Além do Olhar – Capítulo X

Além do Olhar – Capítulo X
Terapeuta e Consteladora Odegine Graça

Por um momento desistiu da luta, deixou o cansaço vencê-la, mergulhou num sono névoa e barganhou com a morte.

Perséfone desceu até o inferno; avistava o Aqueronte, rio último que cercava o reino dos mortos. A última fronteira, a última réstia de luz, entre o ser e o não ser. Avistou a embarcação de Caronte, o velho barqueiro, filho de Erbo e Estirpe, responsável pelo transporte dos mortos ao seu reino, ao seu destino final; separava, com o remo, as águas da dor, nadara no Estige, mergulhará no Cocito, sem ajuda do velho esquelético pensava Perséfone: — o que ele estava fazendo ali? Acaso ela o solicitará?

— Dê-me o óbolo! Vou levá-la até Hades.

— Não tenho moeda! Mesmo que carregasse todo o bronze da terra, não o daria a você, velho esmoleiro!

— Então, pensa desafiar-me?

— Não penso! Já o fiz! Vê! Nadei no rio da dor; mergulhei no das lamentações e saí de todos eles sem sua ajuda.

— Porém, o Aqueronte você não ultrapassa; sem minha ajuda e não a ajudo sem minha moeda.

— Não sei de onde tira tamanha besteira! Idéias como essas só podem provir de uma cabeça esquelética como a que carrega. Não vê que estou viva? Ou seus olhos estão cheios de teia de aranha para que não enxergue a verdade? Por que iria eu para o reino dos mortos, onde não há vida e nada se faz? E o reino do não ser. E, quanto a mim, ainda sou, não sei exatamente o quê; mas que sou, isso eu sou mesmo; só tenho que descobrir o quê.

— Andou se banhando no Letes, menina?

— Não! Respondeu com ar inocente.

— Como pode ser tão esquecida, então?

— Sua caveira velha já viu alguém esquecer o que nunca soube?

Caronte riu da resposta da menina, ingênua e cheia de tanta verdade e desapareceu na névoa do reino escuro.

Perséfone moveu os braços com toda a força que encontrou em seu ser, em seu mais íntimo recôndito, no último recanto vivo de sua alma. Caronte afastara-se em seu barco, desaparecendo em reino brumoso, que Perséfone ainda não conhecia. Não pôde levá-la ao reino sem luz, pois ela dera sinal de vida; agiu; não podia ultrapassar a barreira, caindo no reino da inação. A ação tem seu reflexo fora e dentro do tempo, numa vida imaterial e sem fim. Ao abarcar, Caronte relatou seu malogro as três Erínias.

Aleto, aquela que nunca descansa foi a primeira das três divindades a visitar Perséfone. Ao falar, sua voz soou como um tambor a retumbar na mente da moça, trazendo-lhe à consciência sua culpa.

— Por que resiste em seu charco? Está dominada pela desordem moral. Não pesou suas ações; matou sem piedade; será julgada, entregue aos braços de Hades, aquele que por você anseia. Desista! Siga-me! Abandone seu cansaço e, com a força de meu braço, carregarei seu fardo. Desiste e descansa!

— Certa é minha imprudência! Usei maléficos poderes a mim dados. Minha justificativa é a ignorância de meu coração; o ódio cegou-me e por isso, não posso dar-lhe meu fardo, pois, se o fizesse, jamais sairia do reino das sombras. Adentro minha alma, sofro para conhecer os mistérios de meu próprio ser. Somente me conhecendo, posso controlar-me, livrando-me de imprudências futuras. Como hei de reparar meu atos e aprender com meus erros, se levar meu fardo?

Então Perséfone mexeu, num desafio triunfal, seus braços ainda viviam, ainda lutava.

Aleto retirou-se com um rugido de animal ferido. Entrando no tártaro, relatou o evento às duas outras Erínias. Estas, por sua vez, partiram juntas em um vento furioso até Perséfone. Ao chegarem, contemplaram um leve sopro de vida a desvanecer. Animadas diante da visão, partiram, indômitas, com toda sua força vingativa. Foi Tisifone quem levantou primeiro a voz.

— Sou aquela que vem cobrar seus homicídios. O sangue dos seus mortos gritam em meus ouvidos. Perguntam pelos cantos de meu reino: — onde se esconde Tisifone, a grande vingadora, a juíza dos homicidas? Acaso esconde-se de nós? Tem medo daquela que bebeu com ira nosso sangue? Não poderá fugir do destino que seus crimes traçaram! Vem agora comigo! Dá descanso ao seu coração.

— Não esqueci meus crimes, grande Erínia justiceira; estou sofrendo precisamente pela consciência lívida que tomo de mim, de minhas ações. Não transfiro ao externo minha culpa; procuro a resposta em minha consciência. Não! De certo não fujo ao vaticínio de meu coração! Passo pela chama do desespero da solidão, procurando a verdade de minha existência, perco-me nos infortúnios do mistério e, na escuridão, procuro-me. Mas, ainda, sou feto pequeno; porém, já não sou um embrião no caminho de mim mesma. Não desisto de meu caminho; meus motivos são fortes e minha existência corre o risco da aniquilação. No vazio escuro, continuava a dança serpenteada dos braços, numa volição assombrosa a uma criatura mergulhada no rio do desespero.

Tisifone, reconhecendo seu malogro, partiu como um furacão, terminando por recolher-se em sua derrota.

Megera assistiu a tudo calada, dirigindo-se em sua magnificência invejosa até Perséfone; um soslaio fê-la vislumbrar, por entre a lama, a beleza fulgorante da moça; contorceu-se pela fúria.

— Quem pensa ser? Uma deusa desafiando os servos de seu destino? Direi, com prazer, o que parece a meus olhos. Você é profana e parricida, amaldiçoada por aquela que a gerou, odiada por seus irmãos. Só tem motivo para desagregar a vida de seu corpo; ao contrário apegasse arduamente a uma réstia de luz, que não sabe de certo a existência. Tal atitude não é movida de razão por certo. Profanou a santidade de sua família; ninguém é por você. Diga-me então, o que espera do reino da luz? Digo pois o que terá: repugnância de seus iguais. Nem homem ou mulher oferecerá um teto para que a protejam da chuva da noite ou do sol inclemente. Dormirá ao relento, sem teto nem palha; cumpra seu castigo, pois em seu futuro não há esperança.

— Bem claro é meu fado. Carrego na alma a dor dos séculos. Luto por minha consciência, começo meu trabalho de expiação por minhas culpas. Minha alma, com respingos de consciência, estabelece, pois, uma relação de causa e efeito com o além: adquiro conhecimento ulterior, o do bem e do mal, a certeza de que tudo se equipara num eterno ir e vir entre a vida e a morte, nem processo evolutivo, que somente os iniciados nos mistérios podem conhecer e experimentar.

Ditas tais palavras, Perséfone sentia uma estranha força vinda do seu âmago; seus braços eram tão fortes que erguiam todo seu corpo do lodo: nascia, abria os olhos. Sua figura erguia-se com lentidão: primeiro a cabeça depois todo o corpo. Levantou-se como um leopardo, bramindo num misto de dor e prazer. Venceu o medo, nasceu do ventre de seu próprio inferno. Megera, amedrontada com tamanha força, protegia o rosto contra a luz. Transformou-se em uma nuvem de fumaça negra e densa, e desapareceu diante da vitória-régia de Perséfone.

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