A HISTÓRIA DO CASAMENTO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

Thays Araujo

Psicóloga CRP 08/12185

Hipnoterapeuta Ericksoniana

Projetos em Qualidade de Vida e  Grupos de Crescimento e Desenvolvimento Pessoal


“O homem só é homem porque soube reunir-se ao homem”

(George-Louis Leclerc de Buffon)

O casamento é uma das instituições mais antigas do mundo e sofreu mudanças e adaptações ao longo da história de acordo com aspectos emocionais e socioculturais envolvidos (COSTA, 2000).  O ser humano de alguma forma está conectado com seus semelhantes (ANTON, 2002) e para vivermos é necessário nos relacionarmos com outros seres humanos. O crescimento físico, emocional e espiritual, passa pelo contato com outros seres humanos (ALMEIDA,1990).

Na Idade Antiga o casamento era um acordo formal entre o noivo e o pai da noiva que implicava no pagamento de um dote por parte do pai e havia uma celebração religiosa domiciliar. Assim, esta forma de união conjugal não levava em conta a vontade da noiva nem o seu consentimento (COSTA, 2000).

Na Idade Média (séculos XI-XII) o casamento passa a ser um sacramento da Igreja constituindo um modelo conjugal cristão, no qual a indissolubilidade do casamento era exigida assim como a imagem de pureza da união. Não se dava importância ao amor no relacionamento e a validade do sacramento do matrimônio residia na fidelidade e em filhos em comum, portanto, o amor entre os cônjuges era considerado um resultado da união e não como base do relacionamento.

O casamento tinha por função ligar duas famílias e permitir que elas se perpetuassem, mais do que satisfazer o amor de duas pessoas. Um novo ideal de casamento constitui-se aos poucos no Ocidente, em que se impõe aos cônjuges que se amem e que tenham expectativas a respeito do amor.

Segundo FOULCAULT (1985, p. 152), “o casamento não é mais pensado somente como uma ‘forma matrimonial’, fixando a complementaridade dos papéis na gestão da casa, mas também e, sobretudo enquanto vínculo conjugal e relacionamento pessoal entre o homem e a mulher”. Nessa obra, FOUCAULT explica que o relacionamento sexual era condenado sendo permitido exclusivamente para fins de procriação, assim não se constituiria em um pecado mortal. Acreditava-se que “o calor do excesso amoroso poderia gerar crianças com doenças e enfraquecer a descendência” (FOULCAULT,185, p. 25).

FOUCAULT (1977) estudou a articulação do papel da aliança e do papel da sexualidade e suas implicações institucionais e formulou o conceito de “dispositivos” para explicar como a aliança e a sexualidade se articulam. Para ele, a produção da sexualidade está ligada a dispositivos de poder. Num primeiro momento, a sexualidade fez parte de uma técnica de poder centrada na aliança, onde ficou estabelecido todo um sistema de casamento, de fixação e desenvolvimento de parentescos, de transmissão de nomes e bens. Os pais tornam-se, na família, os principais agentes deste dispositivo, e o sistema de aliança passam então para a ordem da sexualidade. A função do dispositivo de sexualidade na forma de família permite compreender por que a família, além de manter a homeostase do corpo social, se tornou lugar dos afetos, dos sentimentos e do amor.

Para LÉVI-STRAUSS (1982), aliança é uma das formas de intervenção do grupo sobre bens considerados escassos e essenciais para sua sobrevivência. Assim, é sempre um sistema de troca que encontramos na origem das regras do casamento, mesmo daqueles cuja aparente singularidade poderia justificar interpretações especiais. A família é pensada como agente da lei da cultura: organizando-se a partir da interdição, garante a produção da sociedade humana.

Segundo MCGOLDRICK (1995) existiam papéis e funções rigidamente exercidos; o homem era tido como provedor, e responsável pelo sustento daquela família, enquanto a mulher numa postura mais servil tinha como função nutrir e tomar conta da educação da prole, o que já lhe era passado na própria educação. As mulheres sempre foram centrais no funcionamento da família. Suas identidades eram determinadas primeiramente por suas funções familiares como mãe e esposa; passavam maior parte do tempo ligadas às atividades relacionadas à criação dos filhos.

O casamento por amor passa a ocorrer depois da revolução industrial com o capitalismo quando as mulheres entram no mercado de trabalho e deixam de ser propriedade privada da família e adquirem o papel de produtoras o que possibilitou um importante passo para sua libertação. É na cultura do século XIX que o casamento passa a ter uma condição de relacionamento amoroso com conotação sexual, a partir da profissionalização da mulher, dos métodos anticoncepcionais e com a liberação do divórcio, pois estes fatores afastaram o casamento da influência familiar, religiosa e do Estado (COSTA, 2000). Em função de todos esses fatores os valores e padrões familiares foram colocados em questionamento. Para MINUCHIN (1990) a família mudou na medida em que a sociedade mudou e evoluiu.

Nessa modificação social a mulher passou a ter um papel importante de transformação e de matriz cultural, coube a ela a função de repassar à família valores sociais, econômicos e culturais. CARTER (1995) afirma que ao dar esses passos em direção da própria identidade, a mulher despertou para a importância do seu salário no orçamento doméstico e do seu papel de provedora, função que, ao longo dos séculos, serviu para justificar a condição de chefe da família, que remete o significado de decisão, mando e poder. Desta forma a entrada da mulher no mercado de trabalho remunerado, o ingresso no mundo político, a liberação sexual, essas e outras mudanças deram forma a um novo modelo de casamento; com mais autonomia e com responsabilidades compartilhadas, a mulher passou a exercer um outro papel na relação, com espaço e direitos preservados.

A Antropologia, ciência da humanidade e da cultura, considera duas formas de relações entre os sexos, de acordo com MARCONI e PRESOTTO (2001, p. 110): união e casamento. União consiste no “ajustamento de indivíduos do sexo oposto sob a influência do impulso sexual” e o casamento ou matrimônio é o “modo pelo qual a sociedade humana estabelece as normas para a relação entre os sexos” e “cria novas relações sociais e direitos recíprocos entre os cônjuges e entre cada um deles e os parentes do outro”. Desta forma, o casamento engloba uma instituição social de todas as culturas, a família, mas com diferentes implicações sociais.

No final do século XX o cenário do casamento amplia-se para uma união conjugal regida pelas “necessidades e anseios de prazer e realização do casal, o qual pode decidir ter filhos ou não” (MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 29). Desta forma, surge o questionamento que esta pesquisa faz sobre o desejo das pessoas ter uma relação conjugal estável em algum momento de sua vida, o qual Hierocles, apud FOUCAULT (1985, p. 155) explica que “o ser humano é binário por constituição; ele é feito para viver a dois, numa relação que, ao mesmo tempo, lhe dê uma descendência e lhe permita passar a vida com um parceiro”. As pessoas podem decidir procriar, mas não são obrigadas a estar com alguém que não lhe satisfaça emocionalmente.

Através dessa trajetória história percebe-se a influência cultural e social no estabelecimento da relação conjugal, a qual se caracteriza atualmente como uma escolha individual, responsável e autônoma, baseada em laços de afeto e de afinidade.

Referência:

ARAUJO, Thays Barbosa Lima. Casamento contemporâneo: um olhar clínico sobre os laços conjugais. Curitiba: [s.n.], 2006.

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