Além do Olhar – Capítulo I

Além do Olhar – Capítulo I

Era uma noite como outras, dessas em que a melancolia se faz companheira gélida dos seres esquecidos pelo mundo em um canto fétido, entregues às correntes dos ventos do desespero e do infortúnio, dos que sem pedir existem e continuam a viver mesmo sem querer.

Danãe, mergulhada na escuridão infinita do tédio, quase desfalecia; seu olhar distante traduzia toda a angústia carregada por sua alma. Sentia-se vagar pelo espaço, sem tempo nem dimensão. Nada a ligava ao mundo dos vivos. Morta, seu corpo inflamava-se com fogo da vida, e o sangue corria por suas veias, fluindo sem compaixão no espaço vazio de membros inúteis que constituía seu corpo. Sua mente desnuda de pensamentos futuros, seus desejos e planos estavam literalmente mortos.

Como vive uma pessoa sem objetivos, sem esperança de futuro, sem memória ou alentos do passado? Seria por perguntar se vive;… O que é viver? …

As horas, dias, noites, passavam sem perceber sua existência. Uma sensação de irrealidade abarcava seus passos. Executava suas tarefas com precisão, cumpria sua missão diária na torre como um autômato perfeito. Ao cair da noite, só em seus aposentos, sonhava em caminhar livre pelas ruas, sentir o orvalho nos pés caminhar desde o crepúsculo até pôr-do-sol. Naquela penumbra, imaginava como seria o sol, o vento, as flores, o mar. Seu mundo era muito diferente; nem mesmo sabia de onde vinha essa sensação, esse desejo. Ao acordar, procurava um motivo para levantar e prosseguir naquela estrada inóspita, naquele mundo de solidão.

Nessa manhã, porém, seu corpo estático parecia incapaz de um só movimento. Seu estômago vazio doía. A cabeça rodava delirante. Tudo o que queria era fugir, fugir daquele mundo sem luz, sem rosto, sem brilho de vida.

Todos caminhavam no ritmo do pêndulo central, no movimento certo sorriam, mas nunca choravam. Era um ritual sem significação. Os homens olhavam a seu redor e nada viam; trocavam informações, porém não se comunicavam. Quando frente a suas faces, não havia olhar; seus olhos cegavam ante o contemplar, e o outro simplesmente não existia como outro.

Era um universo egológico: cada qual preso à gaiola escura de si mesmo, nada viam além do que imaginavam ser seu próprio reflexo.

Como podiam manter-se aquecidos naquela imensa câmara mortuária? Acaso não sentiam seu ser enrijecido naquele sarcófago de homens sem emoção de seres que não se tocam? Havia um enorme espaço nesse mundo frio e branco, tão branco (…).

Danãe, desesperada naquele vazio branco, fugia ao claustro corpóreo. Seus pés pisavam em algodão, e o ar tornara-se sem mais, áspero e rarefeito; uma sensação de embriaguez tomou-lhe os sentidos; num instante estava presa num fragmento horrível de tempo. Sentiu a mão impiedosa de Cronos a envolvê-la; face a face com o monstro de olhos chamejantes, sentiu seu braço voraz, denunciando seu apetite humano. Perderam-se num forçoso incesto; na infinita escuridão dos que nada sentem adentraram o profundo poço da não vida, rasgando o véu do ser, irrompendo a dimensão do não ser. No reino das trevas caía veloz, calada a pobre Danãe; mãos cadavéricas arrancavam sua carne, as moiras saíam da terra negra, luzindo o recanto fétido com suas faces encarquilhadas, enchendo o ar com as gargalhadas que vinham das bocas com um só dente. Danãe encolhia-se, debatendo-se inutilmente entre os braços de Cronos e as faces das moiras. Não via saída. Cansada, enfim abandonou-se à queda, nada esperando de si ou de outrem.

De súbito, uma luz fulgurante ardeu os olhos das moiras, espantou Cronos, que rugia como um animal raivoso ante o tremular lúdico do espectro que ali pairava. Aos poucos os traços materializavam uma fulgurante mulher, que envolveu Danãe numa névoa, isolando-a das ameaças, cessando a queda nesse escudo de proteção. Abruptamente um doce calor acobertou a moça; e num leve toque de dedos da desconhecida, seu ser encheu-se de uma paz revigorante jamais sentida e, com o gesto de carinho, sarou-lhe as feridas, fazendo-a adormecer naquele cálido aconchego desconhecido.

 

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