele mundo ilimitado, uma fronteira, em breve, seria seu limite.

 

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