Além do Olhar – Capítulo XI

Além do Olhar – Capítulo XI
Psic. Odegine Graça

Hades, com seus grandes olhos que tudo veem, observava a luta desde o inicio. Jamais ocorreu a uma mortal vencer suas Erínias. A bela criança tornara-se mulher. No reino das sobras, em seu trono marmóreo, Hades afagava uma das cinqüenta cabeças de Cérbero. O senhor supremo da não vida, poderoso e desapiedado, era evitado por todos os deuses; até mesmo Zeus, seu irmão dominador do céu e da terra, evitava-o; sua presença, mesmo breve, causava desconforto. Nenhuma deusa aceitara casar-se com ele; seu único companheiro era Cérbero, feroz monstro canino, guardião das camadas inferiores do cosmos, tão terrificante quanto o dono. Sua imagem lhe fazia justiça; tinha cinqüenta cabeças e voz de bronze, amável e manso com as almas que entravam no reino das sombras; feroz se alguma tentava fuga.

Hades via a bela Perséfone desaparecendo de seus domínios. A moça encontrara na meditação força para sair de seu reino. Levitava suavemente, saindo do ventre escabroso e mísero, em direção ao reino da luz. Vencia pouco a pouco as profundezas abissais.

O senhor do reino das sombras ululava como lobo, perpassado pela espada.

Todo o tártaro tremeu ante a fúria do seu deus. O deus e o reino dos mortos, o dominador e seu domínio, pela primeira vez, quebraram o silêncio reinante e inquebrável que enchia aquele lugar de sombras. Algo mudara no coração do nume da morte; algo mudava no reino das sombras.

Pítia, sacerdotisa dos jogos fúnebres, decidiu fazer uma visita a Hades, pronunciando um oráculo. Pítia respeitosa estendeu as mãos em um afago na sua descida, sendo a saudação da sacerdotisa, a deusa Gaia. Apareceu em suas vestes negras, com o capuz da pronunciação.

— O último obstáculo foi vencido. Eis que a fenda apertada do caminho da vida foi ultrapassada; a que nasceu para a luz carrega em si os últimos minutos de morte. Não foi ainda purificada. Mantém, no corpo, o sangue alimento; da cobertura liguenta conhecida do corpo, exposta ao ar, o sangue-vida adquire o odor putrefato, obrigada a banhar-se; livrar-se-á da liga primeira da verdadeira aparência, confusa e indisfarçável de vida e morte, a qual carregamos sem perceber do começo ao fim.

Aprende-se a camuflar, com ervas de bom cheiro, água límpida e tecidos purpúreos, o odor nauseabundo dos dias e noites trazidos à carne corrompendo o espírito. Anda sua mortal em estradas sem fim. O corpo lhe impõe limites, o espaço de sua mente, o engano do encontro à evolução regressiva, que todos os seres são expostos, sem poder voltar. Continua sempre. O eterno, a esperança a adequação, essas levam, embalam a vida, entre a vitória e a derrota. O engano de cada dia se faz acreditando ter vencido cada minuto, um pouco de nós se vai com ele, esperando nos braços da noite o consolo do sonho, a fuga dos vivos; adentramos na cama como no colo da mãe, procurando calor e aconchego nos braços do sono; eis, pois, mais uma filha penosa: o “imprevisto”; a noite pode sobrecair tumultuosa, cheia de maus presságios e fria. O cobertor do corpo será o pesadelo. Esse mostra aos olhos que dormem, o que não vêem quando acordados; nosso espectro nessa luta travada nas trevas da noite, cansado sonha com o brilho da aurora; os primeiros raios do sol virão aquecer o corpo; o céu azul renovará o espírito.

Quando o dia chega, sobressaltamo-nos embaixo de um céu cinza-nevoado, com chuviscos frios sobre a terra cansada; num lamento calado, levanta-se o corpo e continua o caminho, esperando…

A luz de cada batalha vencida, o faz prosseguir andando, sob os raios da vitória já ida, ignora o mórbido presente, procura sempre nova fonte de energia; porém, mestre, não se esqueça como o fazem os homens que, no final da estrada, todos caem em seus braços num último abraço.

Pítia tornou o templo, dado seu alento ao deus das sombras.

***

Perséfone no reino da luz, o encontro com Palas, a poção da imortalidade

“eu cantarei Palas Atena?

A deusa augusta? Glaucópide, inflexível, pura virgem,

Valente, protetora da cidade, sempre prudente…

Que o próprio Zeus, senhor da prudência, pariu de sua santa

Cabeça toda armada de ouro…” (um hino de Homero)

Perséfone pousou sobre o solo verde, como uma folha leve carregada por uma brisa suave.

Abriu os olhos, aos poucos, que se ofuscavam ante o brilho do sol que, naquele instante, brilhava em todo seu esplendor. Aturdida, não se moveu por um só instante; ao perceber a sua liberdade, olhou radiosa ao redor; a natureza, o brilho do sol, reavivou seu corpo. A menina apossou-se de sua alma, ignorando seu corpo de mulher; corria gritando e rindo como garota que há muito não saía de um quarto escuro, rolou na relva, cheirava flores lançando os braços ao redor das árvores, correndo, olhava tudo, querendo tocar toda a natureza viva de uma só vez. Naquele momento o mundo estava ao alcance de seus dedos; a alegria esfuziante, pura, contagiava os Numes da floresta. Cansada, enfim, tomou conta de seu estado deplorável; estava embargada pelo lodo negro de odor nauseante que feria as narinas; envolta em trapos, o estômago reclamava alimento. Um instante reflexivo lhe assegurava que vencera as profundezas abissais. Agora, como se arranjaria naquela terra sem homens?

— Preocupada? Uma doce canção propagava no ar a voz.

Perséfone levantou o olhar; via uma mulher de beleza divina; vestida como guerreira, sua armadura era de ouro; era já mulher madura, portando nas mãos uma lança e um escudo. A cabeça, um símbolo de ouro que Perséfone não definia.

Tornou a voz mansa aos ouvidos aquecendo cada célula viva do universo abrangedor do ser de Perséfone.

— Teu comportamento é destemido! Carrega o espírito do herói e venceu a prova difícil do encontro com seus medos. Abranda seu ódio e coloca em lugar prudência; como eu és uma guerreira, conquistando hoje teu maior troféu: a autoconsciência.

— Ainda não vejo meu destino com clareza; meu corpo está incrustado de lodo fétido; minhas vestes são trapos.

Ao som de suas palavras, Perséfone sentia a mágica mutação. Uma sensação de paz tomou conta de seu corpo; a lama desprendia-se gotícula a gotícula; suas vestes eram limpas, nova, de feitio diferenciado das que antes trajava; os pés vestiam sandálias finas e douradas.

Sobre os ombros, um Manto de pura lã de carneiro, tingida por cores salpicadas; os longos cabelos negros, antes desregrados, foram transformados em um diadema em tranças, presas por fio de ouro. A moça, deslumbrada, perguntou:

— Veste-me com sua magia? E uma das bruxas da floresta das teias-negras.

— Sou Minerva armada, filha sem mãe do divino pai dos deuses. Nasci de sua cabeça. Sou a prudência e sabedoria. Defendo a justiça e armo-me contra opositores da ciência e da arte. Luto contra o obscurantismo da ignorância. Sou sua vitória contemplada. Sua mente superou as paixões que inflamavam e turvavam espírito. Através da sua evolução interior, elaborou uma consciência “ciente”. Não precisa temer o homem ou as forças da natureza. Tornou uma deusa essa mulher mortal; transformou sua essência, conquistando a imortalidade.

— Perdoe se não agradeço seus favores e nem pergunto em que templo devo queimar incensos em sua honra, mas olhe minha figura!… Ainda deve andar por sua terra, à procura da expiação de meus pecados, quanto a tornar-me uma deusa. Você viu quando veio a mim o charco em que chafurdava meu corpo. Acaso precise uma deusa de ajuda?

— Suprimir em si a idéia de mérito, eis grande prova para o espírito.

— O que me diz?

— Não deseje, Perséfone, encontrar fora por toda a parte o que já está em você.

— Não tenho liberdade, a não ser agora. Meu destino é regido pelos atos que cometi no passado. Meu futuro já é traçado.

— Toda a liberdade é provisória; consiste apenas em escolher um tipo de escravidão.

— Mas eu nada fiz! Estaria agora morrendo na luz, se não tivesse surgido, vindo a meu socorro.

— Não acredite que a sua verdade possa ser encontrada por outrem. Mais que de tudo, envergonho-te disto!

— Entreguei-me à procura de minha luz e onde parei? Na mais profunda negridão de minha alma.

— Acredita que se entrega; mas a melhor parte do seu ser está enclausurada num claustro: sua mãe, seus irmãos, seus campos a detêm. Nada mais perigoso para você, que sua família, seu quarto, seu passado.

— Como livrar-me? Tudo que vê é fruto do que aprendi, dos ditos de minha mãe, de meu pai; dos feitos de meus irmãos. Os calos de minha mão lembram meu campo, meu Pão, meu quarto. A angústia de minha alma lembra o sangue de meu pai; carregarei para sempre tudo sem mudança, pois, onde eu for, minha culpa irá também. Nunca poderia desfazer-me de tudo que aprendi; disto é que sou constituída. A juventude só a possui por um momento; o resto de minha vida será para lembrá-la.

— Por detrás de todas as suas portas fechadas, encontram-se quartos vazios. Cabe a você preenchê-los.

— Seria capaz de tal feito?

— Se procurasse seus alimentos, não teria fome para comer. Se eu fizesse sua cama, não teria sono para nela dormir.

— Espero tudo que vem a mim; mas não desejo senão o que vem a mim, pois assim ensinou-me a vida. Cada desejo me enriqueceu mais do que a posse, sempre falsa do objeto de meu desejo.

— As nascentes estarão onde seus desejos a fizerem brotar. Que a importância esteja em seu olhar, não na coisa olhada. Infeliz se disser que sua felicidade é morta, porque só a admite segundo seus princípios e desejos.

— Devo prosseguir meu caminho sem voltar meus olhos, pelas estradas nas quais caminhei? Sem inclinar meus pensamentos na direção daqueles que deixei? Sabe que assim não posso fazer. Terei que voltar até minha mãe, pagar com meu sangue a vida de meu pai. Como posso isso esquecer?

— Tudo chega há seu tempo. Cada coisa nasce de sua necessidade. Tudo não passa, por assim dizer, de uma necessidade exteriorizada. Deve escolher, entre viver o presente, fazendo dele o melhor possível ou viver oscilante entre passado e futuro; não tendo nada construído no agora, como poderá desfrutar o depois?

— Posso fracassar em todos os meus intentos; assim, seria melhor nada ter feito. Por mais que faça, poderei mudar a ordem do universo? Poderia eu mudar o destino que me foi traçado pelos deuses?

— Acredita que sua essência é acabada? Jogue fora seus medos! Emancipe-se dele! Já o fez uma vez e pode repetir o feito quando quiser. Determine seu próprio futuro! A escolha é sua.

— Assusto-me por saber que mudei meu destino. Não quero ser deusa, nem escolher! Quero a proteção! Alguém que faça opção por mim, para mim. Que posso escolher, posso! São tantos os caminhos toda a escolha é assustadora é uma liberdade que um dever não guia mais.

— Perséfone, jogue fora seu passado! Não se compraza nele. Jogue fora seus medos! Convença-se que ele não se oferece senão uma das atitudes possíveis diante da vida. Procure sua força! Baseie nela sua essência e construa com suas mãos! O que um outro poderia fazer tão bem quanto você, não o faça! O que um outro poderia dizer tão bem quanto você mesma, não o diga! Só se apegue a você; em você, impaciente e pacientemente, cria o mais insubstituível dos seres.

Palas segurou nas mãos um cálice de ouro puro, retirou da ponta do bico da ave o pó, para a poção da vida eterna. Levantou o cálice, chamando potestades do vento, da luz e das trevas. Executando o ritual da consagração, estendeu o néctar a Perséfone.

— Tome o alimento dos seus! Foi conseguido por você. A vida do seu corpo não mais se esvairá, pois seu destino é sagrar a vida, unir a luz e as trevas, levando o amor para combater o ódio. De miserável tornará a deus, num caminho feito por você.

Perséfone segurou, com firmeza, o cálice sagrado, bebendo a vida eterna.

Palas observou a transmutação. O fogo sagrado, o elemento Ur, multiplicou-se em mil chamas ao redor de Perséfone, adentrando sua pele, queimando o corruptível. Neons clarificam o céu; o pássaro branco da vida adentrou pelo arco-íris a cabeça da mulher deusa. Completo o rito, Palas ordenou a imediata partida do novo ser.

— Agora vá! Segue seu caminho, nessa terra sem divisão, nesse espaço em que o homem não pode enumerar nem temporalizar. Nessas florestas, campos e mares sem nome, onde os mortais não aventuram, deixe seus pés caminharem! Descanse quando necessário! Mas siga sempre em frente, até encontrar aquele com quem dividirá o trono.

Assim, Perséfone entra no Lácio, terra neutra, onde todos os deuses podem perambular sem limites, onde água, céu e ínfero se encontram para conversarem, sem predominância de nenhuma das três forças.

 

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